Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 29 de 46

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Cantos Sagrados

VI Ás Flores

Parece virgem pura e delicada,

Branca de neve com dourada coma!...

 

Oh nuvens que passaes no firmamento,

Bandos aereos d'illusões perfeitas!...

Vós que tão lindas sois, e n'um momento,

No chão cahis em lagrimas desfeitas!

 

Quando vos vejo pelo azul profundo,

Voluptuosas, gentis e transparentes:

Lembraes-me os sonhos que lancei ao mundo,

Como um bando de pombas innocentes!...

 

Bem mais felizes vós, que, n'um momento,

Passando aereo fumo em valle e serra,

Levaes comvosco, a vida, o movimento

De quanto nasce e vive sobre a terra!...

 

Já não assim meus sonhos, muito embora

Levem comsigo as novas do futuro:

São nuvens bellas d'esplendente aurora,

Desfeitas sobre um chão ingrato e duro!...

 

Carvalhaes, 1873.

 

VI

ÁS FLORES

 

Eu venho-vos cantar, mimosas flôres,

A vós irmãs da luz, gentis e bellas,

Do chão que piso vívidas estrellas,

Com mil perfumes, mil viçosas côres!

 

Á vossa encantadora companhia,

Toda cheia de graça e de candura,

Eu devo em parte a luz serena e pura

Do amor, que meu espirito allumia!...

 

Cercando-me dos vossos esplendores,

Nos quaes eu pasto dia e noite a vista,

Consigo converter meu lar d'artista

N'um Louvre de riquissimos lavores

 

Em porphirio, alabastro, em prata e oiro,

E em fulgidos setins!... Primores d'arte,

Por onde o Artista Maximo reparte

Co'os olhos meus bellissimo thesouro!...

 

Entre nós não ha festas verdadeiras,

No templo, no palacio ou na choupana,

Que em todo o grão matiz da vida humana,

Prescindam de vos ter por companheiras!...

Ninguem na Terra vos disputa a palma

D'expor, com fidelissima justeza

De côr e fórma, cheias de belleza,

Os varios sentimentos da nossa alma!...

 

A timida donzella, ingenua e pura,

Temendo-se dos bens que ella imagina,

Nas petalas da candida bonina

Procura lêr seus sonhos de ventura!...

 

Com finas mãos, as pallidas Ophelias,

Por darem mais realce aos fios d'ouro

Das bastas tranças: seu cabello louro

Adornam com alvissimas camellias!

 

Afim de se dizer á bem amada

Do intenso amor o rapido delirio:

Da rosa pudibunda ou branco lyrio

Se faz missiva pura e perfumada!...

 

Os tristes na viuvez, e na orfandade,

Roidos por uma intima amargura:

Desfolham na chorada sepultura,

As petalas do lyrio e da saudade!...

 

Eu mesmo, que do publico debando;

Dos mortos devorciado, e alheio aos vivos:

Se vejo d'entre sonhos fugitivos,

Abrirem-se-me os ceus de quando em quando;

 

Suppondo em vida os povos numerosos,

Unindo-se em espirito e verdade,

Viverem ante Deus e a Humanidade,

Como irmãos, solidarios, venturosos;

 

E encontro, em torno ás candidas chimeras,

Crueis dissilusões por toda a parte:

Em guerra os homens, a virtude e a arte

Sem o fogo sagrado d'outras eras...

 

Oh minhas flôres! viva embora eu triste,

Que as vossas serenissimas imagens

Conseguem libertar-me das voragens

Com quanto bello na minha alma existe!...

 

Ah quando caio e vejo das miserias

Cavar-se aos pés um sorvedoro infindo:

Seguindo as esperiaes d'um sonho lindo,

Por vós remonto ás regiões ethereas!...

 

Em horas de fraqueza, horas mofinas,

Se eu ouso vos fitar, sinto na face

Um subito rubor, qual se me olhasse

Deus Pae, sob essas formas peregrinas!...