Errante no campo da razão
7. O dispêndio de energia na produção e consumo
O mercado capitalista concebe um acúmulo numerário infinito, porque adota o princípio matemático de cálculo econômico de quantidades, instrumento utilizado historicamente em nossa sociedade com a finalidade de contabilizar os fatores escolhidos (mercadorias). No caso, os números podem ser somados ao infinito, pressupondo que a cornucópia do meio ambiente nunca se esgotará de fornecer matéria-prima e energia e de receber o lixo da produção.
No entanto, esta projeção de uma produção e consumo ilimitado de
bens materiais se realiza em um mundo flexível mais finito36. Seus fluxos de reabsorção dos detritos industriais, atuam com uma velocidade inferior à requerida pelo sistema de produção vigente.
O dispêndio de energia na produção e consumo
O capitalismo tem requerido, até o momento, uma produção linear de mercadorias em quantidades e em rapidez com crescimento exponencial. No entanto, a produção da matéria natural é cíclica
obedece à uma velocidade natural, inferior à exigida pelo sistema 37, colocando em xeque o princípio de crescimento econômico adotado
neste modo de produção38 e 39 .
Para se alimentar, o homem utiliza em pequenas quantidades a energia solar captada pela fotossíntese há no máximo poucos anos. No entanto, seu carro a dispende em larga escala e em dois estados, líquida e gasosa. Quando líquida é o petróleo, energia acumulada há milhões de anos e quando gasosa pela queima na câmara de combustão do oxigênio originário da fotossíntese
diária 40.
A exemplo de comparação da eficiência energética nos meios de transporte, veja-se a tabela na página seguinte, resultado de um estudo sobre a intensidade energética, realizado nos EUA em 1984:
Intensidade energética41
Meio calorias por passageiros por
Km
Automóvel, um 1153 ocupante
Trânsito por ônibus 570
Trânsito por trilhos 549
Caminhada a pé 62
Ciclismo 22
Para se produzir em larga escala e intensivamente necessita-se de um grande dispêndio de energia, pela utilização de tecnologia altamente consumidora de força e criadora de poluentes.
Este dispêndio de energia situa-se também no processo produtivo, pela utilização de tecnologia altamente consumidora de energia e criadora de poluentes, produzindo materiais sintéticos ao invés de
utilizar-se de produtos naturais42.
Neste sentido, os países fortemente industrializados considerados desenvolvidos consomem muito mais energia do que o restante do
mundo43, apesar de possuírem um “quinto da população mundial, consomem quatro quintos das matérias primas comercializadas
internacionalmente”44.
Este desequilíbrio transparente de consumo de energia nos países, é apenas a ponta do iceberg, pois no interior dos mesmos estabelece-se uma estrutura organizativa de classes sociais, as quais consomem, poluem e sofrem os efeitos da poluição de forma diferenciada. Apesar disso, alguns efeitos são universais: aquecimento da atmosfera pela emissão de gases provenientes da queima de combustíveis fósseis, a destruição da camada de ozônio e a poluição do mar.
Contudo, a astronômica concentração de riquezas por parte da classe burguesa, teve como decorrência uma dispersão da miséria à maior parcela da população, que obrigatoriamente vive e trabalha na maior parte das vezes, em espaços insalubres. Por isso, esses trabalhadores ficam desnutridos, doentes e por não terem acesso à educação escolar, são analfabetos.
Enquanto a classe privilegiada tem condições econômicas de habitar, trabalhar e de se locomover nas condições mais seguras e saudáveis possíveis, detendo uma exclusividade na assistência médica, nutricional, jurídica, escolar e de toda uma gama de serviços considerados como privilégios, porque são acessíveis a poucos.
Quando o burguês está saciado por ter se enchido de: informação enlatada, carro do ano, roupa de grife, compras no “shopping”, amigos de interesse, ele entra em crise existencial, devido à este excesso de miséria materialista de vida, e para combater o stress parte em viagem de turismo pelo mundo afora.
Ao viajar consome massificadamente os patrimônios culturais da humanidade como se fossem produções homogêneas. Sua visão se retêm na superficialidade e na aparência, seu grau de cultura é medido unicamente pela quantidade de produtos -mercadorias vistos.
Na era do “fast-food”, inaugura-se o “fast-tur”. Na preocupação da velocidade para se atingir a quantidade perde-se a qualidade, a profundidade, o olhar detido e acurado. O obelisco egípcio fica amalgamado à paisagem de Paris, nem se realiza a mais simples indagação, sobre o porquê e como ele esta lá? O “consumidor de turismo” tem seu olhar prejudicado. Ele não notaria diferença se no lugar do obelisco estivesse a estátua do Cristo redentor!
A classe burguesa consome imensa quantidade de energia. Este gasto faraônico é um crime lesa existência, praticado em maior escala e apologeticamente por milionários, que se gabam de desfrutar o poder de, quando querem, rasgar os céus em jatos transcontinentais entre Nova York e Londres, apenas para tomar o chá da tarde.
Como tempo é dinheiro no capitalismo, os transportes têm que ser rápidos proporcionalmente ao poder aquisitivo de quem os desfruta. Isso acontece para que possam economizá-lo nos transportes, utilizando-os na mesma escala na produção, auferindo assim mais dinheiro. Este tempo conquistado poderá ser dispêndido inclusive,
em ócio45.
Gastar intensivamente a mercadoria-energia é a representação de uma distinção social. Afinal de contas, ela concede ao seu proprietário a condição de mostrar o seu “status”. Ele pode destruir mais recursos naturais do que algum desordeiro que estilhace algumas lâmpadas por desespero de sua miserabilidade econômica
46.
Esta rapidez fantástica de consumo de grandes quantidades de energia para se transportar ou produzir, coloca em evidência a estratégia da velocidade rias relações de produção da sociedade capitalista. Ela surge vinculada à idéia de progresso significando o aumento da rapidez na transformação da matéria bruta em
mercadoria47; representando uma relação historicamente determinada de orientação, definindo em valores culturais referências do que seja avançado e atrasado.
Desta forma, é exigido ao investimento de capital que circule do modo mais veloz possível no processo produtivo, desde a extração da matéria bruta, passando pelas atividades transformadoras em que são utilizados equipamentos tecnológicos, que obrigam e extenuam o trabalhador a acompanhar a rapidez da linha de produção, até a colocação do produto no mercado de consumo. Contrapontos da entropia ao tempo da produção