Apenas um Dia
Capítulo 26
26
m aio
Em casa
Faço um a nova lista.
Passagem aérea para Paris: 1.200 dólares;
Aula de francês na faculdade com unitária: 400 dólares;
Dinheiro para gastar em duas sem anas na Europa: m il dólares
Ao todo, são 2.600 dólares. Esse é o dinheiro de que eu vou precisar para ir à Europa. Mam ãe e papai não aj udarão na viagem , obviam ente, e se recusam a m e deixar usar m inha poupança, form ada pelos presentes recebidos ao longo dos anos, pois esta é para propósitos educacionais, e eles são os responsáveis pela conta, então não posso argum entar. Além disso, foi apenas pela intervenção de vovó, j untam ente com a m inha am eaça de ir m orar com Dee durante o verão, que m am ãe concordou em m e deixar m orar em casa. A fúria dela chegou a esse ponto. Ela está brava assim m esm o sem saber da história inteira. Eu contei a eles que fui a Paris. Não disse por quê. Ou com quem . Ou por que precisava voltar, exceto que deixei algo im portante lá; eles acham que é m inha m ala.
Não tenho certeza do que a deixa m ais furiosa: a m entira do verão passado ou o fato de eu não lhe contar tudo sobre ele. Ela se recusou a falar com igo depois do Seder e quatro sem anas se passaram quase sem nenhum a palavra. Agora que estou de volta em casa para o início do verão, ela basicam ente m e evita. O que é tanto um alívio quanto um pouco assustador, pois ela nunca fez isso antes.
Dee diz que 2.600 dólares é m uito para j untar em dois m eses, m as não im possível. Ele sugere descartar as aulas de francês. Mas sinto que preciso fazer isso. Sem pre quis aprender francês. E não voltarei a Paris, não para encarar Céline, sem saber falar.
Pois é, 2.600 paus. Factível. Se eu arrum ar um em prego. Mas a questão é que eu nunca tive um em prego antes. Nem algo rem otam ente parecido com um em prego, além de cuidar de crianças e aj udar no consultório de papai, o que m al preenche o novo currículo elegante que acabei de im prim ir num lindo papel-cartão. Talvez isso explique por que, depois de deixá-lo em todos os estabelecim entos da cidade que tinham vagas, não recebo nenhum a resposta.
Resolvo vender m inha coleção de despertadores. Levo-os a um negociante de antiguidades na Filadélfia. Ele m e oferece 500 paus. Eu, com certeza, gastei o dobro disso nos relógios ao longo dos anos, m as ele apenas m e olha e diz que talvez eu consiga algo m elhor no eBay. Mas isso levaria m eses, e eu só quero m e livrar deles. Assim , entrego os relógios, exceto o de Betty Boop, que m ando para Dee.
Quando m am ãe descobre o que eu fiz, balança a cabeça com um desgosto tão profundo, com o se eu tivesse vendido o próprio corpo, e não os relógios. A desaprovação se intensifica. Reverbera pela casa com o um a nuvem de radiação. Não há lugar seguro para se esconder.
Tenho que conseguir um em prego. Não só para ganhar o dinheiro, m as para sair desta casa. Recorrer a Melanie não é um a opção. Núm ero um , não estam os nos falando, e núm ero dois, ela está num program a de m úsica no Maine durante a prim eira m etade do verão, de acordo com m eu pai.
— Você precisa continuar tentando — aconselha Dee quando eu ligo para ele de nossa linha fixa, atrás de dicas para trabalho. Com o parte de m inha punição, m inha linha de celular foi desligada, e a senha de internet da fam ília está protegida, de m odo que tenho que pedir a eles para m e conectar à internet ou ir à biblioteca. — Deixe seu currículo em todos os estabelecim entos da cidade, não apenas nos que estão contratando, pois geralm ente os lugares que estão desesperados o bastante para contratar alguém com o você não têm tem po de fazer propaganda.
— Muito obrigada.
— Quer um em prego? Engula seu orgulho. E entregue seu currículo em todo lugar.
— Até no lava-rápido? — brinco.
— É. Até no lava-rápido. — Dee não está brincando. — E peça para falar com o gerente do lava-rápido e o trate com o o rei dos lava-rápidos.
