Apenas um Dia

Gayle Forman · Capítulo 35 de 40

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Apenas um Dia

Capítulo 34

34

agosto

Utrecht, Holanda

 

Meu guia tem apenas duas páginas sobre Utrecht, então espero que ela sej a pequena ou feia ou industrial, m as ao final o lugar acaba sendo um a cidade m edieval m aravilhosa e contorcida, repleta de casas gem inadas com telhados triangulares, canais com casas flutuantes e ruazinhas estreitas que parecem poder abrigar tanto hum anos com o bonecas. Não há m uitos albergues, m as, quando apareço no único que posso pagar, fico sabendo que, antes de ser um albergue, ele j á foi um squat. E tenho aquela sensação, quase com o um radar com unicando de algum lugar secreto do m undo só para m im : Sim, é aqui que você deve estar.

As pessoas no albergue da j uventude são am igáveis e solícitas e falam inglês perfeitam ente, assim com o Willem falava. Um deles até se parece com ele — o m esm o rosto anguloso, aqueles lábios verm elhos carnudos. Pergunto se ele conhece Willem ; ele não o conhece e, quando explico que ele se parece com alguém que estou procurando, ele ri e diz que ele e m etade da Holanda se parecem . Ele m e dá um m apa de Utrecht e m e m ostra com o chegar ao endereço que o hospital m e deu, a alguns quilôm etros daqui; sugere que eu alugue um a bicicleta.

Opto pelo ônibus. A casa fica fora do centro, num a área cheia de loj as de discos, restaurantes étnicos com carne girando no espeto e grafite. Depois de algum as viradas erradas, encontro a rua, do lado oposto a alguns trilhos de trem , sobre o qual está um vagão de carga abandonado, quase com pletam ente grafitado. Bem do outro lado da rua há um sobrado estreito que, de acordo com a anotação que tenho, é o últim o endereço conhecido de Willem de Ruiter.

Tenho que abrir cam inho entre seis bicicletas presas na grade da frente para chegar à porta, que é pintada de azul brilhante. Hesito antes de apertar a cam painha, que parece um olho. Sinto-m e estranham ente calm a ao apertá-la. Ouço o toque. Em seguida a batida pesada de pés. Só conheci Willem por um dia, m as reconheço que aquelas passadas não são dele. As dele, de algum m odo, seriam m ais leves. Um a garota alta e bonita, com um a trança castanha com prida, abre a porta.

— Oi. Você fala inglês? — pergunto.

— Sim , claro — responde ela.

— Estou procurando Willem de Ruiter. Me disseram que ele m ora aqui. —

Seguro o pedaço de papel com o prova.

De algum a form a eu sei que ele não está aqui. Talvez porque eu não estej a nervosa o bastante. Então, quando a expressão dela não dá nenhum sinal, não fico tão surpresa assim .

— Eu não o conheço. Só estou alugando aqui durante o verão — explica. — Sinto m uito. — E com eça a fechar a porta.

A esta altura, j á aprendi que não ou sinto muito ou não posso ajudar são ofertas de abertura.

— Tem m ais alguém aqui que poderia conhecê-lo?

— Saskia — cham a ela. Na ponta de um a escadaria estreita aparece um a garota. Ela desce os degraus. Tem cabelo louro, bochechas rosadas e olhos azuis, e há algo vagam ente cam ponês nela, com o se, neste exato m inuto, tivesse acabado de cavalgar ou arar a terra, ainda que seu cabelo estej a cortado em pontas e ela estej a vestida com um suéter preto de lã que é qualquer coisa exceto tradicional.

Mais um a vez explico que estou procurando Willem de Ruiter. Então, m esm o não m e conhecendo, Saskia m e convida para entrar e m e oferece um a xícara de café ou chá.

Nós três nos sentam os a um a m esa de m adeira bagunçada, cheia de pilhas de revistas e envelopes. Há roupas espalhadas por todo lado. É evidente que m uitas pessoas vivem aqui. Mas, aparentem ente, não Willem .

— Ele nunca m orou aqui de verdade — explica Saskia depois de m e servir chá e chocolates.

— Mas você o conhece? — pergunto.

