Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 39 de 46

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Cantos Sagrados

Ao Homem--Á Mulher

N'esta e na dos Carvalhaes, que fica n'um dos extremos da poetica Bairrada, e não longe do sagrado e querido Bussaco, e a que nos referiremos na poesia Á Terra, foi onde se passou o periodo da nossa maior actividade litteraria.

O nosso remanso n'aquella quinta tranquilla e poetica, e a convivencia com senhoras da mais selecta sociedade de Lisboa, que alli iam passar parte do anno, muito concorreram para alguma das nossas mais vibrateis e sentidas composições poeticas.

Esta é uma das que nos sahiram mais espontaneas e que melhor traduzem as emoções da nossa alma perante o grande espectaculo do mundo, alumiado pelo Sol e vivificado pelo Amor!

 

AO HOMEM--Á MULHER

Paginas 57 a 65

O pensamento que inspirou estas duas poesias é como que uma synthese da philosophia moderna, a base indestructivel d'uma nova Moral, a pedra angular sobre que deverá levantar se o templo da futura religião da Humanidade.

É o Homem, da grande altura a que chegou a civilisação, á intensa luz de factos demonstraveis e irreductiveis, e depois de longos seculos de desalento e decrepitude, a readquirir a confiança em si, nas leis da Vida, nas forças da Natureza, de que se vae apossando a pouco e pouco, na sua missão no mundo, na integração dos seus destinos no Universo.

É o reprobo da Religião semita, o expulso do Paraiso por decreto de Jehovah, convertido no filho dilecto da Natureza e de Deus, no prescrutador dos seus segredos e dos seus processos, e que hoje, senhor do plano geral da creação, armado de recursos infinitos, esclarecido com os fachos inapagaveis das sciencias e das artes, dispondo de thesouros infinitos: assenta definitiva e resolutamente os seus arraiaes no planeta que lhe foi dado para theatro da sua ideia, no paraiso dos seus primitivos sonhos, no pantheon de sua gloria, no templo da sua nova fé.

É pois o homem que se levanta, do pó da terra, da cinza do seu nada que lhe fôra imposto como labaro da vida, para se constituir no augusto executor da obra divina, n'um dos cooperadores conscientes dos Problemas do Universo.

É o batalhador incansavel, o Hercules da Civilisação que, depois de ter expurgado a Terra dos seus elementos maus para d'ella tomar posse, pretende agora, com os fachos da Razão e do Amor, expulsar do seu espirito os espectros das religiões revelladas, as lendas da sua meninice, e tornar-se o sabio, o forte, o luctador por excellencia.

Depois de ter conquistado o mundo pela Força e pela Razão, pretende agora redemil'o pelo Amor e pela Justiça.

Para esta missão incruenta depõe aos pés da mulher não só o seu destino, como por instincto o fizera até hoje, mas o da propria especie, porque foi d'ella que Deus confiou a renovação da Vida pelo Amor e a incumbiu de nos dulcificar a existencia com os actractivos proprios do seu sexo e os encantos que derivam da sua belleza e da sua graça.

A piedade que de ha seculos trabalha o coração humano, e que d'elle irrompe como um arroio crystalino, vindo ora da India com as doutrinas de Boudha, o christo do Oriente, ora da Palestina com os sonhos de Isaias, e os evangelhos de Jesus; agora da Grecia com o espiritualismo de Platão e de Socrates; logo apoz de Roma com as maximas e exemplos de Marco Aurelio; mais tarde sob o Ideal de Christo, da França com o rei S. Luiz e S. Francisco de Salles; da Hespanha, com Santa Thereza; de Portugal, com Frei Bartholomeu dos Martyres e tantos outros: tornou-se por fim a corrente caudal do Direito Moderno que já em 1789 nos sorria sob o lemma da Liberdade, Egualdade e Fraternidade, e que, pela solidaridade das raças e dos Povos, e pela sua mutua e indistructivel dependencia, será a chave da todo o Problema Humano, no novo cyclo para onde as leis historicas nos encaminham.

Como se vê a Religião e a Moral mudam apenas do objectivo e de processo.

O Ideal, isto é o Bem Supremo, desloca-se das bandas do Passado para os horisontes do Futuro, e deixa dormir sepulto nas sombras o que já foi, e sob a condemnação d'um decreto divino, para nos apparecer, como a columna de fogo aos olhos dos Hebreus, á frente dos individuos, das nações e dos povos e encaminhal'os á Terra da Promissão!

Por este novo objectivo a historia da civilisação, d'harmonia com as leis do Universo, seguirá n'uma marcha não regressiva para o Passado, como o pretendiam as religiões revelladas, mas progressiva em demanda do Ideal sonhado, Ideal que muito ao longe nos fascina como um foco de luz intensa e impenetravel, que nos cega, e além da qual só ha o Absoluto--Deus.--

O homem por este novo credo deixa de ser o degredado filho d'Eva para se constituir no artifice divino, no triumphador por excellencia! Converte a propria historia, escripta com sangue e com lagrimas, na Biblia unica authentica e verdadeira; no melhor estimulo da sua fé; na melhor glorificação do seu Deus.

Para que o par humano se não estonteie, porém, com a propria gloria, e não se proclame egual ou superior a Deus, como nos tempos do paganismo: collocamos sobre a sua cabeça uma Entidade que a elle em tudo o sobreleva, que, intangivel aos seus desvarios e erros, por elle vela e sobre elle estende a todo instante a sua acção protectora, a Virgem mãe dos povos--a Humanidade!

Não é ella nascida da phantasia dos homens, mas surge real e verdadeira, em plena luz e cheia de gloria, das emmaranhadas e mysteriosas paginas da Historia! A seus pés depomos, desprendendo-os das cordas da nossa lyra, os primeiros trenos d'amor como um timido e passageiro ensaio, na poesia que lhe consagramos de pag. 74 a 77.