Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 14 de 46

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Cantos Sagrados

XIII Á Guerra!

Em quanto eu, alta noite, velo e lido,

Por vós mantendo innumeros cuidados,

Dormis, caros filhinhos, socegados

Em torno a mim o sonho appetecido!

 

Dormis?! sonhaes de certo... e eu pae envido

Meus esforços por vêr realisados

Vossos sonhos gentis e perfumados:

Ampara-vos um peito estremecido.

 

Outro Alguem faz por nós o que eu vos faço:

Com suprema bondade e sapiencia,

Rege os mundos que rolam pelo espaço!

 

Esse Alguem é o Amor por excellencia,

O formidavel e invisivel braço,

E o olhar que nunca dorme==a Providencia==!

 

Lisboa, 1885.

 

XIII

 

Á GUERRA!

 

O QUE EU SINTO...

Se vejo com pavor as luctas carniceiras

Que empenham as nações, chamadas as primeiras,

Nos campos da batalha,

Ah! quando a sós comigo e o Eterno me concentro,

Ouço não sei que voz a mim bradar cá dentro:

==É Deus que ali trabalha==!

 

Por mais que ousado vôo aos ceus a aguia eleve,

Nos ceus ha um limite além do qual em breve

Fallece a aza e taes

Como as aguias os reis!... Subiram, mas solemne.

O dia ha de chegar em que Deus os condemne

E brade-lhes==Não mais==!

 

No chão não ha raiz que diga á Terra==estanca

A seiva que me dás==! Nem aguia ou pomba branca

Que engeite o vôo alado!...

Não ha um lavrador que entaipe em cal e pedra

A fonte de chrystal, de cujas aguas medra

A arvore, a flor, o prado!...

 

E onde ha no mundo um povo a outro povo extranho?!...

Ou odio figadal, intrinseco, tamanho

Que a todos nos divida?!

Se a Terra, o mar profundo e o proprio sol são pouco

Por darem vida a um lyrio: haverá hoje um louco

D'um Cezar que decida,

 

D'encontro ás sabias leis por Deus dadas ao mundo,

Que um homem, cujo peito infinito e profundo

Abrange a Terra e os Ceus,

Guerreie o proprio irmão que é d'elle a propria essencia,

A luz, o ar, a vida, a força, a providencia,

Que deste-lhe, meu Deus?!

 

Oh não!... Tu mandarás o dia em que a Justiça

Obrigue-os a expiar com fronte submissa

Dos crimes o estendal

Que encheu de sangue e horror as paginas da Historia,

Servindo de lição, ficando por memoria,

Em prol do teu Ideal!...

 

E o mundo hade voltar á fonte d'onde veio,

E ser todo elle amor, justiça e paz!... Já leio

Signaes de nova Luz!...

As crenças do Passado estando já em terra,

Vem prestes a surgir a nova Lei que encerra

Os sonhos de Jesus!...

 

E eu beijo e adoro a mão que impelle e rege o mundo,

Que deu a flor ao campo; os sóes ao firmamento,

E o espirito divino

Aos nossos corações! Que a toda a creatura,

Á flor que desabrocha, ao astro que fulgura,

A todos deu destino!

 

Por isso eu n'este mar, sobre este chão d'abrolhos,

Por onde cae amaro o pranto dos meus olhos,

De fito no Senhor,