Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 32 de 46

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Cantos Sagrados

IX Aos Astros!

IX

 

AOS ASTROS!

 

Quando ergo á noite os olhos scismadores

Á cupula do ceu, cheia de mundos,

E perco-me nos páramos profundos

D'um mar sem fim de tremulos fulgores:

 

O ceu, qual templo levantado á Vida,

Armado de riquissimo thesouro,

De par em par descerra as portas d'ouro,

E attrae a si minha alma embevecida!...

 

Chovem-me então das cellicas alturas,

Das luminosas, candidas estrellas,

Visões sublimes, ideaes e bellas

Da Causa que deu o ser ás creaturas!...

 

Amor as fez, Amor no espaço as guia!...

E é sob o influxo d'esta Lei Suprema,

Que cada qual realisa o seu problema,

Preso ao das mais em intima harmonia!...

 

Sim, cada estrella, vêmol'o sem custo,

Sendo dos ceus bellissimo ornamento,

É um centro de vida e movimento

Posto ao serviço d'um principio justo!...

 

Por todo o ethereo azul da immensidade,

Dos soes sem fim a fulgida colmeia,

Trabalha em traduzir, na humana ideia,

De Deus a perfeição, toda bondade!...

 

Oh cupula celeste, no teu seio

Aprendo a ler em paginas de fogo

O espirito das coisas que interrogo

Por toda a parte, e em cuja essencia creio!...

 

Tu, co'o teu docel azul sem fundo,

Cheio de fogos d'alma claridade,

Em multipla e febril actividade;

Sorris-me como a fabrica do mundo;

 

O vasto pavilhão onde é servida

Em mesas d'ouro, festivaes e bellas,

N'esses milhões de esplendidas estrellas,

A eterna comunhão dos Bens da Vida!...

 

Permitte, pois, que em sã fraternidade,

Reunindo os habitantes d'esta esphera

Aos que ha em ti, minha alma, sã e austera,

Saúde a mãe commum==a Humanidade==;

E adore, á luz dos fachos sempre novos,

Do teu santuario, o espirito fecundo

De Deus, Supremo Bem, que ampara o mundo,

Inspira as almas e dirige os Povos!...

 

E emquanto a vida vae em seu caminho,

Por entre o dia claro e a noite escura,

Conserva intacta esta alma crente e pura,

Porque possa voltar ao patrio ninho!...

 

Á luz da minha critica profana,

A Lei Suprema, que de Deus deriva,

Eleva aos soes, em marcha progressiva,

De virtude em virtude a alma humana!...

 

Se duvidas tivesse, a fé e a esperança

Levavam em contrario a vida minha,

E a bussola, que ignora onde caminha,

Segue o seu norte e d'elle emfim descança!...

 

Astros sem fim, oh soes que estaes por cima,

Longe da Terra, em região mais pura!

Deixae que o corpo desça á sepultura

E a vós se eleve o espirito que o anima!

 

O irmão da Luz, o amante da Verdade,

Hade ir, deixando o envolucro que veste

Como hospede da abbobada celeste,

Internar-se feliz na immensidade!...

 

Astros! egual é a lei que nos governa!

Na Terra, o nosso espirito fecundo

Penetra nos reconditos do mundo,

E vive como vós a Vida Eterna!

 

Beselga, 1872.