Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 18 de 46

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Cantos Sagrados

XVII Aos Filhos

Rainha! traja mantos d'ouro e purpura,

A doce perl'a, o fulgido brilhante,

E tudo quanto esplendido levante

Na Terra o teu amor!

 

Amor se symbolisa n'um menino,

Dos ceus gentil e alado mensageiro,

Trazendo atraz de si, como um cordeiro,

Pacifico leão!

O magico poder que a fera doma,

A força de que se arma esse innocente

És tu mulher, e a fera obediente

O nosso coração!

 

Conscia de Ti, das leis da vida, impera!

E aos pés verás as almas subjugadas!

Tem mais poder que o fio das espadas,

Um riso e olhar dos teus!

Que o teu propicio amor, dos ceus oriundo,

Nos doure a vida, a ampare, a dulcifique,

Nos faça com que a alma humana fique

Mais proxima de Deus!

 

1892.

 

XVII

 

AOS FILHOS

Trazidos pelo Amor, que por instantes,

O veu ergue á Verdade,

Por nós á luz vieram, quaes prestantes

Peões da Humanidade!...

 

Amor é quem dos ceus nos abre a porta,

Nos deixa vêr o intuito

De Deus na Terra, e a elle nos transporta

Da amante o olhar fortuito!

 

Em nós n'um sonho lindo tendo origem,

Se o sonho a Deus encerra,

As sabias leis da historia humana exigem,

Que o sonho desça á Terra!...

 

Dos paes vingasse o amor, que este o faria

Entrar na realidade,

Expondo a divinal sabedoria

Em plena claridade!...

 

Com legitimo orgulho o sol dar-lhe-ia

Seus raios sempre novos;

E a Terra os bens innumeros que cria

Em paz, a bem dos Povos!

 

Em vez de irmãos maleficos eivados

De odios que o sangue atiça,

Os bons e os maus ver-se-iam congraçados

Em nome de Justiça!

 

Em frente das pacificas moradas,

Jasmins, lyrios e rosas!...

E as ruas que pisamos marchetadas

De pedras preciosas!

 

Tal o sonho que passa pela mente

D'um pae creando os filhos,

E n'essa fé remove deligente

Milhares d'empecilhos!...

 

Mas fal'o em vão, que o mundo, sob um pacto

Cruel co'o odio eterno,

Lhe põe em derredor, injusto e ingrato,

Em vez do ceu, o inferno!...

 

Ás vezes chega a ter-se horror ao homem,

Ás suas impias luctas,

Ao termos de entregar o peito joven

D'um filho ás feras brutas!...

 

Antithese do Bem em que inda espera,

Pergunta dolorido

Um pae a Deus: se accaso lhe valera

Seu filho ter nascido!...

Emfim é lei, e a lei, ideal supremo

Bemdicto e sublimado,

Fará com que passemos d'este extremo

Do mal, ao Bem sonhado!...

 

De Deus a Idéa amplissima, infinita,

Qual filha ao lar paterno,

Em torno a Deus explendida gravita,

No seu percurso eterno!

 

E tal como do cahos pavoroso,

Que a custo eu mal devasso,

Surgio mais tarde o mundo esplendoroso,

Que rola pelo espaço!

 

E á eterna luz dos soes no firmamento,

Celeste peregrino,

Caminha sem cessar no seguimento

D'um Ideal Divino:

 

Assim o coração febril se arrasta,

Na sua lucta immensa,

Atraz do Bem Supremo, e tanto basta

Por base á minha crença!...

 

Buscando o summo Ideal por entre antitheses,

Fazendo e desmanchando:

O espirito concebe as largas syntheses

De Deus, de quando em quando!

 

Ao fim de cada qual resurge a Vida,

E muda os moldes velhos

Por outros que se ajustam á medida

Dos novos evangelhos!...

 

Sobre isto a historia offerece-nos exemplos!...

Os criticos deparam

Co'os netos desmachando um dia os templos,

Que seus avós sagraram!...

 

D'ahi os odios vãos de fanatismo;

Os multiplos revezes,

Que assolam as nações co'o cataclysmo

Das crenças muitas vezes!

 

Quem do alto vé, no entanto, a historia humana,

Contempla sorridente

A marcha dos destinos porque emana

D'um Pae ommisciente!

 

Passem nos ceus, com rapidez tamanha,

Os astros diamantinos;

Que a terra os segue; a terra os acompanha

Eguaes são seus destinos!...

Aquillo que ha de vir e que deriva

D'aquillo que hoje somos,

Que em si contém do Eterno a parte viva,

Nos filhos o depomos!...

 

Os filhos são da arvore da vida

A flôr dos novos fructos,

A quem de Deus a essencia é transmittida,

Com os seus mil attributos!

 

E os paes então o fructo assasonado,

Já proximo da queda;

Com elles cae a parte do Passado

Que é morta, e Deus arreda!

 

E quem nas leis divinas confiando,

Á fulgida seara

Do bem se consagrou, não morre quando

Dos vivos se separa!...

 

Contente desce em paz á sepultura,

Na crença de que os filhos

Verão mais tarde em plena formosura

Dos sonhos seus os brilhos!

 

Na marcha ascencional da humana historia,

Que a mão de Deus conduz,