Errante no campo da razão

Jozimar Paes de Almeida · Capítulo 28 de 36

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Errante no campo da razão

11. Estratégias alternativas do desenvolvimento

Ivan Illich posiciona-se pela construção de uma convivialidade na sociedade, o que significaria a passagem de ferramentas dominantes para ferramentas conviviais e eficazes, representando uma modificação na essência dos instrumentos que os homens utilizam constantemente nas relações sociais e com o meio. Ela substituiria valores técnicos e materializados por valores éticos e realizados, constituindo-se, nas relações de produção, a espontaneidade e liberdade individual, destruindo a produtividade

industrial 80.

 

Estratégias alternativas do desenvolvimento

Existem também perspectivas a respeito do estabelecimento de um desenvolvimento sustentado ou eco-desenvolvimento, o qual deveria conjugar, sem degradar, o homem e suas relações de produção no meio ambiente e se encontra fundamentada em vários fatores.

Na necessidade de uma participação ativa, direta e horizontal das populações no planejamento, na pesquisa, na decisão e na aplicação das atividades produtivas nas regiões onde vivem. Com objetivo de produzir auto-sustentadamente, respeitando e mantendo o equilíbrio dos fluxos do ecossistema. Se houver condições até de expandir as forças produtivas do meio ambiente, reciclando os resíduos, poupando recursos naturais não-renováveis, utilizando-se de técnicas alternativas não degradantes.

Os produtos deverão atender às satisfações das necessidades básicas das populações locais e produtoras tais como, saúde, habitação, alimentação e transporte; devendo-se evitar os padrões consumistas das sociedades industrializadas.

Na elaboração destes produtos deve-se otimizar o dispêndio de energia e de capital, utilizar mão de obra, integrar diferentes atividades produtivas. deve-se adaptá-las às culturas locais aproveitando o conhecimento por elas criado e fazer com que as produções rurais estejam vinculadas a economia nacional eliminando-se os intermediários.

Em suma, a gestão da produção neste processo de eco desenvolvimento, deve ser autônoma e descentralizada, respeitando

as diversidades ecológicas e culturais das populações locais 81 82 e ,

83.

Em vista dessas abordagens já expostas, apresenta-se também considerações sobre a temática apresentadas sob a forma de relatório, de abrangência mundial denominado Nosso Futuro Comum, da Comissão Mundial Sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU.

Reproduzo aqui algumas passagens deste relatório para efetuar comentários que venham ao encontro das formulações que realizo no decorrer de meu trabalho. Nelas, procuro constatar e esclarecer posicionamentos críticos já adotados quanto à problemática em foco.

Este relatório, Nosso Futuro Comum, não é uma previsão de

decadência, pobreza e dificuldades ambientais cada vez

maiores num mundo cada vez mais poluído e com recursos

cada vez menores. Vemos ao contrário, a possibilidade de uma

nova era de crescimento econômico, que tem de se apoiar em

práticas que conservem e expandam a base de recursos

ambientais. E acreditamos que tal crescimento é absolutamente

essencial para mitigar a grande pobreza que se vem

intensificando na maior parte do mundo em desenvolvimento.84

(grifo meu)

Adota-se claramente a postura de se incentivar um crescimento econômico, visto essencialmente como uma tábua de salvação para as mazelas que atingem o mundo, não existindo portanto a menor análise crítica sobre como ocorre e o que representou até o momento para o homem e o ambiente esse afamado crescimento, sinônimo para alguns ecologistas de exploração, desigualdade e destruição.

Com uma inegável audácia tal relatório constrói um termo composto capaz de dar conta do futuro, como um senhor absoluto do destino:

O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às

necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de

as gerações futuras atenderem as suas próprias

necessidades85.

Quais serão as necessidades das gerações futuras? Uma sustentabilidade que representasse um equilíbrio constante nos fluxos de biomassa energética não duraria perpetuamente devido à entropia.

