Apenas um Dia
Capítulo 20
20
Entrar na sala de aula de declam ação de Shakespeare é com o entrar num a escola absolutam ente diferente daquela que eu frequentei nos últim os quatro m eses. Em vez de um enorm e auditório, que é onde todos os m eus cursos de ciências aconteciam , ou m esm o num a grande sala de aula com o a de m andarim , essa aula é um a sala pequena, do tipo que tínham os na escola secundária. Há, talvez, um as 25 carteiras dispostas em U, em volta de um púlpito central. E os alunos sentados nelas tam bém parecem diferentes. Argolas nos lábios e cabelos pintados com cores em geral não encontradas naturalm ente em cabeças hum anas. É um m ar de alienação bem cuidado. A turm a das artes, im agino. Quando entro e procuro um lugar para sentar, todos estão concentrados, ninguém olha para m im .
Sento-m e no chão, perto da porta, para escapar m ais fácil. Eu talvez não pertença à aula de quím ica, m as tam bém não faço parte disto aqui. Quando o professor Glenny entra com passos largos, cinco m inutos atrasado e parecendo um astro do rock — cabelo grisalho desgrenhado, botas de couro surradas e até os lábios carnudos de Mick Jagger —, ele pisa em cim a de m im . Com passos literários sobre m inha m ão. Por pior que m inhas outras aulas tenham sido, ninguém nunca pisou em m im . Um com eço não m uito prom issor, e eu quase m e retiro naquele exato m om ento, m as m eu cam inho está agora bloqueado pelo fluxo excessivo de outros alunos.
— Levantem as m ãos — com eça o professor Glenny, depois de ter deixado sua bolsa de couro artisticam ente surrada em cim a do púlpito. — Quantos de vocês j á leram um a peça de Shakespeare por puro prazer? — Ele tem sotaque britânico, m as não do tipo do Masterpiece Theatre.
Aproxim adam ente m etade das m ãos na classe se levanta. Por um m inuto, quase considero levantar a m inha, m as é um a m entira m uito deslavada, e não faz sentido tirar vantagem se não vou ficar.
— Excelente. Pergunta de segunda ordem : quantos de vocês j á pegaram no sono enquanto tentavam ler um a peça de Shakespeare por conta própria?
A classe fica em silêncio. Nenhum a m ão se levanta. Então o professor Glenny olha diretam ente para m im , e eu fico pensando com o ele sabe, m as então percebo que ele não está olhando para m im , m as para o cara atrás de m im , que é a única pessoa que levantou a m ão. Juntam ente com todo o restante da classe, eu m eu viro e olho para o cara. Ele é um dos dois estudantes afro-am ericanos, o único a usar um a tiara afro coberta de presilhas enfeitadas e gloss rosa chiclete nos lábios. Fora isso, ele está vestido com o um a m ãe de classe m édia, com um a calça de m oletom e botas Uggs cor-de-rosa. Num cam po onde a estranheza é cuidadosam ente cultivada, ele é um a flor selvagem , ou talvez um a erva daninha.
— Qual foi a peça que o fez dorm ir? — pergunta o professor Glenny.
— Pode escolher. Hamlet. Macbeth. Otelo. Dorm i nas m elhores delas.
A classe reprim e o riso, com o se pegar no sono ao estudar fosse baixo dem ais.
O professor Glenny balança a cabeça.
— Então por que, por favor, m e desculpe, seu nom e?…
— D’Angelo Harrison, m as m eus am igos m e cham am de Dee.
— Serei presunçoso e o cham arei de Dee. Dee, por que fazer esta aula? A não ser que estej a aqui para recuperar o sono.
De novo, a classe ri.
— Pelas m inhas contas, esta aula custa m ais ou m enos cinco m il o sem estre — declara Dee. — Posso dorm ir de graça.
Tento fazer o cálculo. Será que é isso que um a aula custa?
— Muito prudente — responde o professor Glenny. — Então, de novo, por que fazer esta aula, dado o custo e o histórico soporífico de Shakespeare?
