Errante no campo da razão
Para Concluir
Nous n'avons pas le droit d'exterminer ce que nous n'avons pas crée. Un humble végétal, un insecte minuscule contiennent plus
de splendeurs et plus de mystères que la plus merveilleuse de
nos constructions
Jean Dorst
Meu objetivo neste trabalho foi o de apresentar e afirmar uma característica fundamental da História, a sua indeterminabilidade, essência proveniente dos eventos inéditos que se sucedem no processo da vida.
Procurei alegar que este pilar fundador, é uma contradição aos valores estabelecidos que critiquei, os quais procuram cindir um movimento unívoco em reflexões polares. Desta forma, considerei que a utilização de argumentos dicotômicos simplifica na maioria das vezes uma compreensão mais aproximada dos acontecimentos.
Por intermédio de uma análise de valores determinados, situei-me no campo transdisciplinar do conhecimento como um pirata, procurando contrabandear saberes, que minhas frágeis costas pudessem suportar, para me esquivar com agilidade suficiente, em um drible, dos fiscais epistemológicos encastelados nas alfândegas.
Elaborei uma estratégia de reflexão tentando articular a História e a Ecologia em um momento e local específico, utilizando-me de um manancial de fontes documentais dadas, que abarcassem diretamente a intervenção humana no meio ambiente.
Através de uma análise critica, percorri brevemente os caminhos que instauraram as idéias de progresso, de desenvolvimento, a concepção neutra de sentido histórico, de natureza e de dogma da ciência e de cálculo econômico.
Precisava fazer esta trajetória assumindo os riscos de me perder ou me afogar com a profundidade e imensidão de fatores envolvidos neste universo.
As perspectivas de análises que se abriram são inúmeras. Algumas já foram destacadas no decorrer do trabalho, assim como os afloramentos de veios riquíssimos podem se fazer notar a todo momento. Não pretendi esgotá-los, mesmo porque, se assim o quisesse, não conseguiria. Felizmente a infinitude do processo do conhecimento é maior do que minha suposta arrogância.
Será que os possíveis aprofundamentos de análises que deixei de fazer, devido às limitações intelectuais, da abordagem que adotei e de tempo para a consecução deste trabalho acadêmico, não se constituem em vestes a serem despidas da deusa Clio? A tarefa está posta a quem se propuser.
Para mim era importante acima de tudo, neste trabalho, construir minhas próprias sendas, nas veredas do conhecimento e da vida. Afinal, creio que a elaboração de uma investigação como esta trata fundamentalmente da habilidade autônoma que consiga equacionar de uma forma dinâmica e reflexiva, pressupostos teórico-metodológicos (epísteme) com empíria (doxa).
O desvendamento desta última se manifestou essencialmente plural, diversa, multidimensional, constando-se que segue ciclos ordenados e movimentos aleatórios. Isso me levou a seguinte indagação: como poderia construir uma armadilha que capturasse a indeterminação? Ao procurar reter água em minhas mãos, esta fluía entre meus dedos. Uma alternativa seria sorver o precioso líquido, mesmo que em pequena quantidade, antes que escoasse de meu improvisado recipiente e confirmar a existência do que escapou, pela constatação das frestas úmidas entre meus dedos.
Estou feliz pelos fugitivos da minha arapuca, primeiramente porque se comprovaram possuidores da qualidade que eu postulava em tese: o inédito - fundamento da História, tomando obrigatória a adoção de uma atitude humilde perante o conhecimento, desprezando a arrogância de certezas científicas, mas reconhecendo insofismavelmente a importância da árdua e constante tarefa da ciência para a humanidade e da História enquanto espaço livre de criação humana.
Amo a História porque é vida. E esta implica, a cada instante e esquina, em riscos e incógnitas. Amo a possibilidade de amar, de ter esperança, de combater, de criar, de sofrer e de errar, assim me reconheço existente.
Sobre areias escaldantes meus pés cansados repousam brevemente de uma longa jornada. No ar um aroma peculiar me envolve por inteiro, nuvens fantasmagóricas flutuam nos céus, dissolvendo-se em gotas que evaporam-se antes de tocar a terra, miragens formam-se como por encanto à minha vista. Será um sonho?
Cobrindo a cabeça com um turbante, monto rocinante detendo-me por um instante ao lado da enigmática esfinge. Seus olhos, contemplando o horizonte, parecem-me abismados. Ouço o sibilar do vento contornando seu sólido corpo inanimado e de tempos milenares o canto do chicote açoitando corpos suados e extenuados dos escravos que a construíram. O sol escaldante brilha a pino, engolindo implacavelmente as sombras, pressinto a solidão do deserto e de minha jornada, seguirei na direção do olhar da esfinge: O HORIZONTE!
O vento irá apagar meus rastros na areia.