Cantos Sagrados
Notas Elucidativas
A DEDICATORIA
No nosso periodo academico, que decorre de 1859 a 1866, e no que se lhe seguiu de 1867 até ao anno de 1874 em que nos casámos, mantivémos estreitas relações d'amisade com algumas familias historicas da provincia e da capital, onde eram ainda vivos os aggravos, e numerosas as queixas, contra as violencias e as vinganças politicas que, de parte a parte, precederam, acompanharam e seguiram o triumpho das armas liberaes, na guerra chamada dos dois irmãos, D. Pedro IV e D. Miguel I.
A nossa substancial e nunca desmentida tolerancia para com as crenças e as opiniões dos outros, derivada do Ideal de Justiça de 1789, que seguimos desde os bancos da Universidade com inquebrantavel fé e ininterrupta dedicação, e o quasi fanatico respeito pela inviolabilidade do lar, permittiram-nos estudar na vida intima d'aquellas familias illustres, a transformação profunda que se operou nas crenças, usos e costumes d'este povo, celebre entre os mais celebres da Historia.
Tivemos a infinita ventura de conhecer de perto, nas suas melhores origens, as mais bellas joias da alma portugueza, de que o coração da mulher foi, é, e ha de ser sempre o fiel relicario e transmissor! D'ahi em grande parte a nossa confiança na missão d'este povo heroico, nos destinos dos outros povos, quando para todos brilhe e impere um novo Ideal de Justiça e em nome d'elle sejam banidas as paixões, quer religiosas quer politicas, das regiões augustas e serenas da Lei e do Poder.
D'essas familias destacaremos a de Silva Gayo, o glorioso author do Mario, casado com D. Emilia Paredes, filha do Conselheiro Cunha Paredes, Juiz do Supremo Tribunal de Justiça, aquelle um vibrante e eloquente protesto contra os excessos de demagogia, ou clerical ou plebêa, de que o citado livro é um bellissimo documento; seu sogro um dos homens bons e ponderosos que partilharam e serviram o movimento liberal.
A familia de Luiz Monteiro Soares d'Albergaria, casado com D. Ludovina da Silva Carvalho, filha do celebre ministro de D. Pedro IV, senhora de excepcional illustração, que conhecia a fundo o seu tempo, e sobre elle descorria com conhecimento de causa.
A familia Osorio, da quinta das Lagrimas, e a da Graciosa, representando ambas o elemento são da aristocracia portugueza que se pronunciou pelas liberdades e franquias patrias, e onde me foi dado admirar os requintes da educação antiga, no que ella tinha de altruista e de bom, segundo o verdadeiro espirito evangelico.
A familia do bacharel em direito Manoel Rois Salgado, de Carvalhaes, filho de lavradores remediados da poetica região da Bairrada, liberal convicto, implacavel inimigo da intollerancia religiosa e das tyrannias politicas do tempo dos caceteiros de D. Miguel e dos Cabraes.
Era sua esposa uma senhora de origem e tradições legitimistas, D. Anna de Vasconcellos, que muito soffrera com a guerra dos dois irmãos!... Sua alma piedosa, delicada e poetica, sobreelevou a todos, e nos fez conhecer de perto, com quotidianos exemplos de bondade, a excellencia das doutrinas do Evangelho, quando postas em pratica, com fé e pureza de coração.
A familia de Manoel Maria da Silva Bruschy, d'esse grande moralista, philosopho e jurisconsulto que foi um dos luminares da Jurisprudencia patria e quem nos dirigiu os nossos primeiros passos na carreira forense.
Era elle um dos mais authorisados e prestigiosos representantes do legistimismo, e quem nos forneceu informações curiosas sobre muitos pontos obscuros da guerra civil, e sobre motivos secundarios, que contribuiram para o triumpho das armas liberaes.
