Errante no campo da razão
12. O altar da História
A organização deste poder coletivo está enredado substancialmente à prática da democracia. Ressalve-se que o seu exercício pleno é o da democracia direta e significa decidir primordialmente sobre questões essenciais, a qual só se realiza quando não se delega poderes para que outros o representem. O voto pode significar na
maioria das vezes uma simples farsa 62.
Não é o caso de simplesmente realizar uma escolha de alternativas entre questão A, B ou C, mas o de se buscar um conhecimento do porque, como e para que estas alternativas existem, o que implica, inclusive, em negá-las totalmente ou criar outras. Deve-se enfim indagar a pergunta, criticar a crítica e decidir direta e autonomamente.
Em determinados momentos a democracia chegou a ser confundida com crescimento econômico, com a liberdade de escolher no grande bazar as mercadorias que interessem, já que o capitalismo objetiva transformar todas as coisas em mercadorias.
Segundo esta perspectiva, havendo favorecimento do crescimento material, consolidar-se-ia a democracia, por sua vez se houvesse uma estagnação ou declínio deste crescimento, a democracia entraria em crise devido a dependência de seus fundamentos estarem embasados nesta dinâmica econômica. Isto é o que vem
sendo detectado nos Estados Unidos da América63.
O altar da História
Assim como a democracia sofreu esta deturpação, a própria noção de História foi instituída como progresso linear pelo aprimoramento da dominação utilitarista e instrumental da natureza, visando a legitimação da sociedade auto-nominada desenvolvida. Por esse viés predetermina-se o sentido da História ideologicamente a partir do ponto em que se encontram os dominantes. Nos termos desta visão, o ápice e o ponto final da História estão, portanto
concluídos64.
A problemática da História estava resolvida, não havia mais lacunas a serem preenchidas ou abertas. O sentido estava dado e acabado, decifrado o segredo da esfinge, organizado o caos, nominado o inominado, contado o infinito, previsto o imprevisível e morta a vida.
Clément Rosset considera que a filosofia possui propriedades terapêuticas para tranqüilizar a angústia, por meio de duas intenções:
...acalmar devolvendo o sentido, ou acalmar retirando-o
completamente. Levara a crer que o objeto nunca foi
verdadeiramente perdido ou nunca verdadeiramente dado65.
Se se busca a tranqüilidade na época contemporânea, definindo o sentido e considerando o completado, quem sabe pode-se continuar calmo destruindo-o totalmente, a contragosto da classe social dominante?
O altar da História não exige sacrifícios e dela nada pode-se esperar a não ser a permanência, da inconstância, a ausência de um sentido
pré-determinado 66. E com esta característica que se funda a História enquanto campo de criação. Cabe, portanto, que se ocupe este
espaço objetivando orientar esta criação67, mas é preciso tomar cuidado para não determina-la como definitiva.
A entropia faz com que no universo cada período seja único em sua
historicidade 68, pela existência de um desequilíbrio constante enriquecendo-o de diversidade, imprevisibilidade e de eventos
inesperados69 desta desordem anárquica produziu-se a vida, é entre associações espontâneas e ocasionais que surgiram os primeiros
seres celulares 70.
A sociedade humana está imersa neste sistema vivo, e assim como ele atua trocando energia e matéria com o ambiente, cada instante de funcionamento difere-se do anterior pelo fluxo intercambiante,
dispersando energia aleatoriamente ou concentrando-a pela vida 71. Esta inserção recíproca de História e natureza globais, produziu um
fato inédito em filosofia 72, fazendo emergir uma reflexão necessariamente interativa.
Esta reflexão constituí-se em suporte para uma critica à concepção da História que a entende como seguidora de leis racionais, sem
erros e desvios73, concebendo-a como um curso ordenado de acontecimentos no fluxo do tempo, possuidora de um sentido e uma
meta final definida e obrigatoriamente a ser a1cançada 74.
