Errante no campo da razão

Jozimar Paes de Almeida · Capítulo 18 de 36

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Errante no campo da razão

12. O altar da História

A organização deste poder coletivo está enredado substancialmente à prática da democracia. Ressalve-se que o seu exercício pleno é o da democracia direta e significa decidir primordialmente sobre questões essenciais, a qual só se realiza quando não se delega poderes para que outros o representem. O voto pode significar na

maioria das vezes uma simples farsa 62.

Não é o caso de simplesmente realizar uma escolha de alternativas entre questão A, B ou C, mas o de se buscar um conhecimento do porque, como e para que estas alternativas existem, o que implica, inclusive, em negá-las totalmente ou criar outras. Deve-se enfim indagar a pergunta, criticar a crítica e decidir direta e autonomamente.

Em determinados momentos a democracia chegou a ser confundida com crescimento econômico, com a liberdade de escolher no grande bazar as mercadorias que interessem, já que o capitalismo objetiva transformar todas as coisas em mercadorias.

Segundo esta perspectiva, havendo favorecimento do crescimento material, consolidar-se-ia a democracia, por sua vez se houvesse uma estagnação ou declínio deste crescimento, a democracia entraria em crise devido a dependência de seus fundamentos estarem embasados nesta dinâmica econômica. Isto é o que vem

sendo detectado nos Estados Unidos da América63.

 

O altar da História

Assim como a democracia sofreu esta deturpação, a própria noção de História foi instituída como progresso linear pelo aprimoramento da dominação utilitarista e instrumental da natureza, visando a legitimação da sociedade auto-nominada desenvolvida. Por esse viés predetermina-se o sentido da História ideologicamente a partir do ponto em que se encontram os dominantes. Nos termos desta visão, o ápice e o ponto final da História estão, portanto

concluídos64.

A problemática da História estava resolvida, não havia mais lacunas a serem preenchidas ou abertas. O sentido estava dado e acabado, decifrado o segredo da esfinge, organizado o caos, nominado o inominado, contado o infinito, previsto o imprevisível e morta a vida.

Clément Rosset considera que a filosofia possui propriedades terapêuticas para tranqüilizar a angústia, por meio de duas intenções:

...acalmar devolvendo o sentido, ou acalmar retirando-o

completamente. Levara a crer que o objeto nunca foi

verdadeiramente perdido ou nunca verdadeiramente dado65.

Se se busca a tranqüilidade na época contemporânea, definindo o sentido e considerando o completado, quem sabe pode-se continuar calmo destruindo-o totalmente, a contragosto da classe social dominante?

O altar da História não exige sacrifícios e dela nada pode-se esperar a não ser a permanência, da inconstância, a ausência de um sentido

pré-determinado 66. E com esta característica que se funda a História enquanto campo de criação. Cabe, portanto, que se ocupe este

espaço objetivando orientar esta criação67, mas é preciso tomar cuidado para não determina-la como definitiva.

A entropia faz com que no universo cada período seja único em sua

historicidade 68, pela existência de um desequilíbrio constante enriquecendo-o de diversidade, imprevisibilidade e de eventos

inesperados69 desta desordem anárquica produziu-se a vida, é entre associações espontâneas e ocasionais que surgiram os primeiros

seres celulares 70.

A sociedade humana está imersa neste sistema vivo, e assim como ele atua trocando energia e matéria com o ambiente, cada instante de funcionamento difere-se do anterior pelo fluxo intercambiante,

dispersando energia aleatoriamente ou concentrando-a pela vida 71. Esta inserção recíproca de História e natureza globais, produziu um

fato inédito em filosofia 72, fazendo emergir uma reflexão necessariamente interativa.

Esta reflexão constituí-se em suporte para uma critica à concepção da História que a entende como seguidora de leis racionais, sem

erros e desvios73, concebendo-a como um curso ordenado de acontecimentos no fluxo do tempo, possuidora de um sentido e uma

meta final definida e obrigatoriamente a ser a1cançada 74.

