Apenas um Dia

Gayle Forman · Capítulo 8 de 40

Páginas do PDF

Apenas um Dia

Capítulo 7

7

 

 

Ao sairm os do restaurante, Willem m e pergunta as horas. Giro m eu relógio no pulso. Parece m ais incôm odo do que nunca, a pele irritada e pálida pelo contato com o m etal pesado durante as últim as três sem anas. Não o tirei do pulso nenhum a vez.

O relógio foi um presente de m eus pais, apesar de ter sido a m inha m ãe que m e deu na noite da form atura, depois da festa no restaurante italiano com a fam ília de Melanie, onde nos contaram sobre o tour.

— O que é isto? — perguntei. Estávam os sentados à m esa da cozinha, relaxando do estresse do dia. — Você j á m e deu um presente de form atura.

Ela sorriu.

— Tenho outro presente.

Abri a caixa, vi o relógio, passei os dedos pelos espessos elos dourados. Li a gravação.

— Isso é dem ais! — E era m esm o. Em todos os sentidos.

— O tem po não para pra ninguém — disse m inha m ãe, sorrindo um pouco triste. — Você m erece um bom relógio para seguir em frente. — Então, ela abotoou o relógio no m eu pulso, m ostrou-m e que havia m andado instalar um fecho extra do lado de dentro e tam bém contou que era à prova-d’água. — Ele nunca vai cair. E você pode levá-lo para a Europa.

— Ah, não. É m uito caro.

— Tudo bem . Tem seguro. Além do m ais, j oguei fora o seu Swatch.

— Jogou? — Eu tinha usado m eu Swatch de pulseira de zebra durante toda a escola secundária.

— Agora você é adulta. Precisa de um relógio de gente grande.

Olho para o relógio. São quase quatro horas. Se estivesse no tour, eu estaria respirando aliviada, pois a parte m ovim entada do dia estaria term inando. Norm alm ente tínham os um descanso por volta das cinco, e, na m aioria das noites, às oito horas eu j á podia estar de volta ao m eu quarto de hotel assistindo a algum film e.

— Deveríam os com eçar a ver alguns dos pontos turísticos — sugere Willem . — Você j á sabe o que quer fazer?

Dou de om bros.

— Poderíam os com eçar com o Sena. Não é este aqui? — Aponto para um a m uralha de concreto, em baixo da qual há algum a coisa parecida com um rio.

Willem ri.

— Não, isso é um canal.

Cam inham os pela trilha de paralelepípedos, e Willem pega um livro grosso, o Rough Guide to Europe. Abre um m apa de Paris e aponta m ais ou m enos onde estam os, um a área cham ada Villette.

— O Sena está aqui — ele diz, traçando um a linha pelo m apa.

— Ah. — Olho para o barco, agora preso entre dois grandes portões de m etal; a área está se enchendo de água. Willem explica que isso é um a com porta, basicam ente um elevador que suspende e abaixa os barcos em diferentes profundidades dos canais.

— Com o você sabe tanto sobre tudo?

Ele ri.

— Sou holandês.

— Isso quer dizer que você é um gênio?

— Sobre canais, sim . Dizem “Deus fez o m undo, m as os holandeses fizeram a Holanda”. — E então ele com eça a m e contar que grande parte do país foi resgatada do m ar, sobre andar de bicicleta pelos aterros baixos que m antêm a água fora da Holanda. Que andar de bicicleta é um ato de fé, com os diques acim a de você, sabendo que, de algum a form a, m esm o estando abaixo do nível do m ar, você não está em baixo da água. Enquanto ele fala sobre isso, parece tão j ovem que quase consigo vê-lo com o um a criancinha loura, olhos bem abertos olhando para os interm ináveis cam inhos de água, se perguntando aonde iriam dar.

— Talvez pudéssem os pegar um desses barcos — pergunto, apontando para a em barcação que acabam os de ver passar pela com porta.

Os olhos de Willem se ilum inam , e, por um segundo, vej o aquele garotinho de novo.

— Não sei. — Ele olha para o guia. — Aqui realm ente não há m uita coisa sobre este bairro.

