Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 31 de 46

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Cantos Sagrados

VIII Á Terra

Se eu fora como tu viver piedoso,

E a qualquer desgraçado e pobre amigo

Offerecer no meu seio o mesmo abrigo,

Que estende sobre o ninho o ramo umbroso;

 

Se eu conseguisse, emfim, levar meu dias,

Perante o mal que sempre me acompanha,

Como a arvore sonora da montanha,

Que descanta ao soprar das ventanias:

 

Só assim chegaria um dia a ser

O espirito sereno, sabio e justo,

A que deve aspirar, a todo o custo,

O Senhor da Rasão, que pensa e quer!

 

Bussaco, 1869.

 

VIII

 

Á TERRA

 

Oh Terra, Virgem mãe da Humanidade,

Pelos fructos que dás eu te bemdigo!

Cheia de graça e cheia de bondade,

O espirito de Deus seja comtigo!

Tu que és do Sol a esposa immaculada,

Que entre perfumes, canticos e flôres,

Passas no azul dos ceus, virgem coroada

Com o candido mimbo dos amores:

 

Como escuta piedosa a mãe seu filho,

E d'elle acceita o mais pequeno objecto,

Ouve a harpa d'esta alma onde dedilho

Por ti um canto d'entranhado affecto!

 

Um canto aonde a propria naturesa,

Em cujo seio o astro meu se inspira,

Reflecte o seu conjuncto de belleza,

Unindo a eterna vóz á vóz da lyra!

 

O mar que te circunda a fronte bella,

Que espelha ao longe a luz que o Sol t'envia;

Te muda a negra crosta em linda estrella,

E dá-te um canto cheio de harmonia;

 

E o subtil pingo d'agua onde escondes-te

D'inquietos vibriões um mar profundo,

Tão vasto como a abbobada celeste,

Contendo a tantos como os soes do mundo;

 

A arvore a prumo erguida ao firmamento,

Posta por Deus na paz a mais completa,

Quando, ao passar-lhe o espirito do vento,

Descanta como a harpa d'um propheta:

 

E a semente da flôr, qual grão d'areia,

Que, inerte, fria, escura e pequenina,

Contém as pompas da divina ideia:

O lyrio branco ou a rosa purpurina;

 

O leão, implacavel creatura,

Quando a victima arrasta inda arquejante

Tinto de sangue, offerta-a com ternura

Á leôa parida, sua amante:

 

E a indefeza timida ovelhinha,

Entre as flôres gentis do verde prado.

Meiga balando á mãe que se avesinha,

Por dar-lhe o leite doce e perfumado;

 

A aguia quando solta a envergadura

Das largas azas pelo azul do espaço,

E, em marcha triumphal, a enorme altura

Passa nos céus sem lucta, e sem cançaço;

 

E a crysalida que abre á luz do dia

Do involucro o sedifero thesouro,

E, nos enlevos d'intima alegria,

Expande á luz do Sol as azas d'ouro:

Quanto, emfim, é teu filho a mim me pede,

Que em nome d'elles eu te louve e cante,

Suppondo achar n'esta alma o centro, a séde,

O altar, de quanto o Sol lhe põe diante!...

 

Oh minha mãe! a magua me entristece

De que Deus, cujas dadivas divide

Por tanta gente, a mim me não cedesse

Para cantar-te a harpa de David!...

 

Dos proprios paes e estranhos mal tratado,

Fui pôr-me á tua sombra hospitaleira,

E em teu seio de mãe abençoado

Achei d'esta alma a patria verdadeira!

 

Não sei como surgio o homem na terra!...

Não sei onde os meus sonhos se dirigem...;

Mas quanto bello e bom minha alma encerra,

Em ti encontra a perenal origem!...

 

Quer sobre os cumes dos altivos montes,

Quer á sombra dos vales verdejantes;

Quer ouça a meiga vóz das claras fontes,

Quer as furias das ondas espumantes:

 

Por onde quer que eu vá, minha alma sente

Cercal'a tão solicito cuidado,

Que quanto me concebe um dia a mente,

Encontra sempre em ti o objecto amado!...

 

Por isso, embora eu viva como o paria

Junto ás margens do Ganges crystalino,

Levando vida incerta, rude e varia,

Entre os baldões d'um impobro destino:

 

Vivo entre flôres, musicas e festas,

Tendo por luz suprema o pensamento;

Por palacios as múrmuras florestas,

E alampadas os soes no firmamento!

 

Por orchestras as musicas plangentes

Que geme ao longe o mar no captiveiro,

Com os concertos das aves innocentes,

E os murmurios do limpido ribeiro!

 

De manhã, com os crystaes do fresco orvalho,

Fulgentes scintiliando á luz do dia,

Pisam meus pés, riquissimo trabalho,

Tapetes de preciosa pedraria!

 

Á tarde, quando o sol deixa as alturas,

Qual Vinci, Miguel Angelo ou Ticiano,

Pões-me nos ceus esplendidas figuras,

Como eguaes as não tem o Vaticano!...

Á hora em que é dado o somno acoite

Em doce paz meu corpo fatigado,

Desdobras-me sobre elle o veu da noite,

De fulgidos brilhantes recamado!...

 

E quando, emfim, entrar na noite fria

Do tumulo, onde nada se condemna,

Do meu cadaver tirarás um dia

O branco lyrio e a pudica açucena!...

 

Taes os bens que offertas-te ás almas ternas,

Simples, crentes em Deus, ideal fecundo...!

E dás-lhes n'estas coisas sãs e eternas

Bem mais riquezas do que aos reis do mundo!...

 

E assim vaes entre os soes deixando o aroma

Dos ineffaveis dons da Providencia,

Como exhala riquissima redoma

Em dourado salão a fina essencia!...

 

Oh Terra, Virgem mãe da Humanidade,

Pelos fructos que dás eu te bemdigo!

Cheia de graça, e cheia de bondade,

O espirito de Deus seja comtigo!

 

Carvalhaes, 1870.