Apenas um Dia
Capítulo 8
8
A Marina Arsenal é com o um estacionam ento de barcos, m ilim etricam ente lotada entre os dois lados de um píer de cim ento. Willem aj uda Capitão Jack a levar o barco para dentro do lugar de ancoragem , saltando para am arrar as cordas em nós com plicados. Nós nos despedim os dos dinam arqueses, que agora estão totalm ente bêbados, eu anoto o núm ero do celular de Agnethe, prom etendo enviar um a m ensagem de texto com as fotos assim que puder.
Ao desem barcarm os, o Capitão Jack nos cum prim enta com um aperto de m ão.
— Me sinto m al em pegar o dinheiro de vocês — declara ele.
— Não. Não se sinta. — Lem bro-m e da expressão no rosto de Willem , por estar dentro do túnel. Só aquilo j á valeu os cem dólares.
— E vam os tirar tudo de você rapidinho — grita Gustav.
Jacques dá de om bros. Ele beij a m inha m ão antes de m e aj udar a descer do barco e praticam ente abraça Willem .
Enquanto nos afastam os, Willem dá um tapinha em m eu om bro.
— Você viu o nom e do barco?
Não vi. Está bem atrás, gravado com letras azuis, próxim o às linhas verticais verm elha, branca e azul da bandeira francesa. Viola. Deauville.
— Viola? Em hom enagem à Viola de Shakespeare?
— Não. Jacques queria que o barco se cham asse Voilà, m as o prim o dele pintou errado, e ele gostou do nom e, então o registrou com o Viola.
— Hum m m ... Isso é m eio esquisito — digo.
Com o sem pre, Willem sorri.
— Acasos? — Im ediatam ente, um estranho trem or sobe pelas m inhas costas.
Willem concorda com um aceno de cabeça, quase solenem ente.
— Acasos — confirm a ele.
— Mas o que você quer dizer? Que era nosso destino entrar naquele barco? Quer dizer que algo m elhor ou pior teria acontecido se não tivéssem os entrado naquele barco? Entrar naquele barco alterou o curso da nossa vida? Será que a vida é tão aleatória assim ?
Willem apenas dá de om bros.
— Ou será que significa que o prim o de Jacques não sabe soletrar? — digo.
E Willem ri de novo. O som é claro e forte com o o de um sino e m e enche de alegria. É com o se, pela prim eira vez na m inha vida, eu com preendesse que este é o verdadeiro sentido do riso: espalhar felicidade.
— Às vezes não se pode saber até descobrir — diz ele.
— Isso aj uda m uito.
Ele ri e olha para m im por um m om ento.
— Sabe de um a coisa? Acho que, no final das contas, você é um a boa viaj ante.
— Sério? Não sou. Hoj e está sendo é um a anom alia total. Me senti péssim a durante o tour. Acredite em m im , não fiz sinal para ninguém , para um barco sequer. Nem m esm o um táxi. Nem um a bicicleta.
— E antes do tour?
— Nunca viaj ei m uito, e o tipo de viagem que eu fiz… sem m uito espaço para acasos.
Willem ergue um a sobrancelha com ar questionador.
— Já estive em alguns lugares. Flórida. Esquiando. E no México, m as isso parece ser m ais exótico do que realm ente é. Todo ano vam os para um resort ao sul de Cancún. É para parecer um tem plo m aia gigante, m as j uro que a única coisa que faz parecer que não se está nos Estados Unidos são as canções de Natal tocadas pelos mariachis, j unto com aquela coisa do toboágua no rio falso. Ficam os sem pre no m esm o chalé. Vam os sem pre à m esm a praia. Com em os sem pre nos m esm os restaurantes. Mal saím os do resort, e, quando o fazem os, é para visitar as ruínas, m as vam os sem pre às m esm as, todo ano. É com o se o calendário m udasse de página, m as nada m ais m uda.
— Mais do m esm o, m as diferente — conclui Willem .
— Mais do m esm o, do m esm o, m as o m esm o.
