Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 5 de 46

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Cantos Sagrados

IV Presentimentos

IV

 

PRESENTIMENTOS

 

Eu bem sei que devia

Causar-te muito dó,

Em noite tão sombria

Vêres-me aqui tão só!...

 

Nem sei que sol m'alegra!

A sós com a minha cruz,

Sou como a nuvem negra

Que encerra muita luz!...

 

Como arvore sombria

Vergada sobre um val,

Assim vivo hoje em dia

Á sombra do Ideal...

 

Que eu tenho muita fome

De Justiça e d'Amor,

E aqui não ha quem tome

A serio a minha dôr...

 

O mundo vê e passa,

Como sempre passou,

Sorrindo da desgraça

Dos tristes como eu sou...

 

E este sonho dourado

D'amôr, que a gente vê,

Não póde estar guardado

N'esses homens sem fé!...

 

Ah! não! já não m'illudo

Foi isso o que suppuz;

Mas vi mudar-se em tudo

Em sombra a minha luz...

 

E os sonhos que já tive

Tão bellos, afinal,

São hoje um céo que vive

Sobre este lamaçal!...

 

Um céo que vejo, ao longe,

Exposto aos olhos meus,

Co'a mágoa com que um monge

Veria outr'ora a Deus!...

 

E onde ha maior castigo,

Mais dura provação,

Que ter por inimigo

O homem nosso irmão,

Aquelle a quem nós démos,

Com toda a candidez,

Os sonhos que hoje vêmos

Desfeitos a seus pés?!...

 

Ah! suppõe-me o desgosto,

De eu vêr desparecer

A cópia do meu rosto

Aos pés d'uma mulher,

 

E isto em desacato

Do meu mais santo amor:

E ahi tens um retrato

Da minha immensa dôr,

 

Quando vejo desfeito

Por gente ingrata e má

Um sonho do meu peito,

E muitos vi eu já!...

 

Por isso eu n'esta vida,

Apoz tanta illusão,

E tanta flôr perdida,

Tanta corôa no chão...

 

Ai! sinto com o anceio,

Que é proprio do infeliz,

Um mal n'este meu seio

Lançar muita raiz!...

 

Espero vêr a morte,

Eu proprio a invoquei,

Levar-me d'esta sorte

Para onde?! É que eu não sei!...

 

Como eu não sei dizer-te,

E isto que me consol',

Como é que se converte

Em vida a luz do sol!...

 

Como nasce a ventura

Do homem que morreu,

Dormir na sepultura

Para acordar no céo!...

 

Aqui tudo é mysterio!...

Mas visto que assim é,

Onde ha melhor criterio

Que á luz da nossa fé?

 

E eu creio firmemente

Que o martyr de Jesus,

Não fica só pendente

Dos braços d'uma cruz...

Que o homem que prosegue

A luz d'um Ideal;

Embora a turba o pregue

Na sua cruz fatal...

 

O céo é bem profundo,

O fundo nem tu vês,

E ha n'elle muito mundo,

Para onde irá talvez!...

 

A vida continúa,

E a alma, emquanto a mim,

Avança e não recúa

Por esses sóes sem fim!

 

Do sol se um raio ardente

No mar vier cahir,

Em nuvem transparente

Nós vêmol-o subir!

 

Não ha suster-lhe o rumo

Que o leva para os céos,

E assim é que eu presumo

Voarmos nós a Deus!...

 

O ponto é merecel-o,

Que Deus é justo e pae,

E eu sei com que desvelo

A si os bons attrae!

 

Mas quando eu vejo a lua,

Não sei que ideia má

N'esta alma me insinua

A luz que n'ella ha!...

 

Emquanto em torno d'ella,

Ao norte, ao leste, ao sul,

Refulge tanta estrella

Pela amplidão do azul,

 

Tu vêl-a solitaria,

Em paz cruzando o céo,

Como urna funeraria

D'um mundo que morreu!.

 

Ali já não ha vida!...

Ali não ha calor!...

N'aquella luz, vertida

Em lagrimas de dôr,

 

Ha só tristeza e lucto,

E confrange-se e doe

O coração, se escuto

Mulher, porque isso foi!...

Ah, tenho medo

Que o Supremo Juiz

Nos julgue assim tão cedo!...

Não sei que voz m'o diz...

 

Não sei... mas, se contemplo

Os crimes que ahi vão,

Mulher, aquelle exemplo

Conturba o coração!...

 

E assim só n'outra parte

Verão os olhos meus

Os sonhos que reparte

Commigo a mão de Deus!...

 

O mundo onde abre o cardo

E o lyrio ao mesmo sol;

Onde ama o leopardo

A par do rouxinol;

 

Que tem de andar na sombra

Para viver na luz;

E, o que inda mais m'assombra,

Onde ha Nero e Jesus:

 

Por mais bello e risonho

Que seja, ainda assim