— Encontrei-o algum as vezes. Eu era am iga de Lien, que era a nam orada de um dos am igos de Robert-Jan. Mas não conheço Willem de verdade. Assim com o Anam iek, m e m udei para cá no verão.

— Sabe por que ele usaria este lugar com o endereço dele?

— Provavelm ente por causa de Robert-Jan — responde Saskia.

— Quem é Robert-Jan?

— Ele frequenta a Universidade de Utrecht, com o eu. Morava aqui — explica Saskia —, m as se m udou. Eu fiquei com o quarto dele.

— É claro — m urm urei para m im m esm a.

— Em repúblicas, as pessoas vêm e vão. Mas Robert-Jan voltará a Utrecht. Não para cá, m as para um novo apartam ento. Infelizm ente, não sei onde será. Eu apenas fiquei com o quarto dele. — Ela dá de om bros com o se dissesse isso é tudo.

Bato os dedos sobre a velha m esa de m adeira. Olho para a pilha de correspondências.

— Talvez eu pudesse dar um a olhada na correspondência. Ver se há algum a coisa com um a pista.

— Fique à vontade — concorda Saskia.

Dou um a olhada nos envelopes. São, na m aioria, contas, revistas e catálogos, endereçados a várias pessoas que m oram ou m oraram neste endereço. Conto pelo m enos m eia dúzia de nom es, incluindo o de Robert-Jan. Mas para Willem não há um a única correspondência.

— Willem algum dia recebeu correspondência aqui?

— Costum ava haver algum a coisa — responde Saskia. — Mas alguém organizou tudo alguns dias atrás, então talvez tenha j ogado fora as correspondências dele. Com o eu disse, ele não aparece há m eses.

— Espere aí — diz Anam iek. — Acho que vi um a correspondência nova com o nom e dele. Ainda está na caixa perto da porta.

Ela volta com um envelope. Este não é um a porcaria qualquer. É um a carta, com um endereço escrito à m ão. Os selos são holandeses. Quero encontrá-lo, m as não o bastante para abrir sua correspondência pessoal. Coloco o envelope em cim a das pilhas, m as então olho de novo. Porque a letra serpenteada desconhecida, com o endereço de retorno no canto superior direito do envelope, é m inha.

Pego o envelope e o seguro na frente do abaj ur. Há outro envelope dentro. Abro o envelope de fora e dele sai m inha carta, a que enviei ao Will Guerrilheiro na Inglaterra, procurando por Willem . Pela aparência dos selos, dos endereços riscados e da fita adesiva sobre o envelope, ela j á fora reenviada algum as vezes. Abro a carta original para ver se alguém adicionara algo a ela, m as não. Apenas foi lida e passada para a frente.

Mesm o assim , por algum a razão, sinto-m e tom ada de felicidade. Durante todo esse tem po, m inha cartinha m alfeita tam bém tem tentado encontrá-lo. Quero beij á-la por ter sido tão persistente.

Mostro a carta a Saskia e Anam iek. Elas a leem e olham para m im , confusas.

— Eu escrevi esta carta — explico. — Cinco m eses atrás. Quando com ecei a tentar encontrá-lo. Eu a enviei para um endereço na Inglaterra e, de algum a form a, ela veio parar aqui. Assim com o eu. — Ao dizer isso, tenho aquela sensação novam ente. Estou no cam inho certo. Minha carta e eu aterrissam os no m esm o lugar, ainda que sej a o lugar errado.

Saskia e Anam iek se entreolham .

— Vam os fazer algum as ligações — diz Saskia. — Com certeza, podem os aj udá-la a encontrar Robert-Jan.

As garotas desaparecem escadaria acim a. Ouço o barulho do com putador sendo ligado. Ouço os sons de conversas de um lado só, Saskia ao telefone. Mais ou m enos vinte m inutos depois elas descem de volta.

— É agosto e quase todo m undo está viaj ando, m as tenho certeza de que posso conseguir o contato de Robert-Jan em um ou dois dias.

— Obrigada — digo.

Os olhos dela piscam rapidam ente. Não gosto do j eito com o elas m e olham .

— Mas acho que tenho um j eito m ais rápido para encontrar Willem .

— É m esm o? Qual?

Ela hesita.

— A nam orada dele.