Errante no campo da razão

Jozimar Paes de Almeida · Capítulo 22 de 36

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Errante no campo da razão

4. Dilemas da Tecnologia

Dilemas da Tecnologia

Na sociedade industrial, os produtos criados pela técnica caracterizam-se por afirmar uma racionalidade instrumental dos meios e dos fins. Eles implantam hegemonicamente relações mecânicas na sociedade, substitutivas de vínculos de amizade e companheirismo, componentes formadores da teia social.

O projeto tecnocrático de sociedade impõe aos indivíduos, que vivam de acordo com critérios planificados pela classe dirigente. São esses critérios que decidem sobre os espaços públicos: jardins, ruas, estradas, transportes, mercados. São esses espaços transformaram-se agora em obstáculos que devem ser ultrapassados o mais rapidamente possível, pois constituem um tempo-dinheiro desperdiçados que poderiam estar sendo utilizados pelo sistema.

As ruas passaram a ser espaços que devem ser transpostos o mais rapidamente possível, deixando de ser o espaço da fruição, do passeio a pé, do encontro inesperado, do “bate - papo” informal, dos flertes e do aconchego, atos de significações emocionais pelo sentimento de integração social às tradições culturais de um bairro ou de uma cidade.

É a decorrência de uma invasão antes já consumada no local de trabalho, onde o trabalhador exerce sua função sob uma disciplina e uma fiscalização rígida. Aí o tempo de atividade é aferido pela quantidade de peças produzidas. Suas necessidades fisiológicas, conversas entre amigos, deslocamentos na área de serviço e de tempo das refeições são computadas como prejuízo para a empresa, pelo tempo em que ocorre ausência da produção de peças.

A razão instrumental por calcular matematicamente quantidades, desqualifica a qualidade degradando-a. Ela ridiculariza as distinções dos seres e suas relações, transforma em objetos pobres de

significação os fenômenos a que dá sentido21.

A vida com seus laços de solidariedade, ócio, contemplação, amor, brincadeiras, angústia e dor, tomada, em suma, como local de autonomia, é desqualificada no cômputo da instrumentalidade.

Assalto este mais abissal e evidente é realizado pela bio-indústria que efetua a utilização da genética para a fabricação de seres em cadeia, objetivando um rendimento máximo do capital empregado, pela velocidade, peso e quantidade dos seres “produzidos”.

Animais são selecionados, padronizados, imobilizados em cubículos, engordados com hormônios, reproduzidos artificialmente para que sejam abatidos em menor tempo. Os vegetais passam por um processo semelhante e ambos os reinos da natureza perdem suas defesas às doenças, ficam frágeis em condições de mudança climática repentina, necessitam de cuidados constantes com

nutrientes, vacinas e biocidas 22.

A crença nesta racionalidade vigente promove a extinção de espécies vegetais e animais, destruindo a rica diversidade e multiplicidade de seres existentes. Ela faz desaparecer florestas, mangues, rios, montanhas aproveitando-os somente como recursos

no processo da produção industrial 23.

Contra esta agressividade técnico-social, poder-se-ia adotar como princípio o respeito aos ciclos ecológicos, utilizando-se mais freqüentemente da energia e dos recursos renováveis, poupando ao máximo os recursos não renováveis. Isso ocorreria privilegiando-se a produção de produtos que sejam: duráveis, de baixo consumo de energia em sua produção e funcionamento, de fácil manipulação e conserto, recicláveis e, por último, quando finalmente destruídos capazes de ser absorvidos pelo meio ambiente.

Esta nova forma de utilização técnico-social, estaria encarnada num processo produtivo radicalmente novo, seja na forma da organização pela participação eqüitativa, descentralizada e desalienante dos próprios produtores, como na diminuição da

dimensão das unidades de produção 24.