Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 26 de 46

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Cantos Sagrados

III ao Sol!

Como ante o sacramento!

Os simplices christãos!...

 

D'esta alma és o esteio!

Que a tua essencia pura

Ampare-me no meio

Da minha desventura!...

 

E quando a morte um dia

Roubar aos olhos meus,

A esplendida harmonia

Que formam Terra e ceus:

 

Seguindo prasenteiro

A lei que me conduz,

Meu grito derradeiro

Será por ti oh Luz!

 

III

 

AO SOL!

 

Oh maravilha esplendida engastada

Na fronte augusta do azul profundo,

Qual lamina brilhante onde gravada

Se visse a face de quem fez o mundo,

Eu te saudo oh Sol? qual religioso

O Indio quando viu a vez primeira

Surgir do mar teu facho luminoso

E alegrar com a luz a terra inteira!

 

Ah! quiz cantar o braço omnipotente

Que por nós trabalhava a cada instante:

E a terra, o mar, e quanto vive e sente,

Apontou para Ti, astro brilhante!

 

Possam teus raios que nos ceus se expandem

Ricos da gloria e cheios d'alegria,

Fazer com que do peito meu debandem

As sombras da tristeza que trazia,

 

E ouve-me um canto alegre como o côro

Das aves quando, envolto em magestade,

Tu transpões do oriente as portas d'ouro

E abençoas dos ceus a Humanidade!

 

Oh astro, coração tres vezes santo,

De cujo seio foi por Deus emmerso

O movimento e a vida e tudo quanto

Forma hoje a harmonia do Universo!

 

Ouvi louvar-te, num concerto vario,

Montanhas, mares, flôres e arvoredos,

Que do meu peito, como d'um sacrario,

Confiaram seus intimos segredos!

 

Louvam-te as aves; louvam-te as creanças,

E os velhos que não teem fogo nos lares,

Buscando a doce luz que tu lhes lanças,

Como a imagem de Deus junto aos altares!

 

Louva-te, oh Sol! a terra a quem quizeste

Por tua esposa, na epocha sombria,

Em que de crepe a abbobada se veste,

Lacrimosa chorando noite e dia;

 

E os jubilios e os mil festões de gala

Com que cingio de noiva delirante

A casta fronte, quando a enamoral-a

Sentiu de novo o teu olhar brilhante!

 

Oh Sol! oh Sol! a minha lingua é pobre

Para cantar-te em verso o quanto vales

Perante as maravilhas que descobre

A vista humana por montanha e vales!...

 

Desde o negro carvão que o fogo atêa

Ao cédro altivo que no mundo avulta;

Desde o meu sangue á luz da minha idêa:

Por tudo existe a tua essencia occulta!...

Hostia de luz esplendida, patente

Perante os povos em perpetua missa!

Tu, que és de Deus o espelho resplendente,

Throno de gloria e séde de Justiça:

 

Se apagares nos ceus teu facho enorme,

Suspensa a vida no labor interno,

Tu verás como a terra logo dorme

Entre as sombras da noite um somno eterno!...

 

Seja pois o meu canto um desafogo

Da nossa gratidão, astro, jocundo!

Coração formosissimo de fogo

Que em nome do Senhor dás vida ao mundo!

 

E prosegue no carro flammejante

A derramar teus bens por mundos novos,

Que emquanto vês na marcha triumphante

Infindas tribus d'animaes e povos:

 

Eu, deslumbrado ainda com os vestigios

Da tua luz, de tantas coisas bellas,

Louvarei o author de taes prodigios

Sob esse manto esplendido d'estrellas!

 

Lisboa, 1872.