Errante no campo da razão

Jozimar Paes de Almeida · Capítulo 8 de 36

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Errante no campo da razão

2. Contribuição da História da Ciência

Estes instrumentos conceituais, ou melhor esses mitos, em suma, esses valores etnocêntricos de um específico modo de vida, com suas relações sociais de produção, erigiram-se como o cume da escalada humana, tomando-se anuladores da potência libertadora e rebelde da História, que a meu ver está colocada na dimensão de se constituir em um conhecimento crítico criado pelos homens e possuidor de alternativas na construção de sua sociedade.

O conhecimento histórico permite aos homens compreenderem os seus papéis em cena e visualizarem as interpretações praticadas por outros atores em diferentes culturas e tempos históricos, possibilitando com essa percepção a atuação no nível da apresentação de alternativas e criação no processo de construção da sociedade.

 

Contribuição da História da Ciência

Nesse sentido, pode-se afirmar que a área de História da Ciência é por excelência um campo do conhecimento que contribuí para desvendar este processo, porque através dela possibilita-se entender o contexto histórico em que se postulava estarem a natureza, a História e seus mitos, como detentores de um ordenamento regrado, seguindo um encadeamento inflexível.

No seu desenvolvimento temos, por exemplo, cientistas reconhecidos nos três principais campos de conhecimento físico, natural e social: - Newton, Darwin e Marx.

Não pretendo neste estudo realizar um balanço de suas contribuições, pois objetivo considerar que atualmente o momento histórico está afetado pelo signo da indeterminação científica propalada por Einstein, Hubble, Bohr, Morin, Capra e Castoriadis.

Ao colocar-me auto - criticamente considero-me influenciado por este signo, marcando o contexto de minha época e não deixo de constatar que a História da Ciência é permeada de enganos, erros, conflitos de interpretações, na mesma proporção em que estão

sujeitos também todas as idéias novas e seus autores.10

Neste processo de reflexão, objetivo contemplar possibilidades alternativas contidas no mesmo, que viabilizem um entendimento da História e da Ecologia enquanto conhecimentos que se interagem necessariamente, e que nos permitem enquanto seres históricos decidir por quais sendas trilhar.

Enveredo-me na área da História da Ciência tentando desvendar o processo histórico pelo qual, através do trabalho, domina-se a natureza e se entende como progresso uma ampliação e efetivação desse poder sobre a selvageria natural. Concomitantemente toma-se opaco o processo das relações de exploração entre os homens. Desta folha, este processo representa apenas um caminho no relacionamento homem-homem-ambiente. Faz-se necessário tomá-lo translúcido, atuando cliticamente em relação à própria significação destes conceitos.

Marcuse afirma que:

Todas as grandes teorias do século XVIII adotaram a

concepção filosófica de que a história é progresso. Este

conceito de progresso, que na sua origem envolvia aguda

crítica condenatória a uma ordem social obsoleta, cedo

degenerou em frívola complacência para com a mesma. A

burguesia em ascensão usava o conceito de progresso como

um meio de interpretar a história passada da humanidade como

sendo a pré-história do seu próprio domínio, domínio que se

destinava a trazer o mundo à maturidade. Quando, dizia-se , a

classe média puder, atendendo aos seus interesses materiais,

modelar o mundo, uma irrupção nunca vista de forças materiais

e intelectuais fará do homem o senhor da natureza e marcará o

começo da verdadeira história da humanidade. Como tudo isto

ainda não se tinha materializado continuava a história em

posição de luta pela verdade. A idéia de progresso, que

constituía um elemento essencial do Iluminismo Francês,

interpretava os fatos históricos como sinais que indicavam o

caminho do homem em direção à razão. A verdade ainda

estava fora do terreno dos fatos ainda estava em um estado do

futuro. O progresso implicava que a situação estabelecida fosse

negada e não conservada.11

Progresso segundo o entendimento anteriormente explicitado por Marcuse, deveria ser a negação da situação estabelecida, e teve essa significação no contexto histórico da citação anterior. No entanto, quando os emissores burgueses de tal formulação se instituíram enquanto poder, houve uma grande alteração de seu significado de progresso, passando este a representar a consolidação de um poder estabelecido e o controle sobre o homem e a natureza através da razão.

Mas que razão é esta que, mata a vida e oprime o homem?

Será que a razão não é única? E possível existir uma razão hegemônica segundo os valores da cultura dominante, que a utiliza para auto-justificar e melhor estabelecer a sua dominação social?

A contestação desta razão ocorre pela irracionalidade, ou por uma razão libertária, alternativa, que pressupõe inclusive a inexistência de certezas e exatidões no m1iverso?

A permanência da inconstância estabelece um ponto de referência a ser melhor dimensionado no e pelo conhecimento, contestando uma bússola teleológica simplificada dicotomicamente que apontaria o sentido correto do desenvolvimento humano: adiantado x atrasado, superior x inferior, norte x sul.

Quais então os parâmetros da racionalidade hegemônica vigente? O quê, quem e como elege-se estes parâmetros como válidos? Eles são o centro cerebral do corpo da ciência, elementos decodificadores com os quais compreendemos e agimos no mundo.

A ciência é uma produção humana inscrita no campo da História que é em determinados momentos utilizada como instrumento de uma determinada classe, para justificar uma situação de dominação. No entanto, quando ela permite ao homem entender as estratégias de sua subjugação, fornece o conhecimento para sua libel1ação. Este é um processo dinâmico e contraditório imerso no fluxo da História.