Nas mesmas condições de saber, de coração e de espirito, mas n'uma ordem de ideias oppostas ás de Silva Bruschy, mencionaremos ainda o general Luiz Flippe Folque, conselheiro de estado, mestre que tinha sido dos reis extinctos D. Pedro V e D. Luiz I, e que foi quem acompanhou e dirigiu o primeiro d'estes dois monarchas na sua viagem d'instrucção e recreio pela Europa.
Era um perfeito homem d'estado, modesto, erudito e tolerante para com todas as opiniões. Devemos a seu genro o Conde de Nova Goa, nosso velho e dilecto amigo, a convivencia com este perfeito homem de sciencia, de cujas lições colhemos muitos elementos de ponderação para formarmos juizo imparcial e seguro sobre a historia dos partidos politicos em Portugal.
Resta-nos mencionar nosso sogro, o general de divisão, Roque Francisco Furtado de Mello, que foi juiz do Tribunal Superior de Guerra e Marinha, que se orgulhava de ter feito as novas campanhas da Liberdade, e sua sancta esposa D. Maria Maxima de Berredo, filha d'um dos regeneradores do movimento revolucionario de 1820.
Ambos tinham sido victimas das guerras civis desde o cerco do Porto e ambos soffreram, com suas familias, as mais crueis perseguições dos sequazes do absolutismo em Portugal.
Para inteiro esclarecimento, ainda diremos que alguns dos nossos parentes, tanto do lado paterno como do materno, eram legitimistas convictos, que se achavam destituidos das honras e benesses do antigo regimen, e que protestavam contra a nova ordem de coisas.
Tal foi o meio social em que nos achámos ao sahirmos do lar paterno.
A nossa posição singularmente favorecida n'este conflicto de interesses historicos, tendo tido a coragem de evolucionármos em nome da sciencia, e sob a influencia dos espiritos mais cultos da epocha, para o regimen da democracia pura, que melhor chamaremos do Direito Humano, inaugurado com a proclamação dos Direitos do Homem, em 1789; a excepcional ventura de conquistarmos para a sinceridade das nossas crenças a tolerancia dos nossos competidores, tudo isto concorreu para nos fortalecer no Ideal d'um novo Direito, d'uma Nova Justiça, d'uma Nova Moral, de que este livro é um modesto precursor no campo da poesia patria.
Não podiamos deixar por isso de o consagrar á memoria inolvidavel d'essas venerandas creaturas, quasi todas hoje extinctas... ás almas d'eleição que tanto fortaleceram as nossas creanças na bondade e na virtude humana.
Por outro lado pertencendo pela educação que demos a nós mesmos, destruindo pela base a que recebemos no berço, aos homens de genio e de fé, que espalharam pelo mundo os principios revolucionarios de 1789 e tentaram as primeiras applicações praticas aos problemas pendentes da humanidade, e genios em que havia poetas como Lamartine e Hugo, musicos como Beethoven e Ricardo Wagner, economistas como Bastiat, publicistas como Proudhon, historiadores como L. Blanc, philosophos da grandesa e originalidade de Quinet e Michelet, cujos ideaes de justiça e d'amor nos conquistaram e nos acompanharão até á morte: comprehende-se que em nome d'elles não ponhamos hoje a nossa fé e a nossa esperança sobre a regeneração do Mundo nas gerações actuaes, incredulas, scepticas, e devoradas pela febre do ouro e do goso!
N'este actual periodo historico, que é todo de negação, sem ideaes definidos, e cheio de convenções, de hypocrisias e mentiras, cujo estado pathologico foi magistralmente descripto por Max Nordau no seu livro celebre Les Mensonges conventionelles de notre civilisation, é natural que não encontrem echo estes nossos C , nascidos d'uma grande fe no futuro da Humanidade! São quasi todos uns modestos preludios, uns gorgeios ainda incertos, d'uma nova alvorada, e por isso os consagramos ás gerações que hão de ter a ventura de ver em plena claridade o dia de que apenas distinguimos os primeiros pronuncios nos horisontes do futuro e da patria.