Cantos Sagrados

Manuel de Arriaga · Capítulo 45 de 46

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Cantos Sagrados

Á Terra

Foi ali que mais tarde succumbiu, victima d'uma tysica de larynge, aquelle formoso espirito que foi gloria das sciencias e lettras patrias, cercado dos solicitos carinhos de sua incomparavel esposa, das lagrimas silenciosas e amargas do bom padre Mauricio e das nossas.

Foi d'ali, ai de nós, noite memoravel e terrivel! que tivemos d'acompanhar sósinhos os seus restos mortaes até ao cemiterio da Conchada em Coimbra, onde pouco depois do romper da manhã, alguns dos seus collegas, admiradores e amigos, avisados do seu enterro, vieram comnosco prestar-lhe as ultimas homenagens dos vivos!...

Voltemos aos dias felizes em que Silva Gayo ainda abrigava a esperança de debellar o mal que o vinha minando, apesar de pairar ás vezes como uma sombra sinistra no seu lucido espirito, a idéa d'um desenlace fatal!! Foi então que escrevemos este C , á Arvore.

Estavamos installados na capella de Santa Thereza, a cuja entrada se levanta um d'aquelles cedros collossaes e magestosos do Bussaco, que são o privilegio e o orgulho d'esta floresta, a mais opulenta e formosa de quantas conhecemos dentro e fóra do paiz.

Foi ali, tendo em frente dos nossos olhos aquelle gigante secular dos bosques, que compozémos esta poesia onde o leitor encontrará a expressão mais genuina do nosso amor pela estabilidade das forças da Natureza, representada no que ellas teem de mais bello e nobre, a arvore.

 

Á TERRA

Paginas 132 a 139

De todos os nossos trabalhos litterarios é este o que nos mereceu maior solicitude e carinho para deixarmos por nossa morte um testemunho do muito que amámos a Natureza e dos impagaveis beneficios que d'ella em toda a nossa vida recebemos.

Sobre a sua influencia na formação dos caracteres escrevemos um poemeto denominado Passeio ao Campo e que faz parte do quarto livro das Irradiações, No Lar.

Concebemos e composémos esta poesia n'aquella aldeia obscura de Carvalhaes, a que nos referimos na nota primeira.

Quizémos propositadamente que assim fosse, porque depois dos jardins e da quinta da nossa casa do Arco, na Ilha do Fayal, onde nascemos e brincámos e das pedras vulcanicas e negras da Aldeia do Guindaste, na Ilha do Pico, onde, em plena liberdade dos campos, em convivio intimo com a Natureza, perante o espectaculo do mar e d'um sem numero de pequenos vulcões extinctos passámos os mais deleitosos dias da meninice, pedras negras que ainda hoje, pelas recordações que encerram, nos sorriem mais bellas e fulgentes que os brilhantes, nenhuma terra amámos tanto como esta aldeia poetica de Carvalhaes.

Foi alli que á sombra de pequenos bosques, de altos e extensos pinheiraes, balsamicos e sonorosos, de frescos relvados e de alamos e carvalhos frondosos, no adro da capella da Senhora das Neves, que lhe fica proxima, foi ali que lendo os nossos poetas mais dilectos, Virgilio, Camões, João de Deus e Victor Hugo, tomámos verdadeiro amor pelo rythimo e harmonia do verso, e abandonamos para os assumptos d'arte a prosa, onde fizemos os nossos primeiros ensaios, sendo ainda creança, tomando então por modelo a Byron, dos poetas da nossa meninice o mais festejado e glorioso.

Foi n'esses arredores deliciosos da Bairrada e do Bussaco onde longos annos armazenámos inconscientemente em companhia do nosso chorado condiscipulo José Augusto Salgado, no nosso mundo interior a poesia que annos mais tarde, em 1867, nos irrompeu espontanea da alma, quando as saudades de Coimbra e da nossa vida academica nos subjugaram a ponto de abandonarmos interesses já creados e estabelecermo-nos de novo na Luza Athenas!... Foi então que tomamos o grau de licenciado em Direito na esperança de fazermos parte do corpo docente da Universidade, mas d'onde tivemos de sahir, pouco depois do nosso casamento, para n'um meio mais amplo angariarmos os escassos recursos d'uma vida honesta.