— Podem os perguntar?

Willem pergunta em francês para alguém que passa por ali e recebe um a resposta com plicada, cheia de gestos. Vira-se para m im , claram ente anim ado.

— Você está certa. Ele disse que há viagens de barco saindo da baía.

Seguim os lado a lado pelo cam inho de paralelepípedos até que saím os num grande lago, onde as pessoas estão rem ando em canoas. De um lado, perto de um píer de cim ento, alguns barcos estão am arrados. Mas, quando chegam os lá, descobrim os que são barcos particulares. Os barcos de turistas j á saíram .

— Podem os pegar um barco perto do Sena — diz Willem . — É m uito m ais popular, e os barcos navegam o dia inteiro. — Os olhos dele estão baixos. Posso ver que está frustrado, com o se tivesse m e desapontado.

— Ah, sem problem a. Não m e im porto.

Ele está olhando m elancolicam ente para a água, e vej o que ele se im porta. Sei que não o conheço, m as posso j urar que o garotinho tam bém está com saudade de casa. Dos barcos, dos canais e das coisas relacionadas à água. E, por um segundo, penso com o deve ser estar longe de casa por dois anos, e então postergar a volta por m ais um dia. Ele fez isso. Por m im .

— Na verdade, eu m e im porto, sim — digo. Enfio a m ão na bolsa para pegar m inha carteira, a nota de cem dólares dobrada lá dentro. Seguro-a no ar e grito. — Estou querendo um a viagem de barco pelos canais. E posso pagar.

A cabeça de Willem balança na m inha direção.

— Lulu, o que está fazendo?

Mas estou m e afastando dele.

— Alguém interessado em nos levar pelos canais? — digo. — Tenho as boas e velhas verdinhas am ericanas.

Um hom em com a cara cheia de espinhas, traços m arcantes e um cavanhaque ralo aparece ao lado de um barco com um toldo azul.

— Quantas verdinhas? — pergunta, com um sotaque francês carregado.

— Todas.

Ele pega a nota de cem e a olha bem de perto. Então a cheira.

Ela deve ter cheiro de nota verdadeira, pois ele diz:

— Se m eus passageiros concordarem , eu os levarei pelo canal até Arsenal, perto da Bastilha. É onde nós atracam os para passar a noite. — Ele aponta para o fundo do barco, onde um quarteto de hom ens e m ulheres grisalhos está sentado ao redor de um a m esa redonda, j ogando bridge ou algo do gênero. Ele cham a um deles.

— Ahoy, Capitão Jack — responde o hom em . Deve ter 60 anos. O cabelo é branco e o rosto está queim ado de sol.

— Tem os uns m ochileiros que querem subir a bordo conosco.

— Eles sabem j ogar pôquer? — pergunta um a das m ulheres.

Eu j ogava pôquer de sete cartas com m eu avô antes de ele m orrer, para ganhar alguns trocados. Ele dizia que eu sabia blefar m uito bem .

— Nem se dê ao trabalho. Ela m e deu todo o dinheiro — diz o Capitão Jack.

— Quanto ele está cobrando de vocês? — pergunta um dos hom ens.

— Ofereci cem dólares — respondo.

— Para ir aonde?

— Para descer os canais.

— É por isso que o cham am os de Capitão Jack — explica um dos hom ens. — Porque ele é um pirata.

— Não. É porque m eu nom e é Jacques, e eu sou o capitão.

— Cem dólares, Jacques? — pergunta um a m ulher com um a trança grisalha com prida e olhos azuis encantadores. — Parece um pouco dem ais até para você.

— Ela ofereceu isso. — Jacques dá de om bros. — Além disso, agora tenho m ais dinheiro para perder para vocês no pôquer.

— Ah, essa é um a boa j ustificativa. — diz ela.

— Vão partir agora? — pergunto.

— Daqui a pouco.

— Quando é daqui a pouco? — Já passa das quatro horas. O dia está passando m uito rápido.

— Não se podem apressar essas coisas. — Ele agita a m ão pelo ar. — O tem po é com o a água. Fluido.