— Bem , na verdade, não estou ainda na classe. Estou em sua lista de espera.
Neste ponto, não consigo dizer se ele está protelando ou desviando um golpe do professor, m as, de um j eito ou de outro, fico im pressionada. Todo m undo aqui parece ansioso para dar a resposta certa, e este cara está levando o professor na lábia. Para a sorte dele, o professor Glenny parece m ais surpreso do que irritado.
— A questão é, Dee, para que tentar?
Há um a longa pausa. É possível ouvir as luzes fluorescentes zunindo, alguns alunos que evidentem ente tinham a resposta pronta lim pando a garganta. E então Dee continua:
— Porque o film e Romeu e Julieta m e faz chorar m ais do que qualquer outra coisa toda vez que o vej o.
De novo, a classe ri. Não é um a risada bondosa. O professor Glenny se vira na direção do púlpito e tira um papel e um a caneta de sua bolsa. É um a lista. Olha para ela am eaçadoram ente e então risca um nom e, e eu m e pergunto se esse tal Dee acabou de conseguir sair da lista de espera. Em que tipo de aula Gretchen Price m e colocou? Shakespeare Gladiador?
Em seguida o professor Glenny se vira para um a garota com tranças esquisitas, cor-de-rosa, com o nariz enfiado num exem plar da obra com pilada de Shakespeare, o tipo de garota que provavelm ente nunca se dignou a assistir à versão de Leo e Claire de Romeu e Julieta nem nunca pegou no sono ao ler Macbeth. Ele se agiganta sobre ela por um m om ento. A garota levanta os olhos para ele e sorri tim idam ente, tipo, ah-você-m e-pegou-lendo-m eu-livro. Ele dá um sorriso de m il watts de volta para ela. E então fecha o livro com toda a força. É um livro grande. Faz um barulho estrondoso.
O professor Glenny volta para o púlpito.
— Shakespeare é um personagem m isterioso. Há tanta coisa escrita sobre esse hom em , de quem nós verdadeiram ente sabem os tão pouco. Às vezes acho que só Jesus teve m ais tinta gasta em seu nom e com resultados m enos frutíferos. Assim , resisto a fazer caracterizações sobre o hom em . Mas m e arriscarei a dizer o seguinte: Shakespeare não escreveu suas peças para que as pessoas se sentassem num a sala fechada da biblioteca e as lessem em silêncio. — Ele faz um a pausa, deixa aquilo ser absorvido antes de continuar. — Dram aturgos não são rom ancistas. Eles criam obras que precisam ser atuadas, interpretadas. Para serem reinterpretados através dos séculos. Graças à sua genialidade, Shakespeare nos deu um m aterial tão cru que realm ente pôde sobreviver através dos tem pos, resistindo à m iríade de reinterpretações que dam os a ele. Porém , para apreciarm os Shakespeare de fato, para com preender por que ele sobreviveu ao tem po, devem os lê-lo em voz alta, ou, m elhor ainda, vê-lo sendo interpretado, quer sej a num traj e de época ou absolutam ente nu, um prazer dúbio que tenho tido. Ainda que um a boa produção cinem atográfica possa fazer o truque, com o nosso am igo Dee dem onstrou de form a tão apropriada. Aliás, Senhor Harrison — ele olha para Dee novam ente —, obrigado por sua honestidade. Eu tam bém j á peguei no sono enquanto lia Shakespeare. Meu livro de faculdade ainda tem m arcas de baba. O senhor não está m ais na lista de espera.
Cam inhando a passos largos de volta ao quadro branco, o professor Glenny rabisca Inglês 317: Shakespeare declamado.
— O nom e desta aula não é acidental. É bem deliberado. Nesta aula, não lem os Shakespeare em silêncio para nós m esm os ou na privacidade de nossos quartos ou bibliotecas. Nós o interpretamos. Nós o vem os ser interpretado. Lem os em voz alta, em sala de aula ou com nossos parceiros. Cada um de nós se tornará um ator nesta aula, intérpretes um do outro, um em frente ao outro. Àqueles que não estão preparados para isso ou que preferem um a abordagem m ais convencional, esta ilibada instituição oferece vários cursos de pesquisa de Shakespeare; sugiro que façam uso de algum deles.