— Da próxim a vez que for a Cancún, pode dar um a escapadinha para o verdadeiro México — sugere ele. — Teste a sorte. Vej a o que acontece.
— Talvez — adm ito, só im aginando a reação de m inha m ãe se eu sugerisse fazer um a pequena viagem sozinha.
— Talvez um dia eu vá para o México — diz Willem . — Vou dar de cara com você e nós vam os para a selva.
— Você acha que isso aconteceria? Sim plesm ente daríam os de cara um com o outro, por acaso?
Willem ergue as m ãos para o céu.
— Teria que haver outro acaso. E bem grande.
— Ah, então você está querendo dizer que eu sou um acaso?
O sorriso dele se estica com o um caram elo.
— Absolutam ente.
Passo a ponta do dedão pelo parapeito. Penso nas sacolinhas Ziploc. Penso na agenda com códigos coloridos, listando todas as m inhas atividades, que m antenho coladas na geladeira desde que tinha m ais ou m enos oito anos de idade. Penso nos m eus arquivos arrum ados, com todo o m aterial de solicitação de m atrícula para a faculdade. Tudo em perfeita ordem . Tudo planej ado. Olho para Willem , o oposto disso, de m im , hoj e tam bém o oposto daquilo.
— Acho que isso é possivelm ente um dos m aiores elogios que alguém j á m e fez. — Faço um a pausa. — Mas não sei exatam ente o que diz sobre m im .
— Quer dizer que você não tem recebido elogios suficientes.
Faço um a m esura e um gesto de “sej a m eu convidado”.
Ele para e olha para m im , e é com o se os olhos dele fossem scanners. Tenho aquela m esm a sensação que tive m ais cedo no trem , de que ele está m e avaliando, só que desta vez não só pela beleza e pelo valor no m ercado negro, m as por algo m ais.
— Não vou dizer que você é bonita, porque aquele cachorro j á disse. E não vou dizer que é divertida, porque você m e faz rir o tem po todo desde que nos conhecem os.
Evan dizia que ele e eu éram os “tão com patíveis”, com o se m e parecer com ele fosse a m aior form a de elogio. Bonita e divertida — Willem poderia parar por aí e j á seria suficiente.
No entanto, ele não para por aí.
— Acho que você é o tipo de pessoa que acha dinheiro no chão, balança a nota no ar e pergunta se alguém a perdeu. Acho que chora nos film es que nem são tão tristes porque tem um coração m ole, apesar de não dem onstrar. Acho que faz coisas que a assustam , e isso a faz m ais coraj osa do que aqueles m alucos por adrenalina que saltam de bungee-jump das pontes.
Então ele para. Abro a boca para dizer algo, m as nada sai, e há um nó em m inha garganta; por um segundo, fico com m edo de com eçar a chorar.
Porque eu esperava por coisas cheias de frescura, elogios baratos: Você tem um sorriso lindo. Tem pernas lindas. É sexy.
Mas o que ele fez… Um a vez eu realm ente devolvi para o segurança do shopping 40 dólares que encontrei na praça de alim entação. E chorei em todos os film es do Jason Bourne. Com relação à últim a coisa que ele disse, não sei se é verdade. Mais do que tudo neste m undo, espero que sej a.
— Precisam os ir andando — digo, lim pando a garganta. — Se quiserm os chegar ao Louvre. É m uito longe daqui?
— Talvez alguns quilôm etros. Mas de bicicleta é rápido.
— Quer que eu faça sinal para um a parar? — brinco.
— Não, vam os pegar um a Vélib. — Willem olha ao redor e cam inha em direção a um a fila de bicicletas cinza. — Já ouviu falar das bicicletas brancas?
Balanço a cabeça, e Willem com eça a explicar que, por um breve tem po na Am sterdã dos anos sessenta, havia bicicletas brancas, e elas eram de graça, em todo lugar. Quando alguém queria um a bicicleta, pegava um a, e, quando tivesse acabado de usar, largava em algum lugar. Mas não funcionava, porque não havia bicicletas suficientes e as pessoas as roubavam .
