Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 8 de 46

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Cantos Sagrados

VII Missa Pontifical

Ah muito embora a dôr seu peito opprima,

O espirito, que abrange o mundo inteiro,

Póde vêr, quanto justo e verdadeiro,

Nos seios d'alma os ceus que estão por cima!

 

Maxima grande, maxima tamanha,

Tão repassada d'intima poesia,

Porventura d'egual sabedoria

Á predica de Christo na montanha,

 

Ah! sê, por entre as sombras da desdita,

A ponte aerea, o arco d'alliança,

Que, em vez da excommunhão que a Egreja lança,

A Deus eleva a Humanidade afflicta!

 

Coimbra

Quinta de Santa Cruz

1871.

 

VII

 

MISSA PONTIFICAL

 

UM EVANGELHO

 

Sahi uma manhã mal vinha o sol rompendo,

E fui-me religioso a ouvir a missa ao campo,

Á vasta cathedral do mundo, aonde aprendo

Da Vida as sacras leis, que em letras d'ouro estampo.

 

Sentei-me sob um bosque estenso e solitario,

Que, em paz e sombra involto, á quietação me envida;

O accaso conduzira-me a um vasto santuario,

Onde ia celebrar-se a communhão da Vida!

 

Debaixo do docel da mûrmura floresta,

Se um culto universal é justo a Deus se vote:

Estava o templo augusto armado todo em festa,

Faltando unicamente agora o sacerdote!

 

O mundo em derredor aguardo-o co'anciedade...

E eil'o que chega, emfim, das bandas do oriente,

Surgindo como um Deus no azul da immensidade,

N'um carro triumphal, de raios resplendente!

 

Ao vel'o perpassou nas arvores sagradas

Um sopro mysterioso, o espirito do vento,

Que deixa-nos ouvir, em musicas toadas,

Psalmos que vão morrer no azul do firmamento!...

 

Nos multiplos florões das trémulas janellas,

Nos ramos mais subtis que a luz dos ceus colora,

Com magico fulgor scintillam, como estrellas,

Os limpidos crystaes das lagrimas d'aurora!

Nas naves, que sustêm a abbobada elevada,

Penetra triumphante a luz, suprema artifice!

Interprete de Deus, celebra a sua entrada

Com pompas, do Universo o maximo pontifice!

Assim que o sol sahio das brumas do horisonte,

Um deluvio de luz encheu o vale e o monte!

A pedra, o musgo, o insecto, a flôr, os arvoredos,

Trocaram entre si mil intimos segredos!...

Os passaros gentis, aladas creaturas,

Soltaram festivaes Hossana nas alturas!...

O sol triumphador, do mundo a vida accorda,

E esplendido festeja o eterno sursum corda!...

Estava em plena festa a Terra, mãe querida!...

E eu, em face d'ella, a contemplar-lhe a Vida!...

Então a Luz, qual flôr, subtil e sorridente,

Me disse a mim que sou seu terno confidente:

Poeta! vês o mundo alegre e harmonioso;...

Em intimo convivio unido o sol á terra,

E a terra e o sol aos céus!... No enlace auspicioso,

Permutam entre si os bens que a Vida encerra!...

 

A vida é sim um Bem; por isso é dada a todos!...

A todos por egual, a infindas creaturas,...

Que, em multiplo labor, e por differentes modos,

Procuram-no attingir na terra, e nas alturas!...

Áquelle que transpõe as portas da existencia

Um vinculo d'amor protege-o logo, e fica

Ao mundo inteiro preso, em mutua dependencia,

Ah desde a larva obscura ao sol que a vivifica!..

 

Qualquer que seja o nome, ou chama-lhe Verdade,

Belleza, Amor, Justiça: é tudo a mesma cousa!...

É quem fecunda e rege os soes na immensidade;

Quem dá ao universo a paz em que repousa!...

 

Por isto o mundo inteiro é todo uma harmonia!...

E sente a reanimal'o uma alma alegre e sã!

E vens de longe aqui, sedento de poesia,

A namorar-me a mim, que sou a tua irmã!

 

Do Sol baixei aqui a ler-te os evangelhos

Eternos de Verdade, e a missa vae findar!

Meu crente e meu poeta! é a hora: de joelhos,

Em nome do Senhor, te quero abençoar!

 

Á sua voz curvando a fronte: em fé immerso,

Senti entrar-me n'alma a alma do universo!...

Irmã, gemea de minha, a luminosa flôr,

Encerra-se afinal n'esta palavra==Amor==!

 

Quinta da Beselga

1885.