Apenas um Dia
Capítulo 28
28
j ulho
Em casa
Com prei m inha passagem aérea. Paguei as aulas de francês e, m esm o com esses dois gastos, ainda tenho 500 dólares guardados depois de um fim de sem ana de 4 de Julho surpreendentem ente m ovim entado e lucrativo. O Café Finlay fecha no dia 25 de j ulho e, a m enos que as coisas sej am desastrosas nas próxim as três sem anas, devo ter dinheiro suficiente até lá.
Logo depois do 4 de Julho, Melanie vem para casa. Meus pais m e disseram que ela estaria de volta do acam pam ento por um a sem ana antes de seguir viagem para fazer canoagem no Colorado. Quando ela voltar dessa, eu j á terei ido em bora. E, quando eu voltar da Europa, j á estará na hora de as aulas recom eçarem . Eu m e pergunto se o verão inteiro passará, assim com o se passaram os últim os seis m eses, com o se nossa am izade nunca tivesse existido. Quando vej o o carro de Melanie na entrada da garagem dela, não digo nada. Mam ãe tam bém não, e é assim que eu sei que ela e Susan j á conversaram sobre nosso distanciam ento.
As aulas de francês cam inham para o final. Durante a últim a sem ana, cada um de nós tem que fazer um a apresentação oral sobre algo particularm ente francês. Faço a m inha sobre macarons, explicando sua origem e com o são feitos. Eu uso um dos aventais de chef da Babs e um a boina, e, quando acabo, distribuo macarons que Babs fez especialm ente para a classe, j unto com cartões-postais do Café Finlay.
Estou voltando da aula para casa no carro de m inha m ãe, que peguei em prestado para carregar toda as coisas da apresentação, quando vej o Melanie na entrada da garagem . Ela m e vê tam bém , e nós nos olham os por um m om ento. É com o se am bas perguntássem os: “Será que vam os fingir um a para a outra que não existim os? Que nós não existim os?”.
Mas nós existim os. Pelo m enos existim os um dia. Aceno para ela. Então cam inho em direção ao território neutro da calçada. Melanie tam bém . Ao chegar m ais perto, os olhos dela se arregalam . Olho para m inha fantasia boba.
— Aula de francês — explico. — Aqui, quer um macaron? — Tiro um dos extras que estava trazendo para casa, para m am ãe e papai.
— Ah, obrigada — Ela dá um a m ordida e abre bem os olhos. Quero dizer “eu sei”. Mas, diante de todos os m eses que se passaram , não digo. Porque talvez eu não saiba. Não m ais.
— Aulas de francês? — pergunta. — Nós duas fizem os essa coisa de curso de verão este ano, hein?
— É m esm o, você estava em Portland. Num program a de m úsica?
Os olhos dela se ilum inam .
— Sim . Foi intenso. Não só tocando, m as com pondo e aprendendo as diferentes facetas da indústria. Tivem os alguns profissionais trabalhando conosco. Eu com pus um a peça experim ental que vou produzir na escola no ano que vem . — Todo o rosto dela se ilum ina. — Acho que vou m e form ar em teoria da m úsica. E você?
Balanço a cabeça.
— Não tenho certeza. Acho que gosto de idiom as. — Além do m andarim , neste sem estre vou fazer francês, j unto com outra aula de Shakespeare com o professor Glenny. Introdução à sem iótica. E dança africana.
Ela ergue os olhos, hesita por um segundo.
— E então, sem Rehoboth Beach este verão?
Nós vam os para a m esm a casa de veraneio desde que eu tinha cinco anos de idade. Mas não este ano.
— Papai foi convidado para um a conferência no Havaí e convenceu m am ãe a ir com ele. Para m im será um favor.
— Porque você vai para Paris.
— É. Vou para Paris.
Há um a pausa. Ao fundo, posso ouvir as crianças do vizinho se refrescando nos irrigadores de j ardim . Com o Melanie e eu fazíam os.
— Para procurá-lo.
— Tenho que saber. Se algum a coisa aconteceu. Sim plesm ente tenho que descobrir.
Preparo-m e para o desprezo de Melanie, para ela rir de m im . No entanto, ela apenas pondera sobre o que acabei de dizer. E, quando diz a próxim a fala, não é tão depreciativa quanto obj etiva:
— Mesm o que o encontre. Mesm o que ele não a tenha abandonado de propósito, ele nunca poderá viver de acordo com a pessoa que você fez dele.
Não que esse pensam ento não tenha m e ocorrido. Sei que as chances de encontrá-lo são pequenas, m as as chances de encontrá-lo com o eu m e lem bro dele são ainda m enores. Fico, porém , pensando no que m eu pai sem pre diz: quando se perde algo, é preciso visualizar o últim o lugar onde estava. E eu encontrei — e então perdi — tantas coisas em Paris.
— Eu sei — digo a Melanie. E é estranho porque não m e sinto na defensiva. Sinto-m e um pouco aliviada, pois quase parece que Melanie está se preocupando com igo novam ente. E aliviada tam bém , porque eu não estou preocupada com igo m esm a. Pelo m enos não com relação a isso. — Eu não sei se faz diferença.
Os olhos dela se escancaram diante disso. Então ela os sem icerra, olha para m im de cim a a baixo.
— Você está diferente.
Eu rio.
— Não. Ainda pareço eu m esm a. É só esta roupa.
— Não é a roupa — diz Melanie, quase veem ente. — Você apenas parece diferente.
— Ah! Bom … obrigada?
Olho para Melanie e, pela prim eira vez, m e dou conta de com o ela está. Absolutam ente fam iliar. Com o Melanie de novo. O cabelo está crescendo e de volta à cor natural. Ela está usando short cortado e um a cam iseta bordada bonitinha. Sem elos no nariz. Sem tatuagem . Sem cabelo m ulticolorido. Sem roupas de “periguete”. Claro, só porque ela parece a m esm a não quer dizer que realm ente sej a a m esm a. Ocorre-m e que o ano de Melanie provavelm ente foi tão tum ultuado quanto o m eu, de m aneira que eu não consigo entender.
Melanie ainda está olhando fixam ente para m im .
— Desculpe — diz finalm ente.
— Pelo quê? — pergunto.
— Por forçá-la a cortar o cabelo em Londres, quando você ainda não estava preparada. Me senti tão m al quando você chorou daquele j eito.
— Tudo bem . Eu gostei de ter cortado. — E realm ente gostei. Talvez ele nunca tivesse m e parado se eu não tivesse um cabelo parecido com o de Louise Brooks. Ou talvez tivesse, e teríam os falado nossos verdadeiros nom es. Nunca saberei. Um a vez que os acasos acontecem , não se pode voltar atrás.
Ficam os as duas na calçada, com as m ãos de lado, sem saber o que dizer. Ouço as crianças do vizinho gritarem nos regadores. Penso em Melanie e eu quando éram os m ais novas, no tram polim da piscina do México. Sem pre dávam os as m ãos ao pular, m as, quando nadávam os de volta à superfície, tínham os que soltá-las. Independentem ente do quanto tentássem os, assim que com eçávam os a nadar, sem pre tínham os que nos largar. E, quando em ergíam os, saíam os da piscina, escalávam os a enorm e escada do tram polim , enroscávam os as m ãos e fazíam os tudo de novo.
Estam os nadando sozinhas agora. Eu entendo. Talvez sej a o que se tem que fazer para se m anter na superfície. Mas quem sabe? Talvez um dia possam os em ergir, dar as m ãos e pular novam ente.