Desenvolvimento sustentável enquanto conceito que pretende estabelecer uma outra relação de produção, para solucionar os dilemas sócio-ambientais de nosso tempo, tem sido objeto de varias interpretações e formulações por leitores e autores, constituindo-se um espaço aberto de pesquisa para os interessados.

Contento-me em localizar no relatório alguns pontos que considero cruciais para o transcorrer deste trabalho, quando o próprio relatório expõe:

As necessidades são determinadas social e culturalmente, e o

desenvolvimento sustentável requer a promoção de valores que

mantenham os padrões de consumo dentro do limite das

possibilidades ecológicas a que todos podem, de modo

razoável, aspirar86.

Nota-se que, desta forma, o próprio relatório produziu o seu valor considerado essencial o crescimento econômico. Qual cultura e qual sociedade determina essa necessidade de crescimento econômico? Os autores do relatório não estariam envoltos por estes valores, reproduzindo-os sem uma perspectiva critica?

Percebe-se, no entanto, uma sensibilidade por parte do relatório em relação ao entendimento que em países “em desenvolvimento” não estão ocorrendo a satisfação das necessidades básicas, um dos objetivos do desenvolvimento, além de atender as aspirações humanas.

Satisfazer as necessidades e as aspirações humanas é o

principal objetivo do desenvolvimento. Nos países em

desenvolvimento, as necessidades básicas de grande número

de pessoas, alimento, roupas, habitação, emprego não estão

sendo atendidas. Além dessas necessidades básicas, as

pessoas também aspiram legitimamente uma melhor qualidade

de vida.

A satisfação das necessidades essenciais depende em parte de

que se consiga o crescimento potencial pleno, e o

desenvolvimento sustentável exige claramente que haja

crescimento econômico em regiões onde tais necessidades não

estão sendo atendidas.87 (grifo meu)

Referenda-se uma vez mais a fórmula do crescimento econômico como a solução para o problema. Estudos da antropologia contribuem neste aspecto ao desvendar que sociedades indígenas que não vivem sob o signo do crescimento econômico têm as suas

necessidades básicas satisfeitas 88.

Focalizo nesta análise uma dimensão perversa, uma máscara do capitalismo, na qual, majoritariamente, é entendido este desenvolvimento sustentável. Isto não significa necessariamente fazer vista grossa à potencialidade de critica e de alternativa de sociedade que existe no conteúdo conceitual daquele documento. Por isso, sugiro sob outras leituras, um sentido diferente para tal conceito: transformações profundas nas técnicas e nas relações e formas de produzir, com menor dispêndio de energia; utilização de produtos duráveis e biodegradáveis; proteção aos recursos naturais e, enfim, por último, mas não em importância: participação direta e autônoma da população na gestão da produção.

Em países altamente industrializados considerados desenvolvidos, produzem-se necessidades cada vez maiores para se aumentar o consumo de energia e de mercadorias. Qual seria o limite de contenção dessa fúria de consumo ilimitado, ou será que ela não deveria ser contida, já que faz parte das aspirações humanas, um dos objetivos do desenvolvimento?

A sociedade de consumo cria constantemente novas necessidades. Estaremos sempre babando atrás dessa suculenta e inacessível cenoura puxando a carroça, ou diremos como a raposa: “as uvas estão verdes?”

Como e por que é criado o valor da importância da uva e da cenoura (mercadorias)? Quem a elas tem acesso e por quê? Haveria recursos naturais suficientes se toda a população da terra pudesse realizar as aspirações de consumo das sociedades altamente industrializadas? A continuação do funcionamento de mecanismos que permitem tal opulência nestas sociedades não é o mesmo que possibilita a miséria de três quartos da população terrestre?

Espero que esta análise que pretende expor as relações dos homens entre si, integrados no meio ambiente, possa contribuir de uma forma mesmo que modesta de refletir sobre o que se pensa sabido. Para que se permita continuar ininterruptamente na atividade dialética de sujeito e objeto da razão.

