Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 34 de 46

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Cantos Sagrados

O que Eu Vi

Paginas 1 e 2

Esta poesia é uma das quatro ou cinco d'esta collecção que já foram publicadas. Não podemos verificar n'este momento, por falta de tempo, em que jornal litterario e em que data o foi.

Pode dizer-se que é o prologo e a synthese de todo este livro de C . Pode até mesmo servir d'explicação ao sentimento religioso que se accusa tão accentuadamente em quasi todos os nossos trabalhos poeticos.

Como d'ella se deprehende o Deus a quem nos referimos está completamente fóra dos moldes das religiões revelladas, dos ergastulos da fé dogmatica. É o Pae da Vida, a Fonte do Amor, o Deus da Natureza.

É como que o symbolo que personifica a Perfeição Absoluta; o Ideal do Universo; A causa primaria de todo o existente; O sol vinificador das consciencias e dos mundos.

É a Belleza, é o Amor, é a Justiça, a que tudo obedece, levados ao maximo grau d'intensidade que é dado á razão humana attingir n'um determinado cyclo historico, e que, como tal, illumina as consciencias, dirigindo-as!...

Para todo o coração terno, para toda a alma de artista, será sempre imprescindivel antepôr-se ao espectaculo magnificente e deslumbrador do Universo, á marcha triumphal da Luz e da Vida por toda a parte penetrando nos ultimos reconditos do mundo visivel e invisivel, e sem a interrupção d'um só instante na sequencia incalculavel dos seculos, tirando de lá as maravilhas da natureza, antepôr-se, dizemos, um mundo moral com as paginas infinitamente bellas das civilisações já extinctas; um mundo que synthetise todo o Ideal da Humanidade. E, n'esse Mundo Moral, Deus é o Ser por excellencia, a chave insubstituivel do multiplo e mysterioso Problema da Vida.

Nas insondaveis e invisiveis regiões da consciencia humana, o mundo exterior, que é o reflexo, a continuação, o complemento do mundo interior, encontra n'este, como outros tantos Ideaes da Perfeição Suprema, as Leis da Vida, que actuam imperturbaveis, omnipotentes e eternas.

Para este Mundo Moral, para este Mundo das Almas, Deus é pois a personificação d'essas leis e como tal o Ideal Supremo.

Não cremos possivel arrancar-se da natureza humana, deturpando-a, qualquer das suas forças immanentes, e no numero d'estas forças devemos suppôr a religiosidade, isto é, o sentimento de respeito por um Poder superior, causa primaria, ponto de partida, iniciação e justificação de todo o existente, de tudo quanto vêmos e sentimos.

E para nós uma utopia impraticavel, e nociva á solução dos actuaes problemas da humanidade, o querer-se substituir o Ideal vivo e amoroso de Deus pela synthese fria e inanimada da sciencia, assente exclusivamente em factos demonstraveis!...

Em primeiro logar as sciencias positivas, pondo fóra da sua esphera d'investigação, e muito bem, a Causa Primaria das cousas, não podem aspirar a resolver os problemas da consciencia e do coração, e a fazer calar as imperiosas interrogações da sua voz interior!...

Em segundo logar, todas as sciencias assentam, por ora, em meras conjecturas, em, aliás engenhosas e bem concebidas, hypotheses, que como taes em tempo algum poderão satisfazer a ancia infinita de nosso espirito em tudo devassar e saber, e ninguem nos pode affirmar que amanhã não sejam substituidas por novas hypotheses, melhor concebidas e expostas.

Em terceiro e ultimo logar, o povo e a mulher, isto é os obscuros, os simples, os que trabalham, os que soffrem e os que amam, que são quasi, por ora, a humanidade inteira, não poderiam suspender as reclamações do seu coração e do seu espirito, á espera que os sabios lhes desvendassem os segredos da natureza, e convertessem as suas verdades, chamadas irreductiveis, n'um Ideal Supremo, que, para todos os effeitos, substituisse a Idéa de Deus a que o christianismo deu uma feição tão amorosa na interpretação larga e fecunda d'um Pae Celeste.

Quem lucra com a guerra feita ao sentimento religioso, confundindo-o com o das religiões positivas, revelladas, são os reaccionarios catholicos e, para prova, é vêr o alastramento pavoroso que por todo o paiz se está operando nas classes ricas, e nas ultimas camadas sociaes, sahindo-se até hoje triumphantes os que, pelas leis vigentes, pelas tradicções historicas, e pelo futuro d'este paiz, não deveriam ter cá entrado!...

O que o sentimento religioso reclama é ser derivado para novos objectivos que mais directamente interessem e sirvam os soffrimentos humanos, a moral, a arte, o direito e a justiça, abandonando o sobrenaturalismo com todo o seu cortejo de phantasias, de aberrações e de absurdos.

No dia em que a Razão se pozer d'accordo com a Fé, o Amor com a Justiça, será facil á humanidade entrar na normalidade do seu distino, como factor poderoso que é, nos multiplos e interminaveis problemas do Universo.

Em harmonia com estas idéas, com o Ideal de Justiça que professamos, e de que este livro é um vehemente e sincero pregão, consagrando além d'isso á mulher e ao povo as nossas melhores esperanças na redempção do mundo: adoptámos para traduzirmos o nosso Ideal Supremo, esta palavra que tem a consagração dos seculos, as sympathias e a adhesão d'aquelles a quem principalmente visamos nos nossos C .