Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 4 de 46

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Cantos Sagrados

III Tristeza

É menos bella a vossa luz que os sonhos

Que gera na minha alma o Pensamento!

 

III

 

TRISTEZA

 

Como isto cá por fóra é tudo alegre!

Quão bello o sol! que esplendida harmonia

A terra, o mar e os céos!

Porem dentro de mim que mundo á parte!

Que embate de paixões! Que noite funebre!

Que magoas, Santo Deus!

 

Ai! se as manchas que o sol no rosto esconde

Tem sobre o mundo alguem onde projectem

A triste escuridão,

Minha alma é como o espelho onde ellas caem,

Tão profunda é a mágoa que me lavra

Aqui no coração!

 

E eu via ha pouco o azul d'um céo sem macula!

E o sol d'esta alma fulgurante e limpido

Banha-me todo em luz!

Porém, franqueza humana! eu proprio o obrigo

A alumiar-me com a luz da frouxa lampada

D'um templo de Jesus!...

Senhor! Senhor! que um teu olhar me alegre!

Que lave o pavimento de meu peito

De muita ideia vã,

Que o mal é como a noite, e o sol apaga-a

E transforma-a na prata, ouro e purpura

Das nuvens da manhã!

 

Oh! tu tristeza, irmã dos desgraçados,

Que lanças no meu peito os ais plangentes

D'esses gemidos teus!

Desprende da minha alma as azas negras,

E deixa entrar alegre a luz do dia,

A luz vinda dos céos!

 

E vós, filhos do sol, tribus innumeras

Da familia de Deus, plantas e flôres

Insectos e animaes,

Que engolfados nos gozos do Universo,

N'esse concerto immenso de harmonias,

Nos céos a Deus louvaes:

 

Ah! venho-vos tomar por meus mentores,

Pois vale bem mais a luz do vosso instincto,

Que a luz d'esta razão,

Se eu não sei como vós viver contente,

Trazer o azul dos céos na consciencia,

E a paz no coração!

 

Lisboa

Na tapada d'Ajuda,

1869