A contestação à essa visão se aprofunda à partir do final dos anos 60 na critica efetuada à religião do progresso científico e técnico que se realizava por uma industrialização avassaladora. Ela estava devastando e oprimindo ambientes e culturas que não se

adequavam nas suas normas 75, reduzindo sociedades diferentes à meras etapas de uma escala escatológica à ser necessariamente

cumprida76.

A História enquanto espaço aberto do inesperado, do risco, do desconhecido, perde sua essência para esta reflexão linear que encaixa os eventos ocorridos em uma seqüência definida a posteriori e determina antecipadamente os eventos que deverão

acontecer77.

Por que haveria de continuar existindo História como ciência, se a sua problemática fundamental foi resolvida como uma equação matemática exata, sem restos? Porque esta solução é falsa, por tratar-se de uma complexa operação ideológica para a justificação de uma dominação social determinada.

O que se pretende aqui é apresentar a insolubilidade do problema

da História78. Não é que isto represente um valor positivo ou negativo da mesma, mas sim que é este o território da criação histórica, no qual os homens podem se entender também enquanto sujeitos e não apenas como objetos na construção de sua sociedade.

Não significa um repúdio à certeza, mas entendê-la como parcial, relativa, aprendendo a viver com o risco e com o inédito nas veredas da vida.

 

1 OPHULS, William - Ecology and the politics of scarcity, p. 21.

2 SCHWARTZ, Eugéne S. - Cambios sociales, recursos y tecnologia, p. 283.

3 SILVA, Carlos Eduardo Lins - “A ecologia enquanto fator político”, p. 16.

4 DUARTE, Rodrigo AP. - “Aspectos éticos da questão ecológica” p. 14-15.

5 ROSSET, Clément - A anti-natureza, p. 89.

6 DUARTE, Rodrigo AP. - Op. Cito p. 14.

7 HURTUBIA, Jaime - “Ecologia y desarrollo: evolución y perspectivas del pensamiento ecológico”, p. 167

8 ACOT, Pascal - História da ecologia, p. 115.

9 CARVALHO, Fernando Martins - “A introdução da temática ambiental nas ciências da Saúde”, p.73.

10 PARIS, Philippe Van- “Impasses et promesses de L'Ecologie politique, p.81.

11 SIMMONET, Dominique - O ecologismo, p. 10.

12 VIOLA, Eduardo - “O movimento ecológico no Brasil 1974-1986”, Passim.

13 DUPUY, Jean Pierre – Introdução à critica da ecologia política, p. 26.

14 VIOLA, Eduardo - “O movimento ecológico no Brasil (1974-1986): do ambientalismo a ecopolítica”, p. 69-70.

15 SIMMONET, Dominique - Op. cito p. 97-98.

16 COLLINGWOOD, R. G. - A Idéia da Natureza, p. 256.

17 BUARQUE, Cristovam - A desordem do progresso, p. 113.

18 MOSCOVICI, Serge - A sociedade contra a natureza, p. 361.

19 ROSSET, Clement - A Anti-Natureza, p. 10.

20 GONÇALVES, Carlos Walter Porto - Os descaminhos do meio ambiente, p. 23.

21 MORAES, Antonio Carlos Robert - “Bases epistemológicas da questão ambiental: o método”, p. 93.

22 MARX, Karl - O Capital, p. 149.

23 MORIN, Edgar - O método II - a vida da vida, p. 70.

24 KAWAMURA, Lili - Tecnologia e política na sociedade, p. 35.

25 GODELIER, Maurice - “L'appropriation de la nature”, p. 48

26 SERRES, Michel - O contrato natural, p. 45.

27 GORZ, André - ''Prefácio'', p. 11.

28 GORZ, André - Adeus ao proletariado, p. 165-166.

29 CARNOT Apud TIEZZI, Enzo Tempos históricos, tempos biológicos, p. 22.

30 DUQUE, Félix - Filosofia de la técnica de la naturaleza, p. 249.

31 PELT, Jean-Marie - A natureza reencontrada, p. 162.

32 REVES, Hubert - Malicorne, p. 101.

33 OPHULS, William - Op. Cit. p. 41.

34 DIEREN, W Van & HUMMELINCK, M.G.W. - Nature's price, p.175.

35 Ressalve-se aqui a existência dos cartéis, trustes, quando empresários de uma mesma atividade de produção realizam alianças com objetivos de dominar e dividir o mercado.