Im agino-m e esfregando calotas. Mas então penso em Dee, trabalhando num a fábrica de travesseiros neste verão ou lavando louças no refeitório. Ele faz o que tem que fazer. Então, no dia seguinte, im prim o outros cinquenta currículos e vou de porta em porta, da livraria ao ateliê de costura e ao superm ercado, do escritório de contabilidade à loj a de bebidas e, sim , ao lava-rápido. Eu não apenas deixo o m eu currículo. Peço para falar com os gerentes. Às vezes os gerentes aparecem . Perguntam sobre m inha experiência. Perguntam por quanto tem po quero ficar em pregada. Eu ouço m inhas próprias respostas: não tenho experiência de verdade. Dois m eses. E entendo por que ninguém m e contrata.
Estou quase sem currículos quando passo em frente ao Café Finlay. É um pequeno restaurante na ponta da cidade, com decoração anos cinquenta, chão xadrez em preto e branco e m esas de fórm ica descom binadas. Toda vez que passo em frente, ele parece estar fechado.
Mas hoj e a m úsica lá dentro está tão alta que as j anelas estão vibrando. Em purro a porta, e ela se abre um pouco. Grito um olá. Ninguém responde. As cadeiras estão todas em pilhadas sobre as m esas. Há um a pilha de toalhas lavadas num dos bancos. O cardápio de ontem está rabiscado num a lousa na parede. Coisas do tipo halibute com tequila de laranj a e j alapeño com beurre blanc e kiwi. Mam ãe diz que a com ida é “eclética”, o código dela para esquisita, e é por isso que nunca com em os aqui. Não conheço ninguém que com a aqui.
— Trouxe o pão?
Eu m e viro. Há um a m ulher, tão alta e larga quanto um a am azona, com o cabelo ruivo desgrenhado escapando por debaixo de um lenço azul.
— Não — respondo.
— Filha da puta! — Ela balança a cabeça. — O que você quer? — Eu entrego um currículo. Ela gesticula no ar para ele. — Já trabalhou num a cozinha?
Eu nego com a cabeça.
— Sinto m uito. Não — diz ela.
Ela olha para o relógio de Marily n Monroe na parede.
— Vou m atar você, Jonas! — Ela ergue o pulso em direção à porta.
Viro-m e para ir em bora, m as então paro.
— Qual é o pedido de pão? — pergunto. — Posso ir buscá-lo para você.
Ela dá outra olhada no relógio e suspira dram aticam ente.
— No Grim aldi’s. Preciso de dezoito baguetes francesas, seis pães de fôrm a do tipo Harvest, integral. E alguns brioches dorm idos por um dia. Pegou tudo?
— Acho que sim .
— Acho que sim não vai passar m anteiga no pão, querida.
— Dezoito baguetes. Seis pães de fôrm a do tipo Harvest e alguns brioches dorm idos.
— Garanta que sej am brioches envelhecidos. Não dá para fazer pudim com pão fresco. E pergunte pelo Jonas. Diga a ele que é para Babs e que pode m e dar o brioche de graça e tirar vinte por cento do restante porque o garoto de entrega dele não apareceu de novo. Além disso, faça questão de que eu não receba nenhum com ferm ento. Odeio essa porcaria.
Ela pega um punhado de notas de um a caixa registradora vintage. Pego o dinheiro dela e cam inho apressada até a padaria, o m ais rápido que consigo, cham o Jonas, grito o pedido e volto correndo com ele. Carregar vinte pães é m ais difícil do que parece.
Respiro ofegante enquanto Babs avalia o pedido de pão.
— Sabe lavar louça?
Concordo com a cabeça. Isso eu sei fazer.
Ela balança a cabeça, resignada.
— Vá para o fundo e peça ao Nathaniel para apresentá-la a Hobart.
— Hobart?
— É. Vocês duas vão ficar íntim as.
Hobart acaba sendo o nom e de um a lava-louças industrial, e, assim que o restaurante abre, passo horas com ela, passando água na louça com um a m angueira gigante, colocando-as dentro de Hobart, retirando-a enquanto ainda está escaldante e repetindo o negócio todo. Por algum m ilagre, consigo m anter o controle do fluxo interm inável de louça e não derrubar nada nem queim ar m uito m eus dedos. Quando as coisas estão m ais calm as, Babs m e pede para cortar pão ou bater crem e à m ão (ela insiste que o sabor fica m elhor desse j eito) ou varrer o chão ou encontrar os filés num a das geladeiras nas quais é possível entrar. Passo a noite num fluxo de adrenalina, achando que estou prestes a estragar tudo.