A contestação à essa visão se aprofunda à partir do final dos anos 60 na critica efetuada à religião do progresso científico e técnico que se realizava por uma industrialização avassaladora. Ela estava devastando e oprimindo ambientes e culturas que não se
adequavam nas suas normas 75, reduzindo sociedades diferentes à meras etapas de uma escala escatológica à ser necessariamente
cumprida76.
A História enquanto espaço aberto do inesperado, do risco, do desconhecido, perde sua essência para esta reflexão linear que encaixa os eventos ocorridos em uma seqüência definida a posteriori e determina antecipadamente os eventos que deverão
acontecer77.
Por que haveria de continuar existindo História como ciência, se a sua problemática fundamental foi resolvida como uma equação matemática exata, sem restos? Porque esta solução é falsa, por tratar-se de uma complexa operação ideológica para a justificação de uma dominação social determinada.
O que se pretende aqui é apresentar a insolubilidade do problema
da História78. Não é que isto represente um valor positivo ou negativo da mesma, mas sim que é este o território da criação histórica, no qual os homens podem se entender também enquanto sujeitos e não apenas como objetos na construção de sua sociedade.
Não significa um repúdio à certeza, mas entendê-la como parcial, relativa, aprendendo a viver com o risco e com o inédito nas veredas da vida.
1 OPHULS, William - Ecology and the politics of scarcity, p. 21.
2 SCHWARTZ, Eugéne S. - Cambios sociales, recursos y tecnologia, p. 283.
3 SILVA, Carlos Eduardo Lins - “A ecologia enquanto fator político”, p. 16.
4 DUARTE, Rodrigo AP. - “Aspectos éticos da questão ecológica” p. 14-15.
5 ROSSET, Clément - A anti-natureza, p. 89.
6 DUARTE, Rodrigo AP. - Op. Cito p. 14.
7 HURTUBIA, Jaime - “Ecologia y desarrollo: evolución y perspectivas del pensamiento ecológico”, p. 167
8 ACOT, Pascal - História da ecologia, p. 115.
9 CARVALHO, Fernando Martins - “A introdução da temática ambiental nas ciências da Saúde”, p.73.
10 PARIS, Philippe Van- “Impasses et promesses de L'Ecologie politique, p.81.
11 SIMMONET, Dominique - O ecologismo, p. 10.
12 VIOLA, Eduardo - “O movimento ecológico no Brasil 1974-1986”, Passim.
13 DUPUY, Jean Pierre – Introdução à critica da ecologia política, p. 26.
14 VIOLA, Eduardo - “O movimento ecológico no Brasil (1974-1986): do ambientalismo a ecopolítica”, p. 69-70.
15 SIMMONET, Dominique - Op. cito p. 97-98.
16 COLLINGWOOD, R. G. - A Idéia da Natureza, p. 256.
17 BUARQUE, Cristovam - A desordem do progresso, p. 113.
18 MOSCOVICI, Serge - A sociedade contra a natureza, p. 361.
19 ROSSET, Clement - A Anti-Natureza, p. 10.
20 GONÇALVES, Carlos Walter Porto - Os descaminhos do meio ambiente, p. 23.
21 MORAES, Antonio Carlos Robert - “Bases epistemológicas da questão ambiental: o método”, p. 93.
22 MARX, Karl - O Capital, p. 149.
23 MORIN, Edgar - O método II - a vida da vida, p. 70.
24 KAWAMURA, Lili - Tecnologia e política na sociedade, p. 35.
25 GODELIER, Maurice - “L'appropriation de la nature”, p. 48
26 SERRES, Michel - O contrato natural, p. 45.
27 GORZ, André - ''Prefácio'', p. 11.
28 GORZ, André - Adeus ao proletariado, p. 165-166.
29 CARNOT Apud TIEZZI, Enzo Tempos históricos, tempos biológicos, p. 22.
30 DUQUE, Félix - Filosofia de la técnica de la naturaleza, p. 249.
31 PELT, Jean-Marie - A natureza reencontrada, p. 162.
32 REVES, Hubert - Malicorne, p. 101.
33 OPHULS, William - Op. Cit. p. 41.
34 DIEREN, W Van & HUMMELINCK, M.G.W. - Nature's price, p.175.
35 Ressalve-se aqui a existência dos cartéis, trustes, quando empresários de uma mesma atividade de produção realizam alianças com objetivos de dominar e dividir o mercado.
