Apenas um Dia
Capítulo 38
38
E então, um ano depois, encontro-o com o o encontrei da prim eira vez: num parque, no m orm aço do entardecer, declam ando as palavras de William Shakespeare.
Mas esta noite, depois desse ano inteiro, tudo está diferente. Não é Will Guerrilheiro. Esta é um a produção de verdade, com um palco, poltronas, luzes e público. Um grande público. Tão grande que, quando chegam os lá, som os desviados para um a parede baixa na ponta de um pequeno anfiteatro.
E este ano ele não está m ais fazendo algum papel coadj uvante. Este ano ele é o astro. Ele é Orlando, com o eu sabia que seria. Ele é o prim eiro ator a entrar no palco, e, a partir daquele m om ento, dom ina tudo. Ele fascina. Não só a m im . A todos. O silêncio cai sobre a m ultidão assim que ele faz o prim eiro m onólogo e continua por todo o restante da apresentação. O céu escurece, e as m ariposas e os m osquitos dançam nos holofotes, e o Vondelpark de Am sterdã é transform ado na Floresta das Ardenas, um lugar m ágico onde o que se perdeu pode ser encontrado.
Enquanto assisto a ele, é com o se houvesse só nós dois. Apenas Willem e eu. Tudo o m ais desaparece. O som das cam painhas das bicicletas e dos apitos dos bondes desaparece. Os m osquitos zunindo ao redor da fonte do lago desaparecem . Os outros atores desaparecem . O últim o ano desaparece. Todas as m inhas dúvidas desaparecem . O sentim ento de estar no cam inho certo m e preenche. Eu o encontrei. Aqui. Com o Orlando. Tudo m e trouxe a este ponto.
O Orlando dele é diferente daquele que interpretam os na aula ou da m aneira com o o ator de Boston representou. O dele é sexy e vulnerável, o desej o por Rosalinda é tão palpável que se torna físico, o ferom ônio que exala dele e se espalha pelo redem oinho dos refletores, aterrissando sobre m inha pele úm ida e receptiva. Sinto m eu desej o, m inha saudade, e, sim , m eu am or saindo de m im em pulsações, nadando em direção ao palco, onde as im agino alim entando-o, com o fios condutores.
Ele não tem com o saber que estou aqui. Mas, por m ais louco que isso possa parecer, sinto que sabe. Tenho a sensação de que ele m e sente nas palavras que diz, da m esm a m aneira que o senti quando as recitei na aula do professor Glenny.
Eu m e lem bro de tantas das frases de Rosalinda, e de Orlando tam bém , que posso balbuciá-las j unto com os atores. É com o se fosse um coro particular de pergunta-e-resposta entre Willem e eu.
Desejo que estejas convosco a pouca força que tenho.
Boa sorte; peças ao céu que eu tenha me enganado sobre tua sorte.
Nesse caso, dê a mim o teu amor, Rosalinda.
E me aceitarias como esposo?
Tu és um bom homem?
Creio que sim.
Diga-me, quanto tempo pretendes ficar com ela depois que ela for tua?
Para sempre e mais um dia.
Para sem pre e m ais um dia.
Seguro a m ão de Wren num a das m inhas m ãos e a de Wolfgang na outra. Fazem os um a corrente, nós três. Ficam os lá desse j eito até a peça term inar. Até todos terem seu final feliz: Rosalinda se casa com Orlando, e Célia se casa com Olivério, que faz as pazes com Orlando, e Febe se casa com Sílvio, e o duque m alvado é afastado, e o duque exilado volta para casa.
Depois de Rosalinda fazer seu m onólogo final, a peça term ina e as pessoas estão enlouquecidas, absolutam ente m alucas, batendo palm as e assoviando, e eu m e viro e j ogo m eus braços ao redor de Wren e, em seguida, de Wolfgang, pressionando m inha bochecha contra o tecido áspero de algodão da cam isa dele, inalando o cheiro da fum aça do tabaco m isturado ao néctar das flores e à suj eira. E então alguém está m e abraçando, os caras barulhentos ao nosso lado.
— Aquele é m eu m elhor am igo! — grita um dos caras. Ele tem olhos azuis travessos e um a cabeça m enor do que os outros, m ais um hobbit do que um holandês.
— Quem ? — pergunta Wren. Ela agora é passada pela roda de abraços dos caras holandeses barulhentos e, aparentem ente, bêbados.
— Orlando! — diz o hobbit.
— Ah! — diz Wren, os olhos tão arregalados e pálidos que brilham com o pérolas. — Ah! — diz para m im .
— Por acaso você não seria Robert-Jan, seria? — pergunto.
O hobbit parece surpreso por um segundo. Então sim plesm ente sorri.
— Broodj e para m eus am igos.
— Broodj e — Wolfgang gargalha. Ele se volta para m im . — É um tipo de sanduíche.
— Que o Broodj e adora com er — diz um dos am igos dele, batendo na barriga.
Broodj e/Robert-Jan afasta a m ão da barriga.
