Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 30 de 46

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Cantos Sagrados

VII Á Arvore

Urnas santas, a mim que deposito

No vosso olôr subtil e perfumado

As scenas mais gentis do meu passado,

Perdidas para sempre no infinito!...

 

Deixae que em testemunho da verdade:

Do muito que vos quiz e amei na vida,

Como echo da minha alma agradecida,

Meu canto o atteste á luz da eternidade!...

 

Carvalhaes, 1870.

 

VII

 

Á ARVORE

 

Quando contemplo em paz teu nobre vulto

Erguido aos ceus: envolto em verde manto,

Supponho contemplar um justo,... um santo,...

Um pae,... um Deus,... algum mysterio occulto!...

 

Ha não sei bem que força em mim tão forte,

Não sei que grande instincto inabalavel

A levar para quanto é bello e estavel

Esta alma, para quem só Deus é norte,

Que em ti, oh mãe, em ti achei guarida...

A tua sombra off'rece a paz e a esperança

A quem no mundo é triste e em vão se cança

Para aos ceus dirigir a propria vida!...

 

Quantas vezes em horas d'agonia,

Que deixavam meus olhos rasos d'agua,

Eu não deixei ficar-te aos pés a magoa,

Buscando tua sombra noite e dia?!...

 

Quantas horas fitando os ceus pasmado

Eu não passei, deixando o olhar suspenso

N'aquelle vasto seio azul e immenso,

Do verde de teus ramos marchetado?!...

 

De dia, quando o Sol aquece o mundo,

E os entes se propagam, nascem, crescem;

De noite quando os astros resplandecem

N'aquellas solidões d'um mar sem fundo:

 

Se á tua sombra estou, sinto n'esta alma

Cair da doce côr que o Sol te veste,

Da paz que tens, o balsamo celeste

Que em meu peito as paixões serena e acalma!...

 

Ou quando o vento chega, e eu não sei d'onde...

E passa sobre ti, murmura e canta,

E eu olho e nada vejo, e a fé mais santa

Me leva a crer no Deus que o mundo esconde;

 

Ou quando á noite, n'um propicio agouro,

As estrellas dos ceus que mais fulguram

Das pontas dos teus ramos se penduram

Como ideias de Deus em fructos d'ouro:

 

Amo-te muito e muito, e não me admira,

Quando tu á minha alma um Deus revellas

E lhe mandas um hymno em que as estrellas

São as notas, e a tua coma a lyra!...

 

Oh arvore! no amor que a Ti me prende,

Confesso ao mundo haver bem mais lucrado,

Que em muito livro d'ouro encardenado,

Que ahi se espalha e muita gente aprende!...

 

Se eu vira, como os fructos dos teus ramos,

D'entro d'esta alma abrir-se a flôr da ideia

Á luz deste ideal que em nós se ateia

Para que nós do mal ao bem subamos;

 

Se ás novas gerações, no meu psalterio,

Cantar podesse a nova luz que assoma,

Como os orgãos da tua verde coma

Lançando a vóz de Deus no espaço ethereo;