Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 7 de 46

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Cantos Sagrados

VI Revellação

Raios vitaes que mudam

Em luz a nossa essencia,

E a luz em Consciencia,

E esta em ti, Senhor!

 

Lisboa, 1869.

 

VI

 

REVELLAÇÃO

 

O LAGO

 

Scismava um dia na cruel sentença

Com que a Egreja fulmina a raça humana,

Deixando impura a fonte d'onde emana

O sangue que me anima, e a alma que pensa:

 

E ao passarem no ceu do meu destino

As nuvens da tristeza e da saudade,

Revellou-me o Senhor alta verdade,

Junto ás margens d'um lago crystalino!

 

Isto foi pelo mez do abrir das flôres,

Quando a vida celebra os seus noivados,

E o mundo, sob os verdes cortinados,

Parece um doce thalamo d'amores!

Estava um dia esplendido! a animal-o

Eu via o seio azul do ceu mais lindo

Curvar-se sobre mim, ethereo, infindo

E tepido: era um gosto enamoral-o!

 

Como fecho da abobada infinita,

O Sol nos ceus, riquissimo objecto,

Com barras d'ouro irradiava o tecto

Do vasto pavilhão que o mundo habita!

 

Côres variadas, fórmas differentes,

N'um conjuncto de graças sem egual,

Debuxavam-se ali ao natural

Sobre o crystal das ondas transparentes!

 

Alvas manchas d'insectos pequeninos,

Envolvendo-se em giros caprichosos,

Como tríbus de povos venturosos,

Fruiam junto ao lago os seus destinos!

 

Pelas balsas cantava a toutinegra,

E as rolas modulavam doces côros,

No ar passavam fremitos sonoros

Co'as vibrações da Luz que o mundo alegra!

 

No lago, a planta, a flôr, o ceu, a terra,

Como notas d'uma unica harmonia,

Revellaram-me á plena luz do dia,

Enlevos que o prazer da vida encerra!...

 

E eu via tudo, e extatico scismava:

Se por ventura a colera divina,

Segundo a Egreja ao mundo inteiro o ensina,

Do gremio dos felizes me affastava!...

 

E não podendo crer, embora obscuro

Vêr-me qual sou, que esta alma de poeta,

De tanto sonho explendido replecta,

Atollada estivesse em lôdo impuro...

 

Ai! quando a Deus pergunto se prendeu

N'um pó que é vil o espirito divino,

Olho o espelho do lago crystalino

E não encontro o lago: encontro o ceu!

 

O mesmo que era em cima azul, immenso,

E a lampada brilhante que o alumia,

Lá no fundo do abysmo aos pés os via,

De sorte que em dois ceus era suspenso!

 

E quanto se ostentava em torno ao lago,

Os muros de verdura, a flôr mimosa,

O deslisar da nuvem vaporosa,

E a voltear do insecto incerto e vago:

Outro tanto animava, ao longe, e ao perto,

Aquella região d'azul vestida,

Onde a minha alma, em extasi embebida,

Contemplava na Terra um ceu aberto!

 

E emquanto extasiado a sós fitava,

Nas bellezas do lago transparente,

Aqui uma flôr, além, para o poente,

A nuvemsinha branca que passava,...

 

Eis senão quando, uma ave, porque visse

Insectos junto da agua socegada,

Desceu subtil, aerea e delicada,

E ao perpassar roçou-lhe a superficie,...

 

O ponto ferido, em ondas borbulhando,

Desabrochou em curvas graciosas,

Como as folhas concentricas das rosas,

Ou lusidias cobras imitando!

 

E emquanto o impulso em torno se propaga

Em circulos risonhos: n'um momento,

Toda a cupula azul do firmamento

Oscilla, treme e cae, e o Sol se apaga,

 

E a arvore, e a flôr, e quanto junto á margem,

Em doce paz, seu rosto reflectia

No crystalino espelho, por magia

Da lei do amor, a doce lei da imagem!...

 

Fere-me então bem intima tristeza,

Ao vêr aos pés, em sordido tumulto,

Um lymbo verde e escuro onde occulto

Estava um ceu tão rico de belleza!...

 

Lembrei-me então da minha vida insana,

De quanto sonho lindo anda desfeito

Nos intimos arcanos do meu peito,

Co'o tropel das paixões da vida humana!...

 

E as lagrimas cahiram-me uma a uma

Sobre esses bens que a Terra e os ceus inspiram,

E ao contacto das coisas se extinguiram

Como aereos balões feitos d'espuma!

 

N'isto o Senhor, que tudo vê e ampara,

Converte-me de novo o charco immundo

N'um ceu azul infindo, e n'elle um mundo

Formoso como os bens que imaginara!...

 

Scismei então por longo espaço e digo,

Que aos olhos meus por Deus fôra patente:

Que a alma humana póde, ingenua e crente,

Vivendo em paz, um ceu trazer comsigo!