O tem po não parece fluido para m im . Parece real, vivo e duro feito um a pedra.

— O que ele quer dizer — diz o cara com rabo de cavalo — é que a viagem até Arsenal leva um tem po e estam os a ponto de abrir um a garrafa de vinho tinto. Vam os lá, Capitão Jack, vam os zarpar. Por cem pilas você pode tom ar seu vinho m ais tarde.

— Vam os continuar com esse gim francês — continua a m ulher de trança.

Ele dá de om bros e então enfia m inha nota no bolso. Viro-m e para Willem e sorrio. Então faço um sinal com a cabeça para o Capitão Jack. Ele estica a m ão para m e aj udar a em barcar.

Os quatro passageiros se apresentam . São dinam arqueses aposentados, e a cada ano, nos contam , alugam um barco e viaj am por algum país da Europa durante quatro sem anas. Agnethe é a da trança, e Karin tem o cabelo curto espetado. Bert tem um chum aço de cabelo branco, e Gustav é careca, tem um rabo de cavalo parecido com um rabo de rato e está usando a típica com binação de sandália e m eia. Willem se apresenta e, quase autom aticam ente, eu m e apresento com o Lulu. É quase com o se eu tivesse m e transform ado nela. Talvez eu tenha m e transform ado m esm o. Nunca, nem em um m ilhão de anos, Ally son teria feito o que eu acabei de fazer.

O Capitão Jack e Willem desam arram a corda, e eu estou a ponto de dizer que talvez devesse ter parte do m eu dinheiro de volta se Willem for o aj udante, m as então vej o que Willem está adorando, se divertindo m uito. Ele evidentem ente sabe o que fazer num barco.

A em barcação solta um estam pido ao sair da baía, proporcionando um a visão am pla de um prédio antigo de colunas brancas e outro m oderno, com o teto prateado. Os dinam arqueses voltam ao seu j ogo de pôquer.

— Não percam todo o dinheiro — diz o Capitão Jack a eles —, senão não vai sobrar nenhum para perderem para m im .

Escorrego até a proa do barco e observo o cenário passar. É m ais fresco aqui nos canais, sob as passarelas arqueadas. O cheiro tam bém é diferente. Mais velho, m ais m ofado, com o se gerações de história estivessem guardadas nas paredes úm idas. Se essas paredes pudessem falar, im agino os segredos que contariam .

Quando chegam os à prim eira barragem , Willem sobe na beirada do barco para m e m ostrar com o o m ecanism o funciona. Os portões de m etal de aparência antiga, tão enferruj ados quanto a cor da água salgada, se fecham atrás de nós. A água em baixo seca e os portões reabrem um a seção m ais baixa.

Esta parte do canal é tão estreita que o barco tom a quase toda a sua extensão. Aterros íngrem es levam até as ruas e, lá em cim a, salgueiros e olm os (de acordo com o Capitão Jack) form am um bosque, um a quebra suave do sol quente da tarde.

Um a ventania balança as árvores, trazendo um a cortina de folhas rolando sobre o deque.

— A chuva está vindo — inform a o Capitão Jack, cheirando o ar com o um coelho. Levanto o rosto e olho para Willem , depois m e viro. O céu não tem nenhum a nuvem , e não chove nesta parte da Europa há dez dias.

Mais para cim a, Paris segue em frente, cheia de si. As m ães tom am café, m antendo os olhos nos filhos enquanto estes andam de patinete pelas calçadas. Os vendedores nas barracas do lado de fora anunciam frutas e legum es. Am antes se abraçam , sem se im portar com o calor. Um clarinetista está em pé em cim a da ponte, fazendo serenata para tudo.

Eu m al tirei fotos nesta viagem . Melanie m e perturbava por causa disso, e eu respondia que preferia passar pela experiência em vez de guardá-la obsessivam ente. No entanto, a verdade era que, diferentem ente de Melanie (que queria se lem brar do vendedor de sapatos, do m ím ico, do garçom bonitinho e de todas as outras pessoas do tour), eu realm ente não ligava para nada daquilo. No início da viagem , tirei algum as fotos dos lugares turísticos. O Coliseu. O Palácio Belvedere. A Mozartplatz. Depois parei. As fotos nunca saíam boas e eu poderia com prar cartões-postais desses lugares.