— Em Paris, você pode em prestar um a bicicleta de graça por m eia hora, m as tem que trazê-la de volta e trancá-la, senão paga.
— Ah, eu li que acabaram de com eçar algo desse tipo nos Estados Unidos. Então é de graça?
— Você só precisa de um cartão de crédito para depósito.
Não tenho cartão de crédito; bem , não um que não estej a ligado à conta dos m eus pais, m as Willem está com o cartão de débito dele, apesar de dizer que não tem certeza se há dinheiro suficiente. Quando ele passa o cartão pelo pequeno teclado, um a das bicicletas se destrava, m as, quando ele tenta de novo para um a segunda bicicleta, o cartão é recusado. Não fico com pletam ente decepcionada. Andar de bicicleta por Paris, sem capacete, m e parece vagam ente suicida.
Mas Willem não devolve a bicicleta. Ele a carrega até onde eu estou, erguendo o assento. Ele m e olha. Então dá um tapinha no selim .
— Espere aí. Você quer que eu ande na bicicleta?
Ele balança a cabeça.
— E você faz o quê? Corre do m eu lado?
— Não. Vou sentar em cim a de você. — As sobrancelhas dele se levantam e eu fico verm elha. — Da bicicleta — esclarece.
Eu m e sento no selim largo. Willem dá um passo na m inha frente.
— Onde exatam ente você vai ficar? — pergunto.
— Não se preocupe com isso. Apenas se acom ode — diz ele, com o se fosse possível, na atual situação, com as costas dele a alguns centím etros do m eu rosto, tão perto que sou capaz de sentir o calor em anando dele, tão perto que posso sentir o arom a de roupa nova da cam iseta se m isturando com o leve cheiro de perfum e no seu suor. Ele coloca um pé num dos pedais. Então, se vira com um sorrisinho travesso no rosto. — Me avise se vir a polícia. Isto não é exatam ente perm itido.
— Espere aí, o que não é perm itido?
Mas ele j á foi. Fecho os olhos. Isto é um a loucura. Vam os m orrer. E depois os m eus pais vão m e m atar de verdade.
Um quarteirão depois, ainda estam os vivos. Espio com um dos olhos. Willem está totalm ente debruçado sobre o guidão, em pé nos pedais, sem fazer o m enor esforço, enquanto eu m e inclino para trás, m inhas pernas um a de cada lado da roda de trás. Abro m eu outro olho, solto a m ão que estava agarrada à barra da cam iseta dele. A m arina está bem atrás de nós, que estam os num a rua norm al, na ciclofaixa, andando j untam ente com todas as outras bicicletas cinza.
Entram os num a rua obstruída, abarrotada de construções, m etade da avenida bloqueada por andaim es e barreiras, e eu estou olhando para os grafites; tem um SOS, igual ao da cam iseta da banda Sous ou Sur, rabiscado lá. Estou a ponto de m ostrá-lo a Willem , m as então m e viro na outra direção e lá está o Sena. E lá está Paris! A Paris do cartão-postal! A Paris de Surpresas do Coração, de Meia-Noite em Paris, de Charada e de todos os outros film es de Paris que j á vi. Fico boquiaberta diante do Sena, ondulando sob a brisa e cintilando sob o sol do início da tarde. Descendo por sua extensão, consigo ver várias pontes arqueadas, colocadas com o pulseiras caras num pulso elegante. Willem aponta para a Catedral de Notre-Dam e, erguendo-se ali, no centro de um a ilha no m eio de um rio, com o se não fosse nada. Com o se hoj e fosse qualquer outro dia e ela não fosse a m agnífica Notre-Dam e! Passam os por outro prédio, um a construção estilo bolo de casam ento que parecia abrigar a realeza. Mas não, era apenas a prefeitura.
É engraçado com o, no tour, geralm ente víam os pontos turísticos com o esse enquanto passávam os apressados dentro do ônibus. A Sra. Foley ficava em pé na frente do ônibus, m icrofone na m ão, e nos contava fatos sobre a catedral ou o teatro. Às vezes nós parávam os e entrávam os, m as, com um a ou duas cidades por dia, na m aioria das vezes, só passávam os.