36 DUARTE, Rodrigo AP - Op. Cit. p. 15.
37 SIMMONET, Dominique - O ecologismo, p. 33.
38 MONTEIRO, Carlos Augusto de Figueiredo - A questão ambiental no Brasil 1960-1980, p. 113.
39 TAMAMES, Ramón - Crítica dos limites do crescimento, p. 115.
40 CONTI, Laura - Ecologia, capital, trabalho e meio ambiente, p. 63.
41 HOLCOMB e Outros Apud LOWE, Marcia D. - “Pedalando rumo ao futuro”, p. 160.
42 COMMOMER, Barry - Energias alternativas, p. 10-l1.
43 Comissão mundial sobre meio ambiente e desenvolvimento, -Nosso futuro comum, p. 16.
44 SCHWARZ, Walter e SCHWARZ, Dorothy - Ecologia: alternativa para o futuro, p. 94.
45 FROMM, Eric - Ter ou Ser?, p. 27.
46 SCORER, Richard S. - El idiota espabilado, p. 181
47 BUARQUE, Cristovam - Op. Cit. p. 112.
48 THOMAS, Keith - O homem e o mundo natural, p. 251-252.
49 LIMA, Maria José Araujo - Ecologia humana - realidade e pesquisa, p. 37.
50 GRAZIANO NETO, Francisco - Questão agrária e ecologia, p. 84.
51 VIRILIO, Paul - Vitesse et politique, p. 70.
52 CASTORIADIS, Cornelius - A instituição imaginária da sociedade, p. 244.
53 TIEZZI, Enzo - Op. Cit. p. 32.
54 HAWKING, Stephen W. - Uma breve história do tempo, p. 201.
55 MARCUSE, Herbert - Contra-revolução e revolta, p. 63-64.
56 HORKHEIMER, Max e ADORNO, T “Conceito de Iluminismo”, p. 92.
57 CASTORIADIS, Cornelius - As encruzilhadas do labirinto, Vol.II, p. 158.
58 CASTORIADIS, Cornelius e COHN-BENDIT, Daniel - Da ecologia a autonomia, p. 16.
59 Idem - Op. Cit. p.20.
60 ZEA, Leopoldo - “Do colonialismo ao desenvolvimento dos povos pela universalização do valores ocidentais”, p.275.
61 GORZ, André - Adeus ao Proletariado, p. 143- 144.
62 CASTORIADIS, Cornelius - Socialismo ou barbárie, p.84-85.
63 WOLFE, Alan - “Política perversa e guerra fria”, p.214.
64 FUKUYAMA, Francis - “El final de la historia ?”, p.126.
65 ROSSET, Clément - Op. Cit.; p.73.
66 GORZ, André -Adeus ao proletariado, p. 93.
67 CASTORIADIS, CORNELIUS - Socialismo ou Barbárie, p. 247.
68 STERN, Alfred - La filosofia de la história y el problema de los valores, p. 53.
69 REVES, Hubert - Op. Cit. p. 113.
70 MORIN, Edgar - O método II -a vida da vida, p. 291.
71 PELT, Jean-Marie - Op. Cit p. 149.
72 SERRES, Michel - Op. Cit. p. 15
73 MORIN, Edgar - Ciência com consciência, p. 72.
74 LOWITH, Karl - O Sentido da História, p. 19.
75 ARIES, Philippe - “A história das mentalidades”, p. 162.
76 LOWITH, Karl - Op. Cit. p. 31.
77 BIGNOTO, Newton - “Ecologia e tempo”, p. 32.
78 LOWITH, Karl - Op. Cit. p. 193.