Nathaniel, o cozinheiro iniciante, m e aj uda o m áxim o que pode, dizendo onde as coisas estão, aj udando a esfregar as frigideiras quando fico m uito ocupada.
— Espere até o fim de sem ana — avisa ele.
— Achei que ninguém com esse aqui. — Levo a m ão à boca instintivam ente ao m e lem brar de que Babs ficaria furiosa ao ouvir aquilo.
Mas Nathaniel apenas ri.
— Está brincando. Babs é adorada pelos gourm ets da Filadélfia. Eles se dão ao trabalho de vir aqui só por causa dela. Ela ganharia m uito m ais dinheiro se m udasse para Fili, m as diz que seu cachorro odiaria a cidade. Por cachorros eu acho que ela quer dizer nós.
Quando o últim o cliente vai em bora, os funcionários da cozinha e os garçons parecem todos soltar o fôlego j untos. Alguém coloca um velho Rolling Stones. Várias m esas são j untadas e todos se sentam . Já passa m uito da m eia-noite e eu tenho um longo cam inho até em casa. Com eço a j untar m inhas coisas, m as Nathaniel faz um sinal para que eu m e j unte a eles. Sento-m e à m esa, m e sentindo tím ida m esm o depois de ter suado a cam isa com esse pessoal a noite toda.
— Quer um a cervej a? — pergunta ele. — Tem os que pagar, m as é preço de custo.
— Ou pode beber o vinho refugado que os distribuidores trazem — inform a um a garçonete cham ada Gillian.
— Vou querer vinho.
— Parece que alguém m orreu em cim a de você — diz um dos garçons. — Olho para baixo. A saia elegante e a cam iseta, m inha roupa boa de procurar em prego, estão cobertas de m olhos que lem bram vagam ente fluidos corporais.
— Eu é que m e sinto com o se tivesse m orrido — digo. Não m e lem bro de algum dia ter ficado tão cansada. Meus m úsculos doem . Minhas m ãos estão verm elhas da água quase escaldante. E m eus pés? Nem m e faça falar.
Gillian ri.
— Falou com o um a verdadeira escrava da cozinha.
Babs aparece com grandes travessas de m acarrão e alguns pedaços da sobra de peixe e bife. Meu estôm ago solta um grunhido. As travessas são passadas por todos. Não sei se o j eito de ela cozinhar é “eclético”, m as a com ida é fantástica, o m olho de tequila j alapeño tem um leve sabor de laranj a e é m ais defum ado que apim entado. Lim po m eu prato, e então raspo o que sobrou do m olho com um pedaço do pão sem ferm ento de Jonas.
— Então? — pergunta Babs quando term ino.
Todos os olhos se viram para m im .
— É a segunda m elhor refeição que j á com i em toda a m inha vida — digo. E é verdade.
Todo m undo faz um a expressão de surpresa, com o se eu tivesse acabado de insultar Babs. Mas ela apenas dá um sorrisinho.
— Aposto que a prim eira foi com um am ante — diz ela, e eu fico tão verm elha quanto o cabelo dela.
Babs m e instrui a voltar no dia seguinte às cinco horas, e a rotina com eça novam ente. Trabalho m ais duro do que j am ais trabalhei na vida, com o um a refeição m aravilhosa e m e j ogo na cam a. Não faço ideia se estou substituindo alguém ou apenas sendo testada. Babs grita com igo constantem ente, por usar sabão em sua frigideira de ferro ou por não tirar as m arcas de batom das xícaras de café antes de elas irem para a Hobart, ou por fazer o chantilly m uito duro, ou por não adicionar a quantidade certa de extrato de baunilha. Mas, na quarta noite, j á estou aprendendo a não levar tanto para o lado pessoal.
Na quinta, antes do rush do j antar, Babs m e cham a no fundo, perto da geladeira onde se pode entrar. Ela está tom ando vodca no gargalo, o que costum a fazer antes de o rush com eçar. O batom dela deixa m anchas. Por um segundo, acho que é isso, que ela vai m e m andar em bora. Mas, em vez disso, ela m e passa um a pilha de docum entos.