Agora tam bém estou passando por eles. Porém , de algum a form a, é diferente. Com o se, estando aqui, ao ar livre, na garupa da bicicleta dele, com o vento nos cabelos, e os sons cantando nos ouvidos e os paralelepípedos seculares estalando sob o m eu traseiro, eu não estivesse perdendo nada. Muito pelo contrário; estou inspirando, devorando, m e transform ando em tudo.
Não tenho certeza de com o explicar a m udança, todas as m udanças de hoj e. É Paris? É Lulu? Ou é Willem ? É a proxim idade dele que faz a cidade tão intoxicante ou a cidade que faz a proxim idade dele tão irresistível?
Um assovio alto atravessa m eu sonho, e a bicicleta para subitam ente.
— A viagem acabou — diz Willem . Eu salto, e ele com eça a carregar a bicicleta pela rua.
Um policial de bigode fino e expressão fechada com eça a vir atrás de nós. Com eça a gritar para Willem , gesticulando, balançando o dedo para m im . O rosto dele está ficando verm elho-vivo, e, quando puxa seu caderninho e com eça a apontar para m im e para Willem , eu fico nervosa. Pensei que Willem estivesse brincando sobre aquela coisa de ser ilegal.
Então Willem diz algo ao policial, e isso interrom pe a bronca de um a vez.
O policial com eça um falatório, e eu não entendo um a só palavra, m as tenho quase certeza de que ele diz “Shakespeare!” enquanto levanta o dedo em um m ovim ento aha! Willem concorda com um m ovim ento de cabeça e o tom de voz do policial fica m ais baixo. Ele ainda está balançando o dedo para nós, m as o caderninho volta para a bolsa. Com um toque na ponta de seu chapeuzinho engraçado, ele se afasta.
— Você acabou de citar Shakespeare para um policial? — pergunto.
Willem assente.
Não sei o que é m ais louco: que Willem tenha feito isso ou que os policiais aqui conheçam Shakespeare.
— O que você disse?
— La beauté est une enchanteresse, et la bonne foi qui s’expose à ses charmes se dissout en sang — responde ele. — É de Muito Barulho por Nada.
— O que quer dizer?
Willem m e olha daquele j eito dele, lam be os lábios, sorri.
— Você vai ter que procurar.
Cam inham os m argeando o rio e entram os num a rua principal cheia de restaurantes, galerias de arte e butiques high-tech. Willem estaciona a bicicleta no estande e saím os debaixo de um pórtico com prido, então viram os aqui e ali até chegarm os, a princípio, ao que parece ser um a residência presidencial ou um palácio real, Versalhes ou algo do gênero. Os prédios são tão enorm es e grandiosos. Então vej o a pirâm ide de vidro no m eio do pátio e sei que acabam os de chegar ao Louvre.
Está lotado. Milhares de pessoas saindo dos edifícios, com o se o estivessem evacuando, segurando canudos com pôsteres e sacolas de com pras brancas e pretas. Alguns estão anim ados, falantes, m as m uitos outros parecem exaustos, cansados, petrificados depois de um dia inteiro ingerindo porções épicas de cultura! Conheço essa expressão! O Teen Tours! gabava-se de oferecer “aos j ovens um a experiência de im ersão com pleta na Europa! Apresentarem os ao adolescente o m aior núm ero de culturas diferentes num curto período de tem po, am pliando a visão de história, língua, arte, patrim ônio e culinária”. Era para ser um a experiência instrutiva, m as era basicam ente cansativa.
Assim , quando descobrim os que o Louvre acaba de fechar, na verdade, fico aliviada.
— Sinto m uito — diz Willem .
— Ah, eu, não. — Não tenho certeza se isso se qualifica ou não com o acaso, m as estou feliz de qualquer j eito.
