Errante no campo da razão

Jozimar Paes de Almeida · Capítulo 7 de 36

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Errante no campo da razão

1. Considerações sobre valores

questão 1: a produção dos valores culturais e materiais que demonstram a estruturação e o funcionamento da sociedade.

 

Considerações sobre valores

Esse trabalho é também uma construção de valores, inseridos em minha vida social, imersa em um contexto histórico, repleto de amplas perspectivas de análises alternativas da questão em foco.

Estes valores estão impregnados na árvore social, que ao ser cortada pelo machado da crítica, exala a essência de sua substância, tomando transparente o processo em que ocorreu uma ideologização distorcida da História pelo progresso e desenvolvimento, que surgem enquanto conceitos portadores de juízos de valores intrínsecos do seu emissor histórico e contendo uma significação de domínio sobre a natureza.

Postulo que este juízo surge como se fosse algo natural à ser necessariamente cumprido, estabelecendo um sentido obrigatório de realizações a ser seguido por toda a espécie humana, envenenando mortalmente com tal atitude a essência da História: o inédito.

Mesmo tomando a História como possuindo o inédito enquanto um pilar fundador, isto não implica necessariamente em a entendermos como uma indeterminação absoluta. Não existiam, por exemplo, condições históricas dadas para a construção de uma bomba nuclear no século XIX. Estas condições propiciaram a sua elaboração no século XX, mas elas só foram consolidadas, enquanto bomba, por escolha de interesses político-militares, bem como o local de sua explosão.

Por que foi Hiroshima o local escolhido e não um símbolo desabitado do Japão, como o topo do monte Fuji? Ou por que, com tal tecnologia não se construiu inicialmente aparelhos médicos para debelar o câncer?

Isto significa que nos momentos históricos abre-se um amplo leque de opções à serem trilhadas. Os homens que gestam suas vidas, realizam suas escolhas segundo forças dos interesses dominantes (sociais, econômicos e políticos) naquele momento e lugar. Por isso o novo é uma potencialidade presente no cerne da História.

O inédito emerge no rio turbulento da História, como um fator inesperado que surge à tona, trazendo elementos indeterminados aos navegantes, que procuram no decorrer de sua viagem supostamente perpétua, decifrar as inscrições enigmáticas do desconhecido curso do rio.

Acredito que nos dias de hoje a idéia de História esteja muito mais próxima da representação de uma jangada ao sabor das torrentes, do que da de um trem acorrentado a trilhos constantemente paralelos.

Sempre se apresentou para a humanidade o desafio de entender a sua própria natureza, como ela se constitui enquanto essência, bem como as suas ações em relação endógena e com o mundo para além de seu próprio umbigo. O homem cultural e histórico é a vida que se tomou existência, isto ocorreu quando a vida se soube vivendo e pensando pôde expressar elaborações mentais sobre si mesma e o ambiente. Ao saber que sabia, soube que podia saber mais. O afã dessa possibilidade aberta contamina o próprio processo de conhecimento.

O homem não está apenas no mundo, está com o mundo, mudando-o constantemente e sendo por ele mudado. Para o homem enquanto ser social, o mundo só pode existir a partir de sua própria existência, o que leva a magníficas exacerbações (o que não ocorreu em todas as culturas) sobre sua importância no cosmos.

Este julgamento de valor não é nato, mas constitui-se de forma e intensidade diferentes, de acordo com cada cultura, variando no tempo e no espaço vinculado às formas de relacionamento entre si e com a natureza, historicamente determinadas.

Denomina-se na História antropocentrismo, a justificativa humana de considerar-se como fundamento da existência do universo. Isto leva o indivíduo a entender-se enquanto o centro do mundo, o que não deixa de ser uma grande ousadia deste ser que nasce, vive e

morre ao acaso 2.

Denomina-se também como etnocentrismo, o fenômeno pelo qual a cultura em que se criou este ser humano se auto proclama possuidora do poder supremo de julgar segundo os seus próprios valores todo o cosmos: praticando desta forma um magnífico reducionismo.

O conceito de meio ambiente, bem como os signos lingüísticos que usamos para nos comunicar ou efetuar cálculos, são criações históricas que estão vinculados carnalmente a existência humana. Ambos são influenciados pelo antropocentrismo e pelo etnocentrismo.

