Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 28 de 46

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Cantos Sagrados

V Ás Nuvens

Quando este arroja á praia o pedregulho,

E aquelle as lindas conchas lhe semeia!...

 

És sempre o mesmo! És sempre o grande amigo,

Sobre cuja espantosa immensidade

Vejo passar o sopro da Verdade,

Da doutrina de Deus, que adoro e sigo!

 

Buarcos, 1869.

 

V

 

ÁS NUVENS

 

Vapores que em vistosos cortinados

Armaes dos ceus o templo de safira

Com purpura e finissimos broxados,

Sêde hoje o assumpto para a vóz da lyra!

 

Que eu quero ter a intima certeza

Que, antes da hora da fatal partida,

A minha alma no mundo fica preza

Ás coisas bellas que adorei na vida...

 

Horas felizes que ainda hoje eu passo,

Pelas tardes calmosas do verão,

Seguindo-as uma a uma pelo espaço,

Dizei ás nuvens se eu as amo ou não!...

 

Eu que vou pelo mundo imaginando

Visões sobre visões, sempre illusorias:

Comprazo-me em vos vêr de quando em quando,

Fórmas aereas, sombras transitorias!...

 

Vós que nas tardes e manhãs amenas,

Passando como timidas deidades,

Deixaes os ceus juncados d'açucenas,

D'alvos jasmins e rôxas saudades;

 

Vós que andaes presurosas, fugitivas,

Os ceus cruzando n'um lidar constante:

Sorris-me como as multiplas missivas

Que envia ao Sol a Terra sua amante!...

 

Imagens lindas d'um amor jocundo,

E espectros negros d'intimos rancores,

Do grande coração que agita o mundo,

O mar, que tem como eu paixões e amores!...

 

Á tarde quando o Sol, cratera ardente,

Vae prestes a apagar-se e, em desafago,

Inflamma as grandes portas do Occidente

E faz da terra e ceus um mar de fogo:

Ah! deixo os olhos espraiando a vista

Pelos paineis de mil preciosidades,

Aonde desenhaes, com mãos d'artista,

Em telas d'ouro olympicas cidades!...

 

E agora são rochedos e campinas!...

Fulvos leões e timidas gazellas!...

E logo apoz castellos em ruinas,

Visões d'amor, phantasticas donzellas!...

 

Umas vezes são guerras estrondosas,

Luctas crueis d'impavidos gigantes,

Onde ha rios de sangue e pavorosas

Sombras de heroes, e incendios fumegantes!...

 

E outras vezes, então, nuvens ligeiras,

Convertei-vos em lyrios e violetas,

Em acacias floridas e palmeiras,

E em vultos de Romeus e Julietas!...

 

E eu amo a nuvem negra que imponente

Abre nos ceus a fulgida garganta,

E vomita do seio o raio ardente,

E com elle o trovão que o mundo espanta,...

 

E a pudibunda nuvem d'alvorada

Quando, ante o Sol esplendido que assoma,