Mas não há cartões-postais disto aqui. Da vida.

Tiro um a foto de um hom em careca cam inhando com quatro cachorros peludos. De um a garotinha com a saia m ais absurdam ente cheia de babados, arrancando pétalas de um a flor. De um casal se agarrando sem a m enor vergonha na praia artificial. Dos dinam arqueses, ignorando tudo isso, m as tendo a m elhor diversão da vida com o seu j ogo.

— Ah, m e deixe tirar um a de vocês dois — diz Agnethe, levantando-se um pouco tonta do j ogo. — Ah, com o são lindos! — Ela se vira para a m esa. — Bert, será que eu fui linda assim um dia?

— Você ainda é, m eu am or.

— Há quanto tem po estão casados? — pergunto.

— Trinta anos — conta ela, e eu m e pergunto se eles estão “m anchados para sem pre”, m as então ela continua. — Mas é claro que estam os divorciados há dez.

Ela vê a expressão de confusão em m eu rosto.

— Nosso divórcio funciona m elhor do que a m aioria dos casam entos.

Olho para Willem .

— Que tipo de m ancha é essa? — cochicho, e ele ri no m om ento em que Agnethe tira um a foto nossa.

O sino de um a igrej a toca a distância. Agnethe nos devolve o celular, e eu tiro um a foto dela e de Bert.

— Vai m e m andar essa aí? Todas?

— Claro. Assim que tiver sinal. — Viro-m e para Willem . — Mando para você tam bém , se m e der o seu núm ero.

— Meu telefone é tão velho... não funciona com fotos.

— Quando chegar em casa, eu passo as fotos para o com putador e m ando para você por e-m ail — digo, apesar de não saber onde vou esconder as fotos da m inha m ãe; não seria surpresa ela vasculhar m eu telefone ou m eu com putador. Mas agora m e dou conta de que isso vai ser só por m ais um m ês, Depois disso serei livre. Assim com o sou livre hoj e. — Posso m andar para você por e-m ail.

Willem olha dem oradam ente para um a das fotos. Depois olha para m im .

— Vou guardar você bem aqui. — Ele toca a testa. — Onde você nunca vai se perder.

Mordo o lábio para esconder o sorriso e finj o guardar m eu telefone, m as, quando o Capitão Jack cham a Willem para tom ar conta do tim ão enquanto ele vai até a proa, puxo o celular de volta e revej o as fotos, parando naquela de nós dois que Agnethe tirou. Estou de lado, m inha boca aberta. Ele está rindo. Sem pre rindo. Passo a ponta do dedão sobre o rosto dele, m eio que esperando que em ane algum tipo de calor.

Guardo o celular e observo Paris passar, m e sentindo relaxada, quase bêbada, com um a alegria sonolenta. Alguns m om entos depois, Willem vem até m im . Sentam os em silêncio, ouvindo as batidas da água, o burburinho dos dinam arqueses. Willem tira um a m oeda e faz aquela coisa de novo, passando-a de nó em nó dos dedos. Observo, hipnotizada pelas m ãos dele, pelo balanço suave da água. Está tudo tranquilo até que os dinam arqueses com eçam a bater boca em voz alta. Willem traduz: aparentem ente estão discutindo se um a atriz francesa qualquer j á fez algum film e pornô.

— Você fala dinamarquês tam bém ? — pergunto.

— Não, m as é m uito próxim o do holandês.

— Quantas línguas você fala?

— Fluentem ente?

— Ah, Deus. Desculpe por perguntar.

— Quatro fluentem ente. Consigo m e virar em alem ão e espanhol tam bém .

Balanço a cabeça, im pressionada.

— Tudo bem , m as você disse que fala chinês.

— Eu não diria que falo; estou m ais para “assassina”. Não tenho ouvido m usical, e o m andarim é totalm ente m usical.

— Fale para eu ouvir.

Olho para ele.

— Ni zhen shuai.

— Diga outra coisa.

— Wo xiang wen ni.