 

1 DESCARTES, René - Discurso do método, p. 71.

2 VESENTINI, José William - Geografia, natureza e sociedade, p. 76.

3 ROSTOW, W. W. - Etapas do desenvolvimento econômico, p. 34.

4 SANTOS, Boaventura de Souza - Introdução a uma ciência pós--moderna, p. 65-66.

5 MARCUSE, Herbert - A ideologia da sociedade industrial, p. 160.

6 Idem - Op. Cit. p. 154.

7 MATOS, Olgária C. F. - Os arcanos do inteiramente outro, p. 130.

8 VEYNE, Paul - Como se Escreve a História, p. 126 e 239.

9 CERTEAU, Michel de - A escrita da História, p. 73.

10 MORIN, Edgar - Ciência com consciência, p. 36.

11 BOOKCHIN, Murray - El anarquismo en la sociedad de consumo, p. 13.

12 MOSCOVICI, Serge - A máquina de fazer deuses, p. 368

13 CASTORIADIS, Cornelius e COHN-BENDIT, Daniel - Da ecologia a autonomia, p. 13.

14 PH. Roqueplo - "Oito teses sobre o significado da ciência", p. 151.

15 MARCUSE, Herbert - A ideologia da sociedade industrial, p. 19.

16 LAGO, Antonio e PADUA, José Augusto - O que é ecologia, p. 62.

17 GORZ, André - Adeus ao proletariado, p. 155.

18 RATTNER, Henrique - Tecnologia e sociedade, p. 162.

19 GORZ, André - "O despotismo da fábrica e suas conseqüências", p. 83.

20 DIEGUES, Antonio Carlos - A interdisciplinariedade na análise das questões ambientais, p. 8.

21 SANTOS, Boaventura de Souza - "Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-moderna", p. 58.

22 GRAZIANO NETO, Francisco - Questão agrária e ecologia, p. 87.

23 DUQUE, Félix - Filosofia de la técnica de la naturaleza, p. II.

24 BACZKO, Malgorzata e outros - Techniques Douces, Habitat et Société, p. 13.

25 ARNDT, Heinz Wolfgang - Economic Development- The History of an Idea, p. 2.

26 NOGUEIRA, Jorge Madeira - "Estratégias de desenvolvimento e meio ambiente", p. 71.

27 MORIN, Edgar - Para sair do século XX, p. 71-72.

28 RATTNER, Henrique - Tecnologia e Sociedade, p. 50.

29 VIOLA, Eduardo J. e LEIS, Hector R. - "Desordem global da biosfera e nova ordem internacional: o papel organizador do ecologismo", p. 169.

30 DUPUY, Jean Pierre - Introdução à critica da ecologia política, p. 30.

31 DURNING, Alan B. - "Acabando com a Pobreza", p. 173.

32 GORZ, André - Ecologie et politique, p. 65.

33 GARAUDY, Roger - Ainda é Tempo de Viver, p. 21.

34 NOGUEIRA, Jorge Madeira - Op. Cit. p. 71.

35 FROMM, Eric - Anatomia da Destrutividade Humana, p. 578.

36 PELT, Jean-Marie - A Natureza Reencontrada, p. 45-46.

37 HEWLET, Sylvia Ann - Dilemas do desenvolvimento - o Brasil do século XX, p. 15.

38 SACHS, Ignacy - Espaços, tempos e estratégias do desenvolvimento, p. 23.

39 FURTADO, Celso - O mito do desenvolvimento econômico, p. 16.

40 Idem - Op. Cit. p. 75.

41 MIRANDA, Evaristo Eduardo "Avaliação de impacto sobre desenvolvimento rural", p. 1.

42 GOVERNO DO ESTADO DE SAO PAULO - Política estadual do meio ambiente e dos recursos naturais, p. 6.

43 HEWLET, Sylvia Ann - Op. Cit p. 37.

44 Comissão Interministerial para a Preparação da Conferência das Nações Unidas Sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento -Subsídios técnicos para elaboração do relatório nacional do Brasil para a conferência das nações unidas sobre o meio ambiente e desenvolvimento, p. 129.