Estas produções são diferentes em decorrência das várias culturas que as produziram, e pela época em que foram geradas. Isto significa dizer que esquimós, aborígenes da Austrália, camponeses medievais, egípcios do tempo de Cleópatra e executivos de Manhattam compreendem diversamente o mundo através destes Signos.

Enfim existe uma leitura hegemônica do mundo dentro de cada cultura, que não é una devido às relações sociais de sua própria formação histórica. Isto não significa necessariamente uma exclusão de qualquer comunicação que possa ocorrer entre elas ou mesmo entre grupos que demonstram uma dissidência com a cultura dominante. Nesse caso, ocorre, então, a possibilidade de entendimento recíproco de valores por intermédio de uma sensibilidade e comunhão de interesses.

Um meio pelo qual se compreende os eventos está marcado, pelo modo de como estes são criados e moldados por seus produtores e escritores. As ações construídas pelos homens entre si e com o meio ambiente expressam a História. Desta forma, as reflexões contidas sobre este processo estão no seu interior, sendo portanto históricas.

Em outras palavras, os homens produzem a sua História imprimindo na natureza a sua marca: diques, estradas, ferramentas, casas; assim como em uma atividade dinâmica e reflexiva, elabora conhecimento sobre esta produção. Este conhecimento criado pode transmitir através da escrita, reflexões sobre estas impressões, permitindo compreender estes eventos e seus autores, pela forma ou pelo papel que lhes foi inscrito neste processo.

A linguagem científica é profundamente limitada quanto a transmitir uma visão de conjunto desta realidade extremamente múltipla, dinâmica e indescritível. Quando se trabalha com tal complexidade é a linguagem poética que oferece auxílio indispensável para uma

transmissão de maior qualidade das experiências sensoriais.3, 4 e 5

Esta reflexão é produto de um ser que tem sua existência inscrita

num contexto histórico 6, sujeita a momentos de dúvidas, de euforia, de angústia, de tristeza, de encontros, de perdas, de desvios e ainda, de lacunas e de limites: de formação intelectual. Sobretudo é escasso o tempo para abordar, neste trabalho, a abrangência, a amplitude e a profundidade da especificidade do campo de conhecimento histórico.

Mais importante ainda: este estudo reflete um sistema de valores de leitura e compreensão do mundo. E uma visão perspectiva dele, afirmando uma negação da postura de neutralidade da ciência, insípida, inodora, incolor e fundamentalmente falsa.

Se o funcionamento e a compreensão do mundo não é de todo exata pelo movimento aleatório dos eventos, porque deveria sê-lo em um trabalho acadêmico?

Isto não significa jogar fora a criança com a água do banho, ou lavar as mãos como Pilatos, na tentativa de isentar-se de seus deveres, mas sim oferecer neste trabalho uma estratégia de compreensão da problemática de uma forma coerente, para que, mesmo com as lacunas e sombras de entendimento, possa-se efetuar o salto no escuro; risco necessário no penhasco do conhecimento.

A aventura da existência implica em vivê-la e em correr riscos. E impossível existir e inventar sem estes riscos, possibilidades abertas de amor e raiva, prazer e angústia. Mesmo nesta última circunstância eles podem ser prazerosos, por nos reconhecermos como sujeitos e objetos deles.

Enfim esta incerteza e esta imponderabilidade, campo livre e transdisciplinar da História enquanto território aberto de criação do radicalmente novo - inédito, constituem o mote desta reflexão.

Esta abordagem inusitada da História permite uma visão critica do

processo de ideologização 7 da mesma. Ela foi instituída por uma estratégia da razão instrumental gestada nas relações de produção e veio a gerar mitos: progresso, desenvolvimento, dogma da ciência e cálculo econômico neutros.

Neste contexto, gestou-se ainda mais perigosamente a idéia de natureza como uma determinação inevitável a se cumprir. Deste engendramento surgiu a idéia de que a História possuía uma similaridade com os fenômenos naturais, existindo desta forma uma natureza histórica, representando um sentido à ser obrigatoriamente percorrido por qualquer sociedade humana. No entanto, estes são critérios referenciais impostos pela classe dominante ou por expressões ideológicas de interpretadores do processo histórico.

Como exemplos deles tem-se a escatologia judaico-cristã, o positivismo fundado por Auguste Comte em sua busca de leis

naturais na sociedade 8 e, porque não dizer, de Karl Marx e seu Manifesto Comunista:

“A burguesia produz, sobretudo, seus próprios coveiros. Sua

queda e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis”.9

(grifo meu).