Viram os 180 graus, passam os por cim a de um a ponte e chegam os à outra m argem do rio. Margeando a barragem há todo tipo de am bulante vendendo livros e revistas antigas, exem plares velhíssim os, da Paris Match com Jackie Kennedy na capa e velhas publicações com capas sensacionalistas, com títulos em inglês e francês. Há um vendedor com m uitos badulaques, vasos antigos, j oias falsas e, num a caixa ao lado dele, um a coleção de despertadores vintage em poeirados. Dou um a m exida e encontro um antigo SMI de baquelite.
— Vinte euros — inform a a vendedora com um lenço no pescoço.
Tento m anter a cara de paisagem . Vinte euros é aproxim adam ente 30 dólares. O relógio vale, facilm ente, 200 dólares.
— Você quer? — pergunta Willem .
Minha m ãe ficaria louca se eu trouxesse aquilo para casa, e nunca ficaria sabendo de onde veio. A m ulher dá corda no relógio, para m e m ostrar que funciona, m as, ouvindo-o bater, lem bro-m e do que Jacques disse sobre o tem po ser fluido. Olho para o Sena, que agora está brilhando em tons de rosa, refletindo as nuvens que estão chegando. Coloco o relógio de volta na caixa.
Saím os da beirada do rio e entram os num em aranhado de ruas estreitas e tortuosas, que Willem inform a ser o Quartier Latin, onde os estudantes m oram . Aqui é diferente. Não há tantas avenidas grandes nem bulevares, m as passagens que parecem becos, estreitos a ponto de m al caberem os Sm arts, carros para duas pessoas, m odernos e m inúsculos, indo e vindo por todo lado. Pequenas igrej as, cantos escondidos, vielas. É um a Paris totalm ente diferente. E tão encantadora quanto a outra.
— Vam os beber algum a coisa? — sugere Willem .
Eu concordo.
Atravessam os um a avenida m ovim entada, cheia de cinem as, cafés ao ar livre, todos lotados, e alguns hoteizinhos, não m uito caros a j ulgar pelos preços m ostrados nos cavaletes. A m aioria dos anúncios diz complet, que tenho certeza de que significa lotado, m as alguns, não, e poderíam os pagar alguns dos quartos se trocássem os o restante do m eu dinheiro, m ais ou m enos 40 libras.
Ainda não consegui levantar esse assunto com Willem . Onde vam os ficar. Ele não pareceu m uito preocupado com isso, o que m e deixa preocupada ao pensar que nossa alternativa é Céline. Passam os por um a agência de câm bio. Digo a Willem que quero trocar m eu dinheiro.
— Eu ainda tenho algum dinheiro — diz ele. — E você acabou de pagar o barco.
— Mas eu não tenho nenhum euro. E se eu quiser, sei lá, com prar um cartão-postal? — Paro para rodar um carrinho de cartões-postais. — E tam bém tem as bebidas, e o j antar, e vam os precisar de algum para, para… — tropeço nas palavras antes de tom ar coragem para term inar — hoj e à noite. — Sinto m eu pescoço esquentar.
A pergunta parece pairar ali, com o se eu esperasse pela resposta de Willem , algum a pista sobre o que ele está pensando. No entanto, ele está olhando para um dos cafés, onde um grupo de garotas a um a m esa parece estar acenando para ele. Finalm ente, se vira de volta para m im .
— Perdão? — diz ele.
As garotas continuam acenando. Um a delas está olhando para ele de cim a a baixo.
— Você as conhece?
Ele olha para o café, então de volta para m im , então de volta para o restaurante.
— Pode esperar aqui um m inuto?
Sinto um peso no m eu estôm ago.
— Claro, sem problem as.
