Cantos Sagrados
III ao Sol!
Como ante o sacramento!
Os simplices christãos!...
D'esta alma és o esteio!
Que a tua essencia pura
Ampare-me no meio
Da minha desventura!...
E quando a morte um dia
Roubar aos olhos meus,
A esplendida harmonia
Que formam Terra e ceus:
Seguindo prasenteiro
A lei que me conduz,
Meu grito derradeiro
Será por ti oh Luz!
III
AO SOL!
Oh maravilha esplendida engastada
Na fronte augusta do azul profundo,
Qual lamina brilhante onde gravada
Se visse a face de quem fez o mundo,
Eu te saudo oh Sol? qual religioso
O Indio quando viu a vez primeira
Surgir do mar teu facho luminoso
E alegrar com a luz a terra inteira!
Ah! quiz cantar o braço omnipotente
Que por nós trabalhava a cada instante:
E a terra, o mar, e quanto vive e sente,
Apontou para Ti, astro brilhante!
Possam teus raios que nos ceus se expandem
Ricos da gloria e cheios d'alegria,
Fazer com que do peito meu debandem
As sombras da tristeza que trazia,
E ouve-me um canto alegre como o côro
Das aves quando, envolto em magestade,
Tu transpões do oriente as portas d'ouro
E abençoas dos ceus a Humanidade!
Oh astro, coração tres vezes santo,
De cujo seio foi por Deus emmerso
O movimento e a vida e tudo quanto
Forma hoje a harmonia do Universo!
Ouvi louvar-te, num concerto vario,
Montanhas, mares, flôres e arvoredos,
Que do meu peito, como d'um sacrario,
Confiaram seus intimos segredos!
Louvam-te as aves; louvam-te as creanças,
E os velhos que não teem fogo nos lares,
Buscando a doce luz que tu lhes lanças,
Como a imagem de Deus junto aos altares!
Louva-te, oh Sol! a terra a quem quizeste
Por tua esposa, na epocha sombria,
Em que de crepe a abbobada se veste,
Lacrimosa chorando noite e dia;
E os jubilios e os mil festões de gala
Com que cingio de noiva delirante
A casta fronte, quando a enamoral-a
Sentiu de novo o teu olhar brilhante!
Oh Sol! oh Sol! a minha lingua é pobre
Para cantar-te em verso o quanto vales
Perante as maravilhas que descobre
A vista humana por montanha e vales!...
Desde o negro carvão que o fogo atêa
Ao cédro altivo que no mundo avulta;
Desde o meu sangue á luz da minha idêa:
Por tudo existe a tua essencia occulta!...
Hostia de luz esplendida, patente
Perante os povos em perpetua missa!
Tu, que és de Deus o espelho resplendente,
Throno de gloria e séde de Justiça:
Se apagares nos ceus teu facho enorme,
Suspensa a vida no labor interno,
Tu verás como a terra logo dorme
Entre as sombras da noite um somno eterno!...
Seja pois o meu canto um desafogo
Da nossa gratidão, astro, jocundo!
Coração formosissimo de fogo
Que em nome do Senhor dás vida ao mundo!
E prosegue no carro flammejante
A derramar teus bens por mundos novos,
Que emquanto vês na marcha triumphante
Infindas tribus d'animaes e povos:
Eu, deslumbrado ainda com os vestigios
Da tua luz, de tantas coisas bellas,
Louvarei o author de taes prodigios
Sob esse manto esplendido d'estrellas!
Lisboa, 1872.