Cantos Sagrados
XXI Appello Supremo!
Ah tens a executar teus vastos planos
D'amor, e de Justiça, aurifulgentes,
Fanaticos aos mil, e mil videntes,
E innumeros heroes,
De varia estirpe: o artista, o justo, o sabio,
Buscando interpretar teu pensamento;
E encontram pelo azul do firmamento
No mesmo afan os soes!...
Que á tua vóz as gerações extinctas
Resurjam e contemplem com surpreza
Esta obra immensa, cheia de belleza,
Que em multiplo labor,
As novas gerações estão fazendo!...
Que em nome da Verdade triumphante,
Unisono na Terra se alevante
Este hymno em teu louvor!
1889.
XXI
APPELLO SUPREMO!
A minha alma immortal n'este exilio onde existe,
Abrigando no seio a ideaes tão risonhos,
E entre os homens só vendo um sarçal ermo e triste,
Onde outro'ra plantára o jardim dos seus sonhos:
Teve a sorte cruel d'uma flôr, que enganada
Pelos raios do sol, ainda inverno e entreabrio;
Mas que dias depois, co'o cahir da geada,
E o soprar do nordeste, afinal, succumbio!...
Assim foi para mim o florir dos amores,
N'essa quadra febril em que o sangue é fecundo,
Quando rompe a manhã, quando abrem as flôres,
Quando o Sol brilhante e o azul é profundo!...
Nem ha rocha no mar, pelas ondas batida;
Nem ha nuvem no ceu, pelo vento açoutada;
Nem ha rosa n'um val' pelo sol esquecida,
Que se possa dizer mais do que eu desgraçada!...
Mas se o mal nos incita, e Deus quer nos transporte
D'um estadio a outro estadio atravez muito custo,
Em demanda do Bem, que triumpha da morte:
Deves crêr do Porvir no Ideal santo e augusto!
E se foste, minha alma, a illudida afinal,
Quando crêste emplumar nesta quadra o teu ninho,...
Pede a Deus que te envie aquella hora fatal
Que abre a porta á Verdade e vae tu teu caminho!...
Oh Justiça increada! oh meu Deus! oh meu Pae!
Tu que a mim me mostras-te o teu seio, esse abrigo