Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 40 de 46

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Cantos Sagrados

Á Humanidade

Poderão os defensores das religiões positivas, feridos nos seus interesses, alcunhar-nos de hereges e cobrir-nos de injurias; mas o que jámais conseguirão é provar-nos que o homem, que tirar dos seus proprios triumphos a glorificação do seu Deus, não se engrandeça a si e ao Creador, e não se torne por isso digno do espectaculo da natureza, onde surgiu como um dos cooperadores conscientes dos problemas da vida!

A despeito das malidicencias d'uns, das ironias e satyras doutros, temos fé que estes C hão de encontrar sympathia e acolhimento nas almas simples e boas, a quem os consagramos, e é quanto nos basta.

 

Á HUMANIDADE

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Este C é como que uma antiphona, embora ainda indecisa e

pallida, em louvor d'aquella Divindade invisivel que, ao cabo d'infindos seculos, e a despeito dos antogonismos e odios que as religiões e a politica semeavam, soube conduzir os Povos, por mil meandos e caminhos oppostos, á conciliação e a Paz universal, que já hoje se desenha como o ideal do seu futuro viver!

Esta solidariedade em que todos elles se encontram perante a solução d'um Problema commum, é uma das Verdades fundamentaes que já desceram das regiões da utopia e dos sonhos para o imperio dos factos.

O prestigio da sua causa e a rapidez dos seus triumphos são taes que tem feito em meia duzia de lustros o que todas as religiões do Passado não conseguiram n'uma serie interminavel de seculos!

A sua acção avassaladora attinge as culminancias dos mais altos poderes constituidos! Até incita o proprio auctocrata de todas as Russias a propor ás mais nações do mundo o desarmamento geral, ou pelo menos a reducção d'essas forças terriveis, a proporções que não contrariem os interesses dos Povos, a causa do Direito, e os principios do Justo!...

Pode até dizer-se que os mais celebres capitães, Alexandre, Julio Cesar e Napoleão, sem o pensarem e sem o quererem, se tornaram

os mais poderosos semeadores d'este Ideal da Justiça Moderna! [1]

Até ás proprias forças da Natureza, no uso que o homem d'ellas está fazendo abrindo canaes, levantando pontes, estendendo em todas as direcções dos quatro pontos cardeaes do globo uma rede infinita de telegraphos e d'estradas, até ellas estão conspirando para o triumpho do novo direito!...

A sua acção omnipotente, embora indirecta, accusa-se todos os dias na vida intestina dos povos, nos seus interesses os mais materiaes; na organisação das poderosas companhias transantlanticas, a vapor; na celebração dos tratados de commercio entre todos os povos do globo; na publicação de revistas scientificas; na realisação de conferencias e de exposições internacionaes, onde em tudo prodomina o espirito cosmopolita e universal dos tempos modernos!

É um levantamento das almas a que é preciso levar um Ideal espiritualista, um objectivo religioso, um culto emfim para que se apposse das multidões e se converta nos preceitos d'uma moral pratica, no Labaro d'uma religião universal.

Por elle um povo illustre derramou já o mais generoso do seu sangue afim de conquistar para o mundo dos factos, com o proprio sacrificio, a formula juridica d'este novo Direito; e, a despeito da guerra desapiedada dos representantes do velho regimen, a sua doutrina penetrou em breve no espirito de todos os codigos!