45 SUNKEL, Osvaldo y GLIGO, Nicolo (Seleción) - Estilos de desarrollo y medio ambiente en la América Latina, p. 62.

46 DORST, Jean - La Nature Dé-Naturée, p. 187.

47 DIEREN, Wouter Van and HUMMELINCK. , Marius G. W. -Nature's price - the economics of mother earth, p. 85.

48 BUARQUE, Cristovam - A desordem do progresso, p. 129.

49 DALY, Herman - A Economia do Século XXI, p. 19.

50 BUARQUE, Cristovam - A desordem do progresso, p. 116.

51 DIEGUES, Antonio Carlos S. - "Desenvolvimento Sustentado, Gerenciamento Geoambiental e o de Recursos Naturais", p. 37.

52 PADUA, José Augusto e LAGO, Antônio - "A natureza das propostas alternativas", p. 18.

53 SIMMONET, Dominique - O ecologismo, p. 48.

54 DUPUY, Jean Pierre - Introdução à crítica da ecologia política, p. 34.

55 TIEZZI, Enzo - Tempos históricos, tempos biológicos, p. 170.

56 MOREIRA, Iara Verocai Dias - "Avaliação de impacto ambiental -AIA", p. 7.

57 CARVALHO, Paulo Gonzaga Mibielli - Meio ambiente e políticas públicas. a atuação da FEEMA no controle da poluição industrial, p. 24.

58 SUNKEL, Osvaldo - La dimensión ambiental en los estilos de desarrollo de América Latina, p. 13.

59 CHAUI, Marilena - Cultura e democracia, p. 29-30.

60 NISBET, Robert - História da idéia de progresso, p. 285.

61 PAPAIOANNOU, Kostas - La consécration de l'histoire, p. 67.

62 SCHWARTZ, Eugene S. - Cambios sociales, recursos y tecnologia, p. 51.

63 GLACKEN, Clarence J. - "O homem contra a natureza: um conceito desatualizado", p. 132.

64 MORIN, Edgar - Ciência com consciência, p. 48.

65 NOGUEIRA, Jorge Madeira - Op. Cit. p. 70.

66 CASTORIADIS, Cornelius - As encruzilhadas do labirinto, p. 144.

67 Idem, Op. Cit. p. 140-141.

68 ABDALLA, Mario Arrieta - "Política y ecologia en las formaciones económico-sociales americanas", p. 76.

69 PRADO JÚNIOR, Caio - História e Desenvolvimento, p. 15-16.

70 PEREIRA, Luiz Carlos Bresser - Desenvolvimento e crise no Brasil 1930-1983, p. 279.

71 BUARQUE, Cristovam - A Desordem do Progresso, p. 50-51.

72 GARAUDY, Roger - Ainda é tempo de viver, p. 184.

73 PERROUX, François - A filosofia do novo desenvolvimento, p. 18.

74 BURGUIERE, André - "A antropologia histórica", p. 150.

75 NISBET, Robert - História da idéia de progresso, p. 321.

76 MORIN, Edgar - Ciência com consciência, p. 48.

77 Idem - Op. Cit. , p. 31.

78 LUTZENBERGER, José - Gaia - o planeta vivo, p. 13.

79 MARCUSE, Herbert - A ideologia da sociedade industrial, p. 61-62.

80 ILLICH, Ivan - La convivialité, p. 28.

81 SACHS, Iguacy - "O meio ambiente humano", p. 396.

82 SACHS, Iguacy - Ecodesenvolvimento crescer sem destruir, p. 107.

83 DIEGUES, Antonio Carlos - "Planejamento e gerenciamento costeiro - alguns aspectos metodológicos", p. 12-14.

84 Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, Nosso futuro comum, p. 1.

85 Idem - Op. Cit. p. 46.

86 Ibidem - Op. Cit. p. 47.

87 Ibidem - Op. Cit. pp. 46-47

88 Clastres, Pierre - A sociedade contra o Estado, Passim.