Errante no campo da razão

Jozimar Paes de Almeida · Capítulo 19 de 36

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Errante no campo da razão

CAPÍTULO III Inquirindo Conceitos

 

 

Precisamos descobrir que pensar o real é a aventura mais difícil

de todas. E navegar entre mutilação e confusão, entre

esclerose e desvio, entre racionalização e irracionalidade, e

contra razão/loucura

Edgar Morin

 

Breve histórico da institucionalização da

racionalidade moderna

A famigerada racionalidade que aflige a sociedade contemporânea, impondo supostos preceitos universais e inquestionáveis, os quais fundam, enquanto instrumentos conceituais, a ciência moderna, é fruto de um processo histórico.

Localizando-a em uma rápida passagem no tempo e no espaço, nota-se que ela emergia na Europa nos movimentos de destruição do Antigo Regime. A razão combatia uma sociedade caracterizada pelo poder político na forma de monarquia absolutista, uma organização social em estamentos e relações comerciais mercantilistas embasadas no sistema colonial moderno.

Este processo colaborava na formação de uma outra sociedade, caracterizada por classes sociais, constituída sob o signo da propriedade privada e da mão de obra expropriada de seus meios de subsistência, por isso livre e dominada pela burguesia em todos os seus aspectos.

Não se trata aqui de aprofundar o estudo deste processo transformador, mas simplesmente de visualizá-lo como um movimento ocorrido especialmente na Europa Ocidental e que afetou o planeta como um todo. Mesmo colocando-se o eurocentrismo à parte, o que se constata é que, com esse processo, o modo de produção capitalista tomou-se hegemônico em nível mundial.

Os primórdios de construção da ciência moderna começavam a se esboçar no século XVI com a Renascença, neste momento o homem passava a tomar o seu lugar no mundo e a ocupar um espaço bem no seu centro.

No século XVII com o cartesianismo postula-se que ao conhecer-se a força e a ação dos elementos que nos cercam “poderíamos empregá-los da mesma maneira em todos os usos para os quais são próprios, e assim, tomar-nos como que senhores e possuidores

da natureza” 1. E desta forma que o mundo como natureza exterior toma-se espaço de domínio humano.

Com o Iluminismo no século XVIII aprofundou-se e estabeleceu-se de vez o domínio de uma razão, definindo predominantemente a atuação da ciência e que concebe a natureza como um recurso

infinito à ser explorado 2.

A marca de uma instrumentalização da natureza, pela utilização da racionalidade técnica, está profundamente inscrita na ciência decorrente desta trama histórica. Ela traz em seu bojo a idéia

burguesa de progresso 3 e de desenvolvimento.

A ciência moderna realiza uma ruptura na relação homem-natureza, “desantropomorfizando” a natureza e concomitantemente “desnaturalizando” o homem. A partir de um movimento unívoco, a ciência cinde em elementos dicotômicos e constroem a partir disso um gigantesco aparato intelectual, resultando em um controle e numa instrumentalização da natureza objetivando auferir benefícios determinados pelo próprio homem.

O ser dominador que escreve com sua práxis na natureza, que apresenta uma direção ao processo de progresso e desenvolvimento por estar necessariamente inserido num contexto histórico, não é um homem abstrato, mas corporifica-se na burguesia portadora do espírito do capitalismo.

A burguesia utilizar-se-á de sua soberania sobre a natureza, monitorada pela ciência, explorando-a intensivamente, desenvolvendo as forças produtivas como jamais ocorrera na História. Além disso, por intermédio desta concepção de natureza subjugada, trata-se de dissimular-se a constituição das relações

sociais4 e 5 .

A espoliação da natureza e dos expropriados dos meios de produção, surge no sistema capitalista como natural, isto é, legitimada por um entendimento que denota uma atividade inquestionável. Ela designaria a certeza absoluta de que as relações humanas entre si e com a matéria bruta, ou biomassa energética, é correta e a única possível.

A racionalidade instrumental e a concepção de natureza perpetrada na ciência moderna, são produtos culturais e científicos que aparentemente desvencilharam-se de seu criador, a burguesia, e agora dão o tom universal em uma operação ideológica na qual o intérprete apenas canta a música, não composta por ele.

Estes produtos parecem ter uma conotação de entidades abstratas, supra-históricas, neutras por excelência, exercendo um poder supremo sobre a organização e a estrutura social. No entanto eles funcionam como um manto encobridor de uma ferida aberta e infeccionada.

Para se desencorajar o questionamento dessa racionalidade -autoridade, pretende-se tomar como loucura qualquer indagação que a ela possa ser feita. Na verdade, trata-se do desvendamento desse processo de dominação, que instaura as regras do jogo e desautoriza qualquer critica a seus fundamentos. Ao se questionar a ciência instituída socialmente, estar-se-á simultaneamente inquirindo a sociedade que a instituiu.