— Vocês deveriam vir à nossa festa hoj e à noite. Será um a festa para arrasar todas as festas. Ele estava fantástico, não estava?
Wren e eu balançam os a cabeça. Broodj e/Robert-Jan com eça a falar do quanto Willem estava m aravilhoso, e então seus am igos dizem algo para ele em holandês, algum a coisa, acho, sobre Willem .
— O que ele disse? — cochicho para Wolfgang.
— Ele disse que não via Orlando tão feliz desde, não ouvi direito, algo sobre o pai dele.
Wolfgang tira um pacote de tabaco de um a bolsa de couro e com eça a enrolar um cigarro. Sem olhar para m im , ele diz, com um a voz grave:
— Acho que os atores saem por lá. — Ele aponta para um portãozinho de m etal ao lado do palco.
Ele acende o cigarro. Seus olhos brilham . Aponta para o portão de novo.
Sinto com o se m eu corpo não fosse m ais um a m atéria sólida. É um a partícula de poeira. É pura eletricidade. Ele m e faz atravessar dançando pelo teatro, em direção ao lado do palco. Há um a m ultidão de fãs esperando pelos atores. Pessoas segurando buquês de flores, garrafas de cham panhe. A atriz que interpretou Célia sai para os cum prim entos e abraços. Em seguida vem Jacques, depois Rosalinda, que recebe um a porção de buquês. Meu coração com eça a bater com força. Será que chegaria tão perto e o perderia de vista?
Mas, então, eu o escuto. Ele está, com o sem pre, rindo de algum a coisa que alguém disse. E então vej o o cabelo dele, m ais curto do que antes, seus olhos, escuros e claros ao m esm o tem po, seu rosto, um a pequena cicatriz na bochecha, o que apenas o torna ainda m ais absurdam ente lindo.
Minha respiração fica presa na garganta. Achei que fosse eu que o em belezasse. Mas, de fato, o oposto é verdadeiro. Tinha m e esquecido do quanto ele é verdadeiram ente lindo. Intrinsecam ente Willem .
Willem . O nom e dele se form a em m inha garganta.
— Willem ! — O nom e dele sai alto e claro.
Mas não foi m inha voz que o pronunciou.
— Willem !
Ouço a voz de novo. E então vej o a m ancha de um m ovim ento. Um a garota sai correndo de dentro da m ultidão. As flores que está carregando caem no chão no m om ento em que ela se j oga nos braços dele. E ele a abraça. Ele a ergue do chão, a segura com força. Os braços dele se enroscam nos cabelos verm elhos dela, e ele ri de sej a lá o que for que ela está cochichando no ouvido dele. Eles rodopiam , um laço de felicidade. De am or.
Fico lá pregada no chão, assistindo a essa m anifestação pública de am or. Finalm ente, alguém vem até Willem e bate em seu om bro, e a garota escorrega até o chão. Ela pega as flores — girassóis, exatam ente o que eu teria escolhido para ele — e tira a poeira. Willem escorrega um braço bobo em volta da cintura dela e lhe beij a a m ão. Ela enrosca o braço em volta da cintura dele. E, então, eu m e dou conta de que não estava errada com relação ao am or que em anava dele durante a apresentação. Só estava errada sobre para quem era.
Saem cam inhando, tão perto que posso até sentir a brisa quando ele passa ao m eu lado. Estam os m uito perto, m as ele está olhando para ela, então, nem m e vê. Eles saem , de m ãos dadas, em direção a um m irante, longe da baderna. Eu sim plesm ente perm aneço lá.
Sinto um tapinha gentil em m eu om bro. É Wolfgang. Ele olha para m im , m eneia a cabeça.
— Acabou? — pergunta.
Olho de volta para Willem e a garota. Talvez esta sej a a garota francesa. Ou alguém totalm ente novo. Estão sentados olhando um para o outro, j oelhos encostados, conversando, de m ãos dadas. É com o se o restante do m undo não existisse. Era assim que eu m e sentia quando estava com ele no ano passado. Talvez, se alguém de fora tivesse nos visto na ocasião, fosse exatam ente assim que parecêssem os. Mas agora sou eu a pessoa de fora. Olho para eles novam ente. Mesm o daqui, posso dizer que ela é alguém especial para ele. Alguém que ele am a.
Espero pelo prim eiro golpe de destruição, pelo colapso de um ano de esperanças, pelo rugido da tristeza. E então sinto a dor de perdê-lo. Ou a ideia dele. Mas j untam ente com a dor há algo m ais, a princípio silencioso, de m odo que tenho que m e esforçar para segurá-lo. Ao fazê-lo, ouço o som de um a porta se fechando suavem ente. E a coisa m ais surpreendente de todas acontece: a noite está calm a, m as sinto um fluxo de vento, com o se m ilhares de outras portas tivessem acabado de se abrir de um a só vez.
Dou um a últim a olhada em direção a Willem e a garota. Então m e viro para Wolfgang.
— Acabei! — respondo.
Mas suspeito que o oposto sej a verdade. Que, de fato, eu estej a apenas com eçando.