Errante no campo da razão
5. Irrompendo Contestações
Irrompendo Contestações
A racionalidade capitalista que vê o mundo de uma folha reducionista e instrumentalizadora, elaborando segundo suas referências de valor o que seja progresso e desenvolvimento, só começa a ser fortemente contestada no mundo ocidental a partir da segunda metade do século XX.
Nos países desenvolvidos as décadas que antecedem esta guinada, durante e após a segunda guerra mundial, foram marcadas pela aplicação do princípio de desenvolvimento econômico como um
objetivo político 25. Ele consolidou-se nas décadas de 60 e 70 provocando um intenso crescimento econômico, definido nas sociedades industriais e tecnológicas, como desenvolvimento.
Naquele momento irrompeu naquele espaço uma profunda crise social, política e cultural. Os pressupostos defendidos segundo os quais com o crescimento material milhões de seres humanos passariam a ter uma melhora significativa de sua condição de vida, bem como as desigualdades entre os países seriam sanadas, demonstraram ser falsas.
O aumento do bem-estar material concentrou-se na mão de alguns
poucos privilegiados, detentores do poder político-econômico26, gerando neles profundas carências afetivas. E a miséria da riqueza. Por outro lado, multidões foram privadas de condições básicas para sobreviver, o que gerou instabilidade política e social, somente
reprimidas pelo servil aparato policial do Estado 27 e 28 .
No entanto, esta critica surtiu um efeito atenuador, freiando o veloz crescimento econômico, mas permanecendo intocado a sua matriz ideológica de cunho materialista, vista como o único centro possível
da História29.
Crescimento econômico e das desigualdades Como poder-se-ia diminuir as desigualdades pelo crescimento, se
ele próprio a representa? 30 O crescimento em potência de consumo de matéria e energia por parte de uma minoria abastada, localizada majoritariamente nos países industriais, ampliou-se consideravelmente neste século, desfrutando privilegiadamente dos recursos planetários e da humanidade em geral, em quantidade e velocidade exponenciais. Esses poucos passaram a viver como
deuses31.
Existem diversas significações dentro e entre os países do que seja pobre. Por exemplo, costuma-se aferir o grau de riqueza das pessoas pela capacidade destas em possuir objetos materiais, estes podem mostrar em escala crescente o que seja considerado abastado.
A escala hierárquica crescente de tais bens pode ser esta: fogão, geladeira, rádio, televisão, carro, casa. Tal escala pode ainda ser acrescida segundo a quantidade desses objetos possuídos, o seu modelo, o seu ano de fabricação, a sua sofisticação tecnológica. Estes requisitos remetem ao seu possuidor um status social, um poder aquisitivo que o distingue de outros pelas condições de conseguir adquirir mercadorias neste grande shopping planetário.
Os habitantes dos países industrializados, que se concentram em sua grande maioria no hemisfério norte, possuem vários destes bens materiais, mas isso não os qualifica como ricos no interior de seus países, pois existe uma minoria que detêm elevadas fortunas, podendo esbanjá-las em mercadorias de altíssimo valor monetário, tais como: jatos, iates, ilhas paradisíacas.
Contudo, o indivíduo considerado pobre destes países industrializados, seria considerado rico ao ser comparado com a grande maioria dos habitantes de um país que não se encontre no mesmo estágio de industrialização. A miséria em alguns países é tamanha que quem come duas refeições diárias, pode ser
considerado rico 32.
O crescimento do poder das elites, do lucro das empresas, do poder armamentista do Estado, em detrimento da vida de milhões de seres, devastados pelo saque, pela opressão, pela fome e pelo frio; a estagnação deste crescimento por si só, não representaria a reversão deste processo, mas sim a sua continuidade nos mesmo patamares de desigualdade social em que está funcionando
atualmente 33 e 34 .
O crescimento econômico foi entendido neste contexto como sinônimo de progresso. Os países da Europa ocidental e América do Norte, construíam o seu espaço de justiça, democracia e liberdade entendendo a liberdade apenas como as condições que o indivíduo consumidor teria de poder escolher entre as várias opções de bens
que se encontram disponíveis no mercado35. Se houvesse uma retração na oferta destes bens sua liberdade estaria ameaçada, no entanto com o aumento dos bens econômicos a justiça poderia se fazer presente para as classes mais desfavorecidas, recebendo elas
também o seu quinhão36 e nações atrasadas transforma-se-iam em
tranqüila democracias representativas 37.
Se os países atrasados tivessem condições de copiar ipsis literis o roteiro percorrido pelos países avançados, estaria demonstrada a continuidade de um mecanismo de poder pelo qual as elites daqueles países realizaram o seu domínio sobre o meio ambiente e
sobre uma multidão de pessoas exploradas 38 e muitas à míngua. Isso, sem contar a espoliação de outros países por intermédio de transações financeiras e comerciais.
Pretender universalizar os padrões de consumo suntuário de uma minoria abastada que vive nos países altamente industrializados, para a grande maioria da população mundial, constitui-se num dos
desdobramentos do mito do progresso 39.
Esta pretensão é impossível de ser realizada, primeiramente porque não existem recursos naturais suficientes de suportar tamanha intensidade e velocidade de produção e poluição, degradação e absorção dos detritos decorrentes da mesma. Em segundo lugar, porque este acúmulo de bens materiais realizado só foi possível com a equivalente distribuição da miséria para a grande massa da