— Form ulários de im posto — explica. — Pago um salário m ínim o, m as você terá as gorj etas. O que m e faz lem brar que tem se esquecido de pegar as suas. — Ela enfia a m ão em baixo do balcão e tira um envelope com m eu nom e.
Abro o envelope. Há um rolo de dinheiro lá dentro. Facilm ente uns cem dólares.
— Isto é meu?
Ela balança a cabeça.
— Nós dividim os as gorj etas. Todo m undo recebe um pouco.
Passo os dedos pelo dinheiro. As notas se enroscam em m inhas unhas ásperas. Minhas m ãos estão para lá de estragadas, m as não m e im porto, pois estão estragadas por causa do m eu trabalho. Que m e rendeu esse dinheiro. Sinto algo vir à tona dentro de m im que não tem nada a ver com passagens aéreas ou viagens a Paris ou dinheiro, sinceram ente.
— Elas aum entam no outono — diz Babs. — O verão é nossa baixa estação.
Hesito.
— Isto é fantástico. Mas eu não estarei aqui no outono.
Ela franze as sobrancelhas verm elhas.
— Mas eu acabei de colocar você para dentro.
Eu m e sinto m al, culpada, m as estava bem ali no m eu currículo, na prim eira linha — Obj etivo: conseguir em prego tem porário. Claro que Babs nunca leu m eu currículo.
— Eu estou na faculdade — explico.
— Trabalharem os de acordo com a sua agenda. Gillian tam bém é estudante. E Nathaniel vai e vem .
— Em Boston.
— Ah! — Ela faz um a pausa. — Ah, tudo bem . Acho que Gordon estará de volta depois do Dia do Trabalho.
— Tenho planos de ir em bora no fim de j ulho. Mas só se conseguir guardar dois m il dólares até lá. — E, ao dizer isso, faço as contas. Mais de cem paus por sem ana em gorj etas, m ais o salário, acho que, na verdade, vou dar conta do recado.
— Guardando para com prar um carro? — pergunta ela, distraída. Tom a outro gole de vodca. — Pode com prar o m eu. Aquela besta ainda m e trará a m orte. — Babs tem um antigo Thunderbird.
— Não. Estou guardando para ir a Paris.
Ela abaixa a garrafa.
— Paris?
Concordo com a cabeça.
— O que tem em Paris?
Olho para ela. Penso nele pela prim eira vez em algum tem po. Na loucura da cozinha, ele se torna um pouco abstrato.
— Respostas.
Ela balança a cabeça com tanta veem ência que seus cachos verm elhos se soltam do lenço.
— Você não pode ir a Paris em busca de respostas. Tem que ir a Paris em busca de perguntas, ou, no m ínim o, de macarons.
— Macaroons? Aquelas coisas de coco? — Penso nos biscoitos noj entos que com em os no lugar deles durante o Pessach.
— Não macaroons. Macarons. São biscoitos de m erengue em tons pastel. São beij os de anj os com estíveis. — Ela olha para m im . — Precisa de dois m il dólares até quando?
— Agosto.
Ela sem icerra os olhos para m im . Estão sem pre m eio averm elhados, apesar de, estranham ente, m ais averm elhados no início do trabalho do que no final, quando têm um brilho m eio m aníaco.
— Faço um trato com você. Se não se im portar em fazer j ornada dupla para o brunch do fim de sem ana, garanto que terá seus dois m il até o dia 25 de j ulho, que é quando eu fecho o restaurante por duas sem anas para as minhas férias de verão. Sob um a condição.
— Que é?
— Todo dia em Paris você tem que com er um macaron. Eles têm que ser frescos, então você não pode com prar um pacote e com er um por dia. — Ela para e fecha os olhos. — Com i m eu prim eiro macaron em Paris, na m inha lua de m el. Agora estou divorciada, m as alguns am ores duram para sem pre. Especialm ente se acontecem em Paris.
Um friozinho sobe até m eu pescoço.
— Acredita m esm o nisso? — pergunto a ela.
Ela tom a outro gole de vodca, seus olhos brilhando de certeza.
— Ah, esse é o tipo de resposta que você está buscando. Bem , não posso aj udá-la com isso, m as, se entrar rapidinho na geladeira e encontrar a m anteiga e o crem e, posso dar a resposta à fam osa pergunta de com o fazer o crème fraîche perfeito.