Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 6 de 46

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Cantos Sagrados

V Consciencia

Não vale qualquer sonho,

Que trago dentro em mim!...

 

Isto é um fraco esboço

D'uma outra vida e crê,

Que sinto-a, mas não posso

Dizer-te onde ella é!...

 

Se a Vida em nós começa,

Por esses sóes d'além,

Sobre a nossa cabeça.

Trabalha-se tambem!...

 

Mulher! mulher! quem sabe

Se é isto o que m'attrae

Aos céos, pois, tanto cabe

A Deus, que é justo e pae...

 

Lisboa, 1870.

 

V

 

CONSCIENCIA

 

Para um homem que aspira

Ao ideal da Belleza,

Não ha maior tristeza,

Magua maior não ha,

Que vêr escurecer-se-lhe

O ceu da noite escura

D'alguma ideia impura,

D'alguma paixão má!

 

Paixão que muitas vezes

A luz da nossa Ideia

Accende, inflama, atêa,

E depois nos attrae

Com tanto magnetismo,

Com tal encantamento,

Que o homem n'um momento

Vacilla, cega e cae!...

 

Cae, sim, do seio esplendido

Do mundo onde vivia

Na mais doce harmonia

Em paz co'os dias seus,

Para apagada a febre

Do seu fugaz delirio,

Achar-se co'o martyrio

De te perder oh! Deus!

 

Sem Ti, meu pae, que assombro!

Que noite tão completa!

Que acerba dôr me inquieta

Meu fragil coração!...

Voltar a vêr a alma

D'esperanças povoada,

E achal'a transformada

Em lugubre soidão!

Senhor! se desabassem

Á tua vóz as bellas

E limpidas estrellas

Dos ceus que não teem fim,

Eu creio que assombrado

Do horrendo cataclysmo,

O Sol, d'além do abysmo,

Seria egual a mim!

 

Eu lembraria a aguia,

Que a prole ainda implume

Deixando sobre o cume

De monte erguido ao ceu,

A fosse achar de subito

Na rocha alcantilada,

No ninho, fulminada

D'um raio que desceu!

 

Egual seria o quadro

Da minha consciencia,

Ao ver a tua ausencia

Fazer-se em mim, Senhor!

Que em volta do teu astro

Minha alma de poeta

É pallido planeta

Buscando o teu amor!

 

E eu sem ti nem vivo!...

Tu és, oh, doce esperança,

O seio onde descança

Meu ser e afinal

Não sei até dizer-te

O quanto soffreria,

Se vira extincto um dia

Em mim, teu Ideal!

 

Oh não mil vezes antes

Em carcere ermo e escuro,

Achar-me de futuro

A sós c'a minha dôr;

Extincta a luz dos olhos,

E as bellezas do mundo,

E o ceu azul profundo

Com todo o seu fulgor!

 

Tu crê que nem demandam

Os mundos inferiores

Fócos de luz maiores,

Por esse infindo azul,

Como eu o eterno centro

Das leis da natureza,

Do Amor, e da Belleza,

Que são meu norte e sul!

 

Oh Pae! se n'algum dia,

Eu vir, n'uma miragem,

Alguma falsa imagem

Do Bem prender-me aqui:

Desvenda a tua face,

E mostra-me o teu seio,

Que, mesmo embora em meio

Do abysmo, irei a ti!

Irei, tão instinctivo,

Tão amoroso e firme,

Eu sinto a attrair-me

A ti o teu poder,

Que eu vejo em ti o Norte,

Para onde se encaminha

A pura essencia minha,

Que sente, pensa e quer!

 

Irei vencendo, indomito,

Innumeros attrictos,

E escolhos infinitos,

E infindos escarceus,

Como essa vaga enorme

Do mar que não recua,

Seguindo sempre a lua

Que vê passar nos ceus!

 

Irei bem como a Terra

Seguindo eternamente

O rumo do oriente

A demandar a luz;

Bem como Jesus Christo

O rumo solitario

Da senda do calvario

Á busca d'uma cruz!

 

Irei cá d'este mundo

Onde tu me cedeste

A dadiva celeste

Da Rasão e do Amor: