Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 21 de 46

Páginas do PDF

Cantos Sagrados

XX Nova Luz! Novo Ideal!

Honrando o Creador, e as fulgidas espheras,

Serás, qual semi Deus, sereno, sabio e justo!...

 

É este o Ideal que as leis da natureza

Inspiram com sublime e candida alegria!...

Que as normas da Rasão, que as pompas da Belleza,

E as maximas do Amor, reclamam noite e dia!...

 

O mesmo ensina o mar que arqueja palpitante,

Da terra enviando a Deus seus canticos d'amôr!...

O mesmo o terno olhar dos olhos d'uma amante;

O augusto erguer do Sol, o calmo abrir da flôr!...

 

O cyclo que hoje se abre, embora ainda incerto,

Vem dar um novo rumo á tua antiga historia;

Vem pôr-te em equilibrio, em intimo concerto

Co'a vida universal, de que és a alma e a gloria!

 

É esta a nova Fé que em tuba altisonante,

Interprete da Vida, entôa a voz da musa!...

Correi, povos, a ouvir-lhe o seu clamor vibrante!...

O espirito de Deus em sua vóz se accusa!...

 

Novembro de 1898.

 

XX

NOVA LUZ! NOVO IDEAL!

 

Espirito Supremo, d'onde brota

A luz que eterna os mundos alumia,

E deixa pelo espaço uma harmonia

Echo da tua vóz!

Inspira-me a assistir, sereno e impavido,

Ao funebre ruiz do christianismo,

E d'este inevitavel cataclysmo

Salva-te a ti e a nós!

 

A Ti, o forte, o sabio, o justo, o symbolo

De toda a perfeição, a ti importa

Que d'esta fé, tornada letra morta,

Vejamos renascer

Do mundo novo a crença ardente e rutila,

Co'o magico fulgor da nossa Ideia,

O espelho onde melhor se patenteia

No mundo o teu poder!

 

Ao teu olhar religiões sem numero,

Com ritos, cultos, cheios de fulgores,

Desambam, como as petalas das flôres

Ao Sol que as reproduz!...

Que um novo Ideal d'amor, de ti nascido,

Trajando d'ouro e purpura o horizonte,

Das sombras de hoje, esplendido desponte,

A dar-nos nova luz!...

 

Outra verdade, filha d'estes tempos,

Que venha a nós em nome teu, n'esta hora,

Matar a sêde ardente que devora

Os nossos corações,

Depois que á intensa luz de mil combates,

Travados pela fé contra a Sciencia,

Começa-se a apagar na consciencia

O ideal christão!

 

A Ti attraes as almas como as aguias

De monte em monte a prole aos ceus subindo,

Fazendo com que attinja o espaço infindo

Que abarca o seu olhar!...

De Brahma a Budha, de Moysés a Christo,

Se fez essa ascenção prodigiosa,

Ao fim do qual a alma é desejosa

De a novos ceus voar!...

 

Ah d'esta vacuidade em que se encontram

Os nossos corações cheios de febre,

Que uma alma nova irrompa e audaz celebre

Suas nupcias d'amor

Co'o mundo que lhe coube por partilha,

Passando a co-existir serenamente,

Harmonica, feliz e resplendente,

Como ante o Sol a flôr!...

 

Por nós, que não por ti, que és intangivel

Ás frageis condições da vida humana:

Perante o aspecto triumphal que emana

De toda a creação:

Convem-nos expurgir do fundo d'alma,

Da fonte onde se gera o pensamento,

O cunho de tristeza e desalento,

Que imprime o ideal christão!...

 

Ha na verdade em tudo o que é belleza,

E força e vida e amor nas creaturas,

Desde os astros que brilham nas alturas,

Á flôr a nossos pés:

Tanta porta do ceu a abrir-se á alma;

Riqueza tanta e tanto amor occulto

A revellar-te a Ti, que é justo um culto

Erguer-lhes outra vez!

 

Digamos a verdade: uma semente,

Que eterna e intacta a arvore resume,

Com troncos, folhas, flôres e o perfume

Que entrega ás virações:

Encerra em si mais luz, lição mais pratica,

Mais digna de por nós ser apprendida

Qual maxima d'amor, e ideal da vida,

Que um livro d'orações!

 

Tua alma é presa ao mundo que creaste

E o mundo, cuja orbita infinita

Abrange a Terra, e os Ceus, onde palpita

D'amor teu coração,

Tem jus a que façamos d'elle a Biblia

Eterna, aonde apprenda a Humanidade,

Sedenta de Justiça e de Verdade,

A nova religião!...