Ele m e deixa na loj a de suvenires, onde eu giro a gôndola de cartões-postais e espio. Ao se aproxim ar do grupo de garotas, eles fazem aquela coisa do beij inho, beij inho — três vezes, em vez de duas, com o ele fez com Céline. Ele se senta ao lado da garota que estava acenando. É evidente que se conhecem ; ela fica colocando a m ão sobre o j oelho dele. Ele olha de vez em quando na m inha direção, e espero que acene para m im , m as ele não faz isso, e, depois de cinco m inutos interm ináveis, a garota pegaj osa escreve algo num pedacinho de papel e entrega a ele. Ele enfia o papel no fundo do bolso. Então fica em pé, fazem aquela coisa do beij inho, beij inho de novo, e ele cam inha de volta até m im , onde estou fingindo um profundo interesse num cartão-postal de Toulouse-Lautrec.
— Vam os — diz ele, ao pegar no m eu cotovelo.
— Am igas suas? — pergunto, correndo para acom panhar seu longo passo.
— Não.
— Mas você as conhece?
— Conheci um dia.
— E, por acaso, encontrou com elas aqui?
Ele se vira para m im e, pela prim eira vez hoj e, está irritado.
— É Paris, Lulu, a cidade m ais turística do m undo. Acontece.
Acasos, penso eu. Mas eu sinto ciúm e, posse, não só pela garota, cuj o núm ero, suspeito, ele agora tem no bolso de trás da calça, se é que j á não o transcreveu para seu livrinho negro, m as pelos acasos. Porque hoj e parecia que os acasos pertenciam apenas a nós dois.
Willem se acalm a.
— São pessoas que eu conheço da Holanda.
Algo no com portam ento geral de Willem m udou, com o o filam ento de um a lâm pada que vai dim inuindo antes de queim ar. E é então que percebo o m odo definitivo e frustrado com o ele diz Holanda e m e dou conta de que, o dia inteiro, ele não disse nenhum a vez que voltaria para casa. Então, outro pensam ento m e ocorre. Hoj e era para ele ter voltado para casa — ou para a Holanda, de onde ele é — pela prim eira vez em dois anos.
Em três dias eu irei para casa, e haverá um a m ultidão no aeroporto. Em m inha casa haverá um a faixa de boas-vindas, e um j antar com em orativo que provavelm ente não com erei por estar com problem as de fuso horário. Depois de apenas três sem anas num tour no qual fui levada a todo canto com o um pônei de com petição, receberei as boas-vindas com o um a heroína.
Ele está fora há dois anos. Por que Willem não receberá as boas-vindas com o um herói? Será que pelo m enos alguém está esperando por ele?
— Quando estávam os na Céline — pergunto a ele agora —, você ligou para alguém ?
Ele se vira para m im , os olhos escuros enrugados e confusos.
— Não, por quê?
Então com o alguém sabe que você está atrasado? Com o sabem que terão que adiar suas boas-vindas de herói até am anhã?
— Tem alguém esperando você? — pergunto.
Algo m uda no rosto dele, durante um brevíssim o m om ento, a queda da m áscara de alegria, que eu não percebi ser um a m áscara até ver o quanto ele estava cansado, inseguro, o quanto se parecia com igo em baixo dela.
— Sabe o que eu acho? — pergunta Willem .
— O quê?
— Deveríam os nos perder.
— Tenho novidades: estive perdida o dia todo.
— Isso é diferente. É se perder de propósito. É algo que eu faço toda vez que chego a um a cidade nova. Entro no m etrô ou no trem e escolho aleatoriam ente um a parada.
Percebo o que ele está fazendo. Está m udando o cenário, m udando de assunto. E entendo que, de algum a form a, ele precisa fazer isso. Então, deixo para lá.
— Com o se fosse aquela brincadeira de “colocar o rabo no burro” para viaj antes?
Willem m e dá um olhar inquisidor. O inglês dele é tão bom que às vezes m e esqueço de que nem tudo faz sentido.
— Isso tem a ver com acasos? — pergunto.
Ele olha para m im e, por m eio segundo, a m áscara cai de novo. Mas, na m esm a hora, está de volta no lugar. Não tem problem a. Ela caiu, e eu vi. E com preendo. Willem está sozinho, assim com o eu estou sozinha. E agora esta dor, que não consigo distinguir com o sendo m inha ou dele, se abriu dentro de m im .
— Sem pre tem a ver com acasos — diz ele.