Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 23 de 46

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Cantos Sagrados

XXII Refugio Ultimo!

Da Bellesa e do Amor, que me envolve e me attrae:

Dá-me as azas Senhor, com que vá ter comtigo!...

 

Lisboa, 1869.

 

XXII

 

REFUGIO ULTIMO!

 

Deixa, Senhor, do mundo em que eu habito

A ti meu ser se evol'!...

Tem jus aos ceus quem mede esse infinito

Que vae de sol a sol!...

 

Sonhei na terra, amando-a muito e muito,

Novo Deus, nova lei;

Mas foi, pura illusão, baldado intuito,

Comtigo só me achei!...

 

Suppuz em vez do gellido egoismo,

Da guerra surda e atroz

D'interesses, em perpetuo antagonismo,

Que envolve a todos nós:

 

Homens, povos, nações, por varios modos

Unidos, dando as mãos:

Todos por um, valendo um só por todos,

Vivendo como irmãos!...

 

É fé que sigo, é crença que mantenho:

Que em mysterioso nó

Unis-te os homens, com supremo engenho,

Formando uma alma só;

 

Em serviço da qual cada individuo,

Com multiplo labor,

Trabalha por lhe dar, no esforço assiduo,

O maximo esplendor!...

 

Quão mais estreito o vinculo fôr dado,

Mais luz hade irromper

Do nosso coração, do amor gerado

No ventre da mulher!...

 

Tal o sonho que em dias mais felizes

Ao mundo consagrei!...

Como hade aqui lançar fundas raizes:

A ti contente irei!...

 

Se um raio de calôr ou luz, prestantes,

A terra a si prendeu:

É vel'os como, em rapidos instantes,

Se evolam para o céu;

E como, n'um sentido em tudo opposto,

A pedra na amplidão,

Quanto mais alto attinge, com mais gosto

Gravita para o chão!...

 

E eu não gravito: eu subo na vertigem

D'um céllico condor

A demandar em ti, na propria origem,

Belleza, luz e amor!

 

Permitte, pois, do mundo em que eu habito

Meu ser a ti se evol':

Tem jus aos ceus quem mede esse infinito

Que vae de sol a sol!

 

Novembro de 1868.