Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 19 de 46

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Cantos Sagrados

XVIII Á Humanidade

O filho entrou na Luz que é transitoria,

O pae na eterna Luz!...

 

Á farta os vermes seu cadaver róam

Na campa onde se esvae!

Sua alma triumphante e os soes entoam

Hossana a Deus que é Pae!

 

Abril de 1898.

 

XVIII

 

Á HUMANIDADE

 

Estrellas que rolaes no espaço ethereo

N'um vertice de luz vertiginoso,

E em numero sem conta e sem repouso,

De Deus cumpris altissimo mysterio!

E vós flôres gentis, purpureas rosas,

Roxas violetas, candidas boninas,

Que abris, tomando formas peregrinas,

Á luz do Sol as petalas mimosas:

Commigo erguendo a vóz

Ao throno da Verdade,

Saudae a Humanidade,

Que é mãe de todos nós!

Materno amor, que tanto admiro e acato,

Perenne luz vital do Ser Supremo,

Ante cujo esplendor confuso eu tremo,

Se sondo o teu Santissimo mandato!

Ou sejas tu mulher juncto do berço

Com terno olhar velando o teu filhinho;

Ou tu maviosa rola no teu ninho;

Bemditas no concerto do Universo:

Por tão divinos bens,

No intimo do peito,

Votae sentido preito

Ao symbolo das mães!

 

Mulheres que prestaes culto a Maria,

Á virgem Mãe de Deus, cheia de graça,

Doçura, vida e esperança onde se enlaça

O vosso coração de noite e dia!

E vós ingenuas multidões que hei visto

Com ar tristonho, humilde e miserando,

Nos templos de mãos postas adorando

Por vossa padroeira a Mãe de Christo:

A Virgem que adoraes,

Tornou-se a precursora

Da mãe que surge agora

Aos olhos dos mortaes!

 

A mãe que em vez dos tristes filhos d'Eva,

Levanta aos ceus os filhos redemidos!

Em cantigos transforma os seus gemidos!

No Bem o mal, na doce luz a treva!

A mãe que os filhos todos encaminha

Ao Summo Bem, que traz no peito occulto;

Erguei-lhe pois altar, prestae-lhe culto;

Tem jus a que brandeis==Salvé Rainha==

«Bemdito sê nos ceus!»

«Bemdito sê na Terra!»

«Sacrario onde se encerra»

«O Espirito de Deus!»

 

Oh povos que viveis sob a vigilia

Do olhar supremo em toda a redondeza,

Formando pelas leis da natureza

E os vinculos moraes, uma familia:

Sabei que cada qual, tendo-a comsigo,

Trará como um clarão na consciencia,

Um rutilo fanal, a Providencia

Que o pode redimir na hora do perigo!

Interpretes de Lei

Divina, e para exemplo,

Em honra d'ella um templo

Na alma humana erguei!

 

Estrellas, flôres, mães, sabios e crentes,

Vós todos que formaes a eterna cahorte

Dos bons, dos que perante a vida e a morte,

De Deus esparsem raios resplendentes:

Por preito á obra santa e redemptora,

Que põe a Terra e os ceus em harmonia,