Ele faz um a pausa, com o dando às pessoas a oportunidade de escapar. Aqui está m inha chance de sair, m as algo m e enraíza no lugar.
— Se vocês sabem algum a coisa sobre esta aula, é que eu coordeno nossas leituras para com binarem com qualquer que sej a a peça de Shakespeare interpretada durante o sem estre, sej a ela por um grupo com unitário ou por um a com panhia de teatro profissional. Espero que estej am presentes em todas as peças, e posso conseguir excelentes preços para grupos. Na verdade, este inverno e prim avera estão com um a seleção de peças m aravilhosas.
Ele com eça a distribuir o program a de estudos e, antes que um chegue até m im , antes que ele term ine de escrever a ordem das peças no quadro, sei que aquela estará entre elas; m esm o Shakespeare tendo escrito m ais de trinta peças, sei que aquela estará em nossa lista.
O program a de estudos está na m etade do cam inho, depois de Henrique V e Conto de Inverno e antes de Como Gostais, Cimbelino e Medida por Medida. Mas, lá na página, ela parece saltar aos m eus olhos com o um quadro de avisos. Noite de Reis. E querer fazer este curso ou não é irrelevante. Não posso ficar em pé aqui e ler aquelas linhas. Isso é o oposto da folha em branco.
O professor Glenny fala um pouco sobre as peças, apontando para elas um a a um a com a m ão, apagando a tinta com seu entusiasm o.
— A coisa de que m ais gosto nesta aula é que nós, de fato, deixam os que os tem as nos escolham ao deixar que as peças nos escolham . No início, o reitor ficou um pouco cético em relação a essa academ ia do acaso, m as sem pre pareceu funcionar. Peguem este exem plo. — Ele aponta para a lista novam ente. — Será que alguém poderia supor o tem a deste sem estre baseado nestas peças em particular?
— São todas com édias? — pergunta a garota da frente com tranças rosa.
— Boa pergunta. Conto de Inverno, Medida por Medida e Cimbelino, apesar de todas terem m uito hum or, não são consideradas com édias, m as peças problem áticas, um a categoria que discutirem os m ais tarde. E Henrique V, ainda que tenha diversas partes engraçadas, é um a peça m uito séria. Alguém m ais se aventura?
Silêncio.
— Vou lhes dar um a pista. É absolutam ente óbvio que Noite de Reis ou Como Gostais são com édias, m as nem por isso deixam de ser tam bém peças bem com oventes.
Mais silêncio.
— Vam os lá. Alguns de vocês, alunos de alto nível, devem ter visto um a dessas. Quem aqui j á viu Como Gostais ou Noite de Reis?
Não m e dou conta de ter erguido a m ão até ser tarde dem ais. Até que o professor Glenny tenha m e visto e balançado a cabeça com aqueles olhos brilhantes e curiosos dele. Quero dizer que com eti um erro, que foi outra versão de Ally son, aquela que costum ava erguer a m ão na aula, que reapareceu tem porariam ente. Mas não posso, então coloco para fora que vi Noite de Reis no verão.
O professor Glenny fica lá em pé, esperando eu term inar m eu pensam ento. Mas era só aquilo; aquilo era tudo que eu tinha a dizer. Há um silêncio estranho, com o se eu tivesse declarado que sou alcoólatra num a reunião das Filhas da Revolução Am ericana.
No entanto, o professor Glenny se recusa a desistir de m im .
— E qual era a principal fonte de tensão e hum or nessa peça em particular?
Por um átim o de segundo não estou nesta sala de aula superaquecida num a m anhã de inverno. É a noite quente inglesa, e estou na baía do canal em Stratford-upon-Avon. E então estou num parque em Paris. E então estou de volta aqui. Em todos os três lugares, a resposta perm anece a m esm a:
— Ninguém é quem parece ser.