36 DUARTE, Rodrigo AP - Op. Cit. p. 15.

37 SIMMONET, Dominique - O ecologismo, p. 33.

38 MONTEIRO, Carlos Augusto de Figueiredo - A questão ambiental no Brasil 1960-1980, p. 113.

39 TAMAMES, Ramón - Crítica dos limites do crescimento, p. 115.

40 CONTI, Laura - Ecologia, capital, trabalho e meio ambiente, p. 63.

41 HOLCOMB e Outros Apud LOWE, Marcia D. - “Pedalando rumo ao futuro”, p. 160.

42 COMMOMER, Barry - Energias alternativas, p. 10-l1.

43 Comissão mundial sobre meio ambiente e desenvolvimento, -Nosso futuro comum, p. 16.

44 SCHWARZ, Walter e SCHWARZ, Dorothy - Ecologia: alternativa para o futuro, p. 94.

45 FROMM, Eric - Ter ou Ser?, p. 27.

46 SCORER, Richard S. - El idiota espabilado, p. 181

47 BUARQUE, Cristovam - Op. Cit. p. 112.

48 THOMAS, Keith - O homem e o mundo natural, p. 251-252.

49 LIMA, Maria José Araujo - Ecologia humana - realidade e pesquisa, p. 37.

50 GRAZIANO NETO, Francisco - Questão agrária e ecologia, p. 84.

51 VIRILIO, Paul - Vitesse et politique, p. 70.

52 CASTORIADIS, Cornelius - A instituição imaginária da sociedade, p. 244.

53 TIEZZI, Enzo - Op. Cit. p. 32.

54 HAWKING, Stephen W. - Uma breve história do tempo, p. 201.

55 MARCUSE, Herbert - Contra-revolução e revolta, p. 63-64.

56 HORKHEIMER, Max e ADORNO, T “Conceito de Iluminismo”, p. 92.

57 CASTORIADIS, Cornelius - As encruzilhadas do labirinto, Vol.II, p. 158.

58 CASTORIADIS, Cornelius e COHN-BENDIT, Daniel - Da ecologia a autonomia, p. 16.

59 Idem - Op. Cit. p.20.

60 ZEA, Leopoldo - “Do colonialismo ao desenvolvimento dos povos pela universalização do valores ocidentais”, p.275.

61 GORZ, André - Adeus ao Proletariado, p. 143- 144.

62 CASTORIADIS, Cornelius - Socialismo ou barbárie, p.84-85.

63 WOLFE, Alan - “Política perversa e guerra fria”, p.214.

64 FUKUYAMA, Francis - “El final de la historia ?”, p.126.

65 ROSSET, Clément - Op. Cit.; p.73.

66 GORZ, André -Adeus ao proletariado, p. 93.

67 CASTORIADIS, CORNELIUS - Socialismo ou Barbárie, p. 247.

68 STERN, Alfred - La filosofia de la história y el problema de los valores, p. 53.

69 REVES, Hubert - Op. Cit. p. 113.

70 MORIN, Edgar - O método II -a vida da vida, p. 291.

71 PELT, Jean-Marie - Op. Cit p. 149.

72 SERRES, Michel - Op. Cit. p. 15

73 MORIN, Edgar - Ciência com consciência, p. 72.

74 LOWITH, Karl - O Sentido da História, p. 19.

75 ARIES, Philippe - “A história das mentalidades”, p. 162.

76 LOWITH, Karl - Op. Cit. p. 31.

77 BIGNOTO, Newton - “Ecologia e tempo”, p. 32.

78 LOWITH, Karl - Op. Cit. p. 193.