— Agora entendi. — Ele cobre a cabeça. — Pare. Estou sangrando pelos ouvidos.

— Cale a boca ou vai sangrar de verdade! — finj o em purrá-lo.

— O que você disse? — pergunta.

Dou um a olhada para ele. Não digo nem m orta.

— Você inventou tudo.

Dou de om bros.

— Você nunca vai saber.

— O que você quer dizer com isso?

Eu sorrio.

— Vai ter que procurar.

— Você tam bém escreve? — Ele puxa seu livrinho negro e abre num a página em branco perto do final. Fuça de volta na m ochila. — Tem um a caneta?

Tenho um a das canetas prom ocionais que roubei do m eu pai, esta aqui dizendo RESPIRE MAIS FACILMENTE COM PULMOCLEAR. Desenho o sím bolo do sol, da lua, das estrelas. Willem balança a cabeça com adm iração.

— Vej a, eu adoro este aqui. É o sím bolo da dupla felicidade:

 

— Reparou com o as figuras são sim étricas?

— Dupla felicidade — repete Willem , acom panhando as linhas com seu dedo indicador.

— É um a frase popular. E sem pre aparece nos restaurantes e tal. Acho que tem a ver com sorte. Na China, aparentem ente é im portante nos casam entos. Provavelm ente por causa da história de suas origens.

— Que é...

— Um rapaz estava viaj ando. Ele ia fazer um a prova im portante para se tornar m inistro. No cam inho, ele ficou doente num vilarej o da m ontanha. Então o m édico da m ontanha cuidou dele e, enquanto estava se recuperando, ele conheceu a filha do m édico, e eles se apaixonaram . Um pouco antes de ele ir em bora, a garota recitou para ele um a linha do verso. O rapaz foi para a capital fazer a prova e se saiu bem ; o im perador ficou m uito im pressionado. Então, para testá-lo ainda m ais, ele recitou um a linha do verso. Obviam ente, o rapaz reconheceu de im ediato a frase m isteriosa com o a outra m etade da poesia que a garota lhe disse, então repetiu o que a garota tinha falado. O im perador ficou duplam ente im pressionado, e o rapaz conseguiu o em prego. Voltou e se casou com a garota. Daí a dupla felicidade, im agino. Ele conseguiu a garota e o em prego. Sabe com o é, os chineses dão m uita im portância à sorte.

Willem balança a cabeça.

— Acho que dupla felicidade é quando as duas m etades se encontram . Assim com o nos versos.

Nunca pensei dessa form a, m as era exatam ente isso.

— Você lem bra com o é o poem a?

Confirm o com um m ovim ento de cabeça.

— Verdes árvores contra o céu chuvoso da prim avera, que deixa escuro o cam inho das árvores enquanto se afasta. A brisa passa, salpicando a terra de flores verm elhas, e a terra se colore de verm elho depois do beij o.

A parte final do canal é subterrânea. As paredes são arqueadas e tão baixas que consigo esticar a m ão e tocar os tij olos lisos e úm idos. É assustador aqui em baixo, silencioso, cheio de eco. Até os dinam arqueses barulhentos ficaram quietos. Willem e eu nos sentam os com as pernas penduradas sobre a beirada do barco, chutando a parede do túnel quando conseguim os.

Ele belisca m eu tornozelo com o dedão do pé.

— Obrigado.

— Pelo quê?

— Por arranj ar isto aqui. — Ele m ostra o barco.

— O prazer é todo m eu. Obrigada por isto aqui. — Eu aponto para cim a, para onde, com certeza, Paris continua sua vida norm al.

— Disponha. — Ele olha ao redor. — É legal isto aqui. O canal. — Ele olha para m im . — Você.

— Aposto que você diz isso de todos os canais. — E fico verm elha na escuridão m ofada e penetrante.

Continuam os assim durante todo o restante da viagem , balançando as pernas ao lado do barco, ouvindo as risadinhas e a m úsica de Paris m ergulharem nas profundezas. É com o se a cidade estivesse contando segredos aqui em baixo, exclusivam ente para aqueles que im aginam ouvi-los.