— Obrigado?…
— Ally son — term ino. — Ally son Healey.
— Ally son. Talvez sej a um a leve generalização, m as, para nossos obj etivos, toca exatam ente no ponto. — Ele volta para o quadro e rabisca. Mudança de identidade. Mudança de realidade. Então risca outra coisa de sua folha de papel.
O professor Glenny continua.
— Agora, antes de tom arm os nossos cam inhos, um a últim a peça de lição de casa. Não terem os tem po de ler cada peça inteira em sala de aula, ainda que façam os um grande esforço. Acredito que eu tenha deixado claro m eu ponto sobre lerm os sozinhos para nós m esm os, então gostaria que lessem as partes restantes com seus parceiros. Isso não é opcional. Por favor, form em seus pares agora. Se estiverem na lista de espera, encontrem um parceiro que tam bém estej a na lista de espera. Ally son, você não está m ais na lista de espera. Com o vocês podem ver, a participação em classe é prem iada aqui.
Há um a confusão enquanto todos tentam encontrar um par. Olho em volta. Ao m eu lado está um a garota relativam ente norm al com óculos estilo gatinho. Eu poderia perguntar a ela.
Ou poderia m e levantar e sair da sala. Mesm o tendo saído da lista de espera, eu poderia sim plesm ente desistir da aula, deixar m eu lugar para outra pessoa.
Mas, por algum a razão, não faço nem um a coisa nem outra. Afasto-m e da garota de óculos e olho para trás. Aquele cara, Dee, está sentado lá, com o o garoto franzino e m alquisto que sem pre acaba sobrando durante a escolha do tim e para os j ogos de futebol da escola. Ele tem um olhar distraído, com o se soubesse que ninguém irá cham á-lo e estivesse poupando o transtorno a todos. Assim , quando eu pergunto se quer ser m eu parceiro, sua expressão astuta se desfaz por um m om ento, e ele parece genuinam ente surpreso.
— Que bom que m inha lista do baile não está lotada no m om ento.
— Isso é um sim ?
Ele assente.
— Que bom . Eu tenho um a condição. É m ais um favor. Dois favores, na verdade.
Ele franze o cenho, então arqueia as sobrancelhas delineadas tão para o alto que elas desaparecem na auréola do cabelo.
— Não quero ler Noite de Reis em voz alta. Você pode fazer todas as partes, se quiser, e eu vou só ouvir, depois leio um a das outras peças. Ou podem os alugar um a versão em film e e ler enquanto assistim os. Eu só não quero ter que ler essa. Absolutam ente nenhum a palavra.
— Com o vai conseguir fugir disso na sala de aula?
— Darei um j eito.
— O que tem contra Noite de Reis?
— Isso é a outra coisa. Não quero falar sobre o assunto.
Ele suspira com o se estivesse considerando a proposta.
— Você é esquisita ou é um a diva? Divas eu consigo levar, m as não tenho tem po para gente esquisita.
— Não acho que sej a nenhum a das duas coisas. — Dee parece cético. — É só essa peça específica, j uro. Tenho certeza de que existe um DVD dela.
Ele m e olha por um longo m inuto, com o tentando perscrutar m eu eu verdadeiro. Então, ou ele resolve que sou ok ou reconhece que não tem opção, pois vira os olhos e suspira alto.
— Na verdade, há várias versões de Noite de Reis. — De repente, a voz e a dicção dele m udam com pletam ente. Até m esm o sua expressão se torna professoral. — Há um a versão para o cinem a com Helena Bonham Carter, que é espetacular. Mas, se vam os m entir desse j eito, devem os alugar a versão do teatro.
Eu o encaro por um m om ento, boquiaberta. Ele m e olha de volta, e então sua boca se abre num sorrisinho m ínim o. Então percebo que o que eu disse antes estava certo: Ninguém é quem parece ser.