Cantos Sagrados
VI Ás Flores
Parece virgem pura e delicada,
Branca de neve com dourada coma!...
Oh nuvens que passaes no firmamento,
Bandos aereos d'illusões perfeitas!...
Vós que tão lindas sois, e n'um momento,
No chão cahis em lagrimas desfeitas!
Quando vos vejo pelo azul profundo,
Voluptuosas, gentis e transparentes:
Lembraes-me os sonhos que lancei ao mundo,
Como um bando de pombas innocentes!...
Bem mais felizes vós, que, n'um momento,
Passando aereo fumo em valle e serra,
Levaes comvosco, a vida, o movimento
De quanto nasce e vive sobre a terra!...
Já não assim meus sonhos, muito embora
Levem comsigo as novas do futuro:
São nuvens bellas d'esplendente aurora,
Desfeitas sobre um chão ingrato e duro!...
Carvalhaes, 1873.
VI
ÁS FLORES
Eu venho-vos cantar, mimosas flôres,
A vós irmãs da luz, gentis e bellas,
Do chão que piso vívidas estrellas,
Com mil perfumes, mil viçosas côres!
Á vossa encantadora companhia,
Toda cheia de graça e de candura,
Eu devo em parte a luz serena e pura
Do amor, que meu espirito allumia!...
Cercando-me dos vossos esplendores,
Nos quaes eu pasto dia e noite a vista,
Consigo converter meu lar d'artista
N'um Louvre de riquissimos lavores
Em porphirio, alabastro, em prata e oiro,
E em fulgidos setins!... Primores d'arte,
Por onde o Artista Maximo reparte
Co'os olhos meus bellissimo thesouro!...
Entre nós não ha festas verdadeiras,
No templo, no palacio ou na choupana,
Que em todo o grão matiz da vida humana,
Prescindam de vos ter por companheiras!...
Ninguem na Terra vos disputa a palma
D'expor, com fidelissima justeza
De côr e fórma, cheias de belleza,
Os varios sentimentos da nossa alma!...
A timida donzella, ingenua e pura,
Temendo-se dos bens que ella imagina,
Nas petalas da candida bonina
Procura lêr seus sonhos de ventura!...
Com finas mãos, as pallidas Ophelias,
Por darem mais realce aos fios d'ouro
Das bastas tranças: seu cabello louro
Adornam com alvissimas camellias!
Afim de se dizer á bem amada
Do intenso amor o rapido delirio:
Da rosa pudibunda ou branco lyrio
Se faz missiva pura e perfumada!...
Os tristes na viuvez, e na orfandade,
Roidos por uma intima amargura:
Desfolham na chorada sepultura,
As petalas do lyrio e da saudade!...
Eu mesmo, que do publico debando;
Dos mortos devorciado, e alheio aos vivos:
Se vejo d'entre sonhos fugitivos,
Abrirem-se-me os ceus de quando em quando;
Suppondo em vida os povos numerosos,
Unindo-se em espirito e verdade,
Viverem ante Deus e a Humanidade,
Como irmãos, solidarios, venturosos;
E encontro, em torno ás candidas chimeras,
Crueis dissilusões por toda a parte:
Em guerra os homens, a virtude e a arte
Sem o fogo sagrado d'outras eras...
Oh minhas flôres! viva embora eu triste,
Que as vossas serenissimas imagens
Conseguem libertar-me das voragens
Com quanto bello na minha alma existe!...
Ah quando caio e vejo das miserias
Cavar-se aos pés um sorvedoro infindo:
Seguindo as esperiaes d'um sonho lindo,
Por vós remonto ás regiões ethereas!...
Em horas de fraqueza, horas mofinas,
Se eu ouso vos fitar, sinto na face
Um subito rubor, qual se me olhasse
Deus Pae, sob essas formas peregrinas!...