Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 9 de 46

Páginas do PDF

Cantos Sagrados

VIII Avé Creator!

VIII

 

AVÉ CREATOR!

 

Desprende pelo espaço as azas d'ouro,

Águia de Deus, no mundo extraviada!...

Pela patria celeste, a tua amada,

Vae em busca de Deus,

Cantando um hymno em honra do seu nome,

Que meu querer e instincto insaciavel

Te guiarão, qual bussola admiravel,

Pelos infindos ceus!

 

Senhor! venho invocar teu nome augusto,

Em face d'estes vastos horisontes!...

Que em torno a mim o rio, a arvore, os montes,

Fallando-me de Ti,

Lançam-me n'alma um teu olhar divino,

E, com elle, um occeano de luz pura,

Que me trasborda em ondas de ventura

O que eu t'offereço aqui!

 

Não sob o tecto do sombrio templo,

Que a fé christã do povo erguera outr'ora

Como um tumulo, onde o homem commemora

A tua morte, oh Pae!...

Mas sob o tecto azul do Templo Eterno,

Perante o sol que passa dando a vida

Em teu nome, que esta oração sentida

Buscar teu throno vae!

Pois é--me triste a mim que as cousas brutas,

Ellas, sem alma, em gratidão me vençam:

E a Terra, emquanto o Sol lhe envia a bençam

Da sua eterna luz,

Converte-a em flôres, canticos e fructos,

E, n'um concerto alegre e harmonioso,

Tributa ao Sol um culto tão piedoso,

Que o peito meu seduz!

 

Tu vel'a, quando o Sol lhe affasta os raios

Do seu formoso olhar durante o inverno,

A amante debulhar-se em pranto eterno,

Das gallas se despir;

Em valle e monte as folhas, com tristeza,

Dos troncos com os ventos desprendendo-se,

E o mar, co'os ceus em lucta contorcendo-se,

Raivoso aos ceus bramir!...

 

Mas quando o Sol de novo a aquece e anima:

Oh que effluvios d'amôr então contemplo!...

Traz o amante a alleluia ao escuro templo,

E as trevas dão fulgôr;

Espalma a folha o ramo resequido,

E, ao som do mar que canta de mansinho,

Da terra brota a flôr, da haste o ninho,

Do ninho surge o amor!

 

Seja assim o meu peito! Que a minha alma,

Buscando o foco eterno e resplendente

Do Sol dos soes, o Ser Omnipotente:

Me eleve o coração