Cantos Sagrados
Á Arvore
Esta poesia, a instancias de Anthero do Quental, foi publicada por Guilherme de Azevedo e por isso pouco ou nada alterámos da fórma que primitivamente lhe démos.
Á ARVORE
Paginas 127 a 131
Foi escripta na epocha em que costumavamos passar parte do verão em companhia do Dr. Antonio da Silva Gayo, no Bussaco, n'esta montanha a que nos prendiam tão gratas recordações da nossa vida universitaria!...
Ali fomos como cultores do Bello e do Justo em perigrinação sagrada muitas e muitas vezes, umas em companhia d'amigos como Anthero do Quental, José Julio Rodrigues, Philomeno da Camara, e outras vezes, e estas em maior numero, sosinhos, fazendo a pé todo o longo percurso desde Coimbra, mas encontrando larga e generosa compensação nas suas sombras impenetraveis e profundas, na sua solidão e paz absolutas, tão propicias á contemplação e ao estudo!
Antes do caminho de ferro do Norte, que o pôz em communicação facil com o resto do Paiz, o Bussaco viveu longos annos, e para o bem d'elle, quasi completamente esquecido dos homens.
Só almas d'eleição, pouco conformadas com a realidade das coisas, só um ou outro amante da Natureza, iam ali de vez em quando procurar na sua quietação e silencio, tão cheios de mysterios e tradicções de mysticismo christão, eloquentes lições sobre os problemas da vida, sobre os multiplos e complicados destinos do coração e da consciencia, postos no mundo ante esta interminavel e ininterrupta sequencia--de luz e de sombra--de dias e de noites de prazeres e de dôres, de sonhos e desenganos!
Talvez mais do que ninguem, n'estes tempos de gosos faceis e interesses materiaes, nós fomos d'este pequeno numero.
A nossa paixão pela Montanha levou-nos a convencer o santo padre Mauricio a viver ali comnosco, pouco depois da nossa formatura, abandonando a sua modesta habitação em Luso, nos mezes de Novembro e Dezembro.
Ali estivemos entretidos os dois, elle de dia com os trabalhos já então iniciados, com o nosso protesto, por Moraes Soares, de noite com as suas candidas e piedosas orações; nós com os nossos livros dilectos, com os nossos passeios solitarios e lucubrações litterarias. Um viver simples, sobrio e puro, de que ainda hoje guardamos vivissimas saudades!
Mais tarde pelos melhoramentos e pequenas casas de habitação mandadas ali construir, o Bussaco attrahiu de Coimbra e seus arredores, de Lisboa e Porto, e até das Ilhas dos Açores, algumas familias distinctas, no numoro das quaes quaes sobrelevava a todas a de Silva Gayo.
Foi este pela vivacidade e graça de seu espirito brilhante, pelo encanto incomparavel da sua palavra facil, d'artista e de sabio, e sua esposa pela gentileza singular do seu porte, pela bondade e abnegação nunca desmentidas para com todos, foram elles que mais concorreram a chamar ao Bussaco uma concorrencia selecta e a tornar inolvidaveis os dias ali passados.
Foi ali que Silva Gayo escreveu e retocou algumas das paginas mais commoventes do seu Mario, de Frei Caetano Brandão e da Magdalena. Foi ali tambem que compozémos algumas das nossas poesias mais repassadas do pantheismo espiritualista que em todas mais ou menos se nota.
Foi á sombra d'aquelles arvoredos adoraveis, e sob estas beneficas influencias de arte, que se crearam, n'uma incansavel e vibrante alegria, os dois filhos de Gayo e de D. Emilia Paredes, Manuel da Silva Gayo e Mario Gayo, os quaes mais tarde se haviam de distinguir como dois talentos comprovados, um na poesia, outro na musica!