A ciência amplia as condições de tomar-se libertadora quando é exercida na democracia e com autonomia. Estes são pressupostos fundamentais possibilitadores do surgimento de uma ciência

critica12, que supera as fronteiras disciplinares e as trincheiras de especificidades que impedem uma visão horizontal dos relacionamentos contidos na frágil teia da vida. Enfim, esta luta é a

tragédia do saber moderno 13.

O saber moderno e científico que se pretende construir a partir dos intrincados relacionamentos entre o homem e seu ambiente, está imerso nos turbilhonamentos da interdependência. Este turbilhonamento, a meu ver, é um dos princípios fundamentais da Ecologia e da História. Quanto à Ecologia pode-se entendê-la pelo processo cíclico ordenado da cadeia alimentar, integrada por elementos diversos e interdependentes em um fluxo constante e aleatório. No caso da História ocorre devido ao imperativo de pensar sobre as relações humanas como um processo dinâmico ininterrupto, que estabelece uma trama, costurada pelos fios das vidas individuais e coletivas, formando um tecido histórico social.

Para mergulhar neste emaranhado de eventos, utilizo-me de dois campos transdisciplinares de conhecimento: a História e a

Ecologia 14, procurando conceituar historicamente a questão ecológica, que irrompe à tona trazendo problemas fundamentais quanto à própria continuidade da existência de qualquer vida, bem como das condições da mesma. Essa minha abordagem coloca em

xeque a própria natureza do modo de produção vigente 15.

A fusão da História e da Ecologia, ou a História Ambiental possuí segundo Donald Worster três níveis de abordagens, embora estes constituam “uma investigação única e dinâmica, na qual natureza, organização social e econômica, pensamento e desejo são tratados como um todo.” São eles: 1º) o entendimento de como a natureza se organizou e funcionou no passado; 2º) o domínio sócio-econômico interagindo com o ambiente, através do trabalho, ferramentas e relações sociais, pelas diversas formas em que povos produziram bens de seus recursos naturais; 3º) as percepções, valores éticos, leis, mitos e outras estruturas de significação, que em nível intelectual tornam-se parte do diálogo de indivíduo ou grupo

com a natureza 16.

Para a realização da pesquisa faço uso da contribuição de pensadores que elaboraram trabalhos sobre a questão e das fontes diversas vinculadas ao espaço delimitado de análise: produção de conhecimento e justificação de empreendimento por grupos multidisciplinares que elaboram os EIAs-RIMAS: Estudos de Impacto Ambiental e Relatórios de Impacto do Meio Ambiente. Trata-se de instrumentos jurídicos exigidos por lei no Brasil para normatizar, fiscalizar, controlar e recuperar a degradação ambiental.

Seleciono estas fontes documentais na Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo, que através das audiências públicas requeridas pela sociedade civil, divulga as informações estabelecendo discussões referentes aos empreendimentos potencialmente poluidores e efetuando análise e julgamento dos EIAs-RIMAS através do seu Conselho de Meio Ambiente.

Aproveito ainda as contribuições sobre a temática produzidas pela legislação do Estado de São Paulo e do governo Federal, analisando a normatização e funcionamento de seus órgãos públicos que trabalham especificamente com o meio ambiente:

CONSEMA-SP, SEMA-SP e os órgãos federais Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA, Secretaria Especial do Meio Ambiente-SEMA.

Objetivo com essa pesquisa documental detectar os argumentos justificadores e valorativos utilizados no processo de investigação, debate e julgamento dos EIAs-RIMAS para que possa analisá-los por intermédio de uma perspectiva critica que procure contextualizá-los histórica e ecologicamente buscando apresentar suas contradições, dificuldades, questionando suas certezas e demonstrando seus elementos de indeterminação.

Quando se garimpa em um veio tão rico como este, diamantes importantes podem ser ignorados e perdidos. A bateia não tem a dimensão adequada para suportar a todos, privilegiando portanto, segundo meu juízo de valor, aqueles que mais me interessam. O fascínio de tal descoberta, pode despertar com sofreguidão a ganância. Corro, pois, o perigo de não conseguir levantar a bateia, como o de afundar afogando-me com o peso de tais preciosidades. Ah! Vida em primeiro lugar.

Obrigado a eleger e delimitar minhas prioridades de análise, pela

infinitude do processo de conhecimento17, pelo enorme manancial

de informação produzida18 19 e por uma postura política, simplifico ordenadamente e artificialmente uma complexidade desordenada.

Com esta análise objetivo problematizar e enriquecer as alternativas de escolha humana na busca de uma existência com liberdade, prazer e principalmente felicidade. Procurando também com a destruição de mitos na sociedade, alternativas para sua reconstrução.

Em suma, meu estudo situa-se no campo conceitual de teoria e epistemologia da História, tratando do desvendamento e análise de valores transmitidos pelos conceitos de progresso, desenvolvimento, racionalidade e natureza. O meu intuito é o de afirmar o inédito como um fundamento da História, por ser um componente ligado intrinsecamente as realizações humanas.

Busco, na pesquisa, articular uma estratégia de entendimento e análise critica através de um diálogo com as fontes, detectando os valores acima enunciados.

As fontes analisadas tratam da legislação e a normatização governamental sobre a questão, como também, particularmente os EIAs-RIMAs confeccionados por grupos particulares de consultoria, integrados por equipe multidisciplinar, sendo estes estudos analisados no Conselho da Secretaria do Meio Ambiente. Estes trabalhos e seu processo de análise apresentam valores considerados justificadores da realização ou não de um empreendimento - realização da produção humana no ambiente dando portanto, um sentido à sociedade.