Errante no campo da razão

Jozimar Paes de Almeida · Capítulo 10 de 36

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Errante no campo da razão

CAPÍTULO II A Natureza Enquanto Entidade Histórica

Capítulo II – A natureza enquanto

entidade histórica

 

TERRA

De onde nem tempo nem espaço que a força mande coragem

pra gente te dar carinho

durante toda a viagem

que realizas no nada

através do qual carregas

o nome da tua carne

terra

terra

por mais distante

o errante navegante

quem jamais te esqueceria?

Caetano Veloso

Postulo que a questão ambiental surgiu devido aos problemas gerados pelo modo de produzir do sistema capitalista, que vem privilegiando apenas os valores de produção e reprodução do capital em detrimento da manutenção da dinâmica de funcionamento do meio ambiente. Para entender esta questão recorro inicialmente ao campo de conhecimento que estuda especificamente o funcionamento, da relação homem - natureza.

 

Origem e compreensões do termo Ecologia

Ernest Haeckel, biólogo alemão sugeriu em 1866 a criação, no campo da biologia, de uma nova disciplina científica. Esta deveria estudar as dinâmicas relações estabelecidas entre as espécies animais e o seu ambiente orgânico e inorgânico. Ao denominar esta inédita disciplina utilizou-se da palavra grega OIKOS (casa), formulando o termo Ecologia, compreendida portanto, etimologicamente, como a ciência da casa.

A Ecologia segundo minha compreensão é um campo de conhecimento que está fundamentado no estudo do funcionamento das relações estabelecidas entre as espécies bióticas e os elementos abióticos formadores de um ecossistema.

Compreendo o ecossistema como um complexo relacionamento desordenado, interativo, dinâmico e constante de energia e matéria nos meios físico, biológico e social, possuindo uma capacidade auto-organizativa e reprodutiva que permite a geração e manutenção da vida.

Em determinados momentos a Ecologia pode privilegiar estudos sobre processos voltados totalmente às correlações fisio-bio-químicas de organismos vivos, os quais não receberam influências humanas para alterar suas características principais.

Os elementos naturais que integram e formam esse complexo são constantemente reaproveitados em ciclos vitais, gerando um equilíbrio auto-regulado, inclusive quanto a temperatura (homeostase), pela ampla diversidade de elementos e pela interdependência entre eles.

Este complexo não pode ser reduzido simplesmente a uma análise particulatizada dos fatores que o integram, mas deve ser entendido por inteiro, isto é, tomando-se em conta todos os elementos que o

compõe 1.

Em um ambiente fechado quando há rupturas em seu movimento, surge o perigo evidente de destruição do mesmo. Nesse sentido, o homem e suas atividades, ambos determinados historicamente e imersos no meio ambiente, podem contribuir para aumentar as probabilidades deste evento ao explorá-lo a uma velocidade ou

intensidade que quebre a sua estabilidade. 2 e 3 Estabilidade do ecossistema não significa imutabilidade, mas sim o seu funcionamento sob condições propícias. É através do maior número possível de interligações quimio-fisio-biológicas provedoras do fluxo de energia e matéria no ecossistema, que se apresentam

as condições de permitir a continuidade do ciclo da vida. 4

Uma interação entre todos os elementos que compõem o planeta e mais a distância, a intensidade e incidência de raios solares e cósmicos, constituíram, por acaso, há bilhões de anos as condições de existência dos primeiros seres vivos que, multiplicando-se e estabelecendo relações desordenadas entre si, ocuparam a Terra. E por isso que a natureza não deve ser entendida como sinônimo de

ordem e de sentido obrigatório. 5

A concepção de ordenamento e sentido obrigatório da natureza está contida em pressupostos de valores culturais nota-se a ocorrência do acaso na constituição da natureza, ao mesmo tempo que se percebe um certo ordenamento. Por exemplo, no processo cíclico da vida, existe alguma perspectiva de ordenamento dada pela cadeia alimentar, que se realiza através dos organismos vegetais -autotróficos os quais produzem matéria orgânica por intermédio da luz solar captada pelas plantas na fotossíntese ou quimiossíntese e com a absorção de matéria inorgânica.

Esta servirá de alimento para os animais herbívoros, que, por sua vez, servirão de sustento aos carnívoros e todos quando mortos serão comida dos decompositores. Estes são Majoritariamente compostos por microorganismos, que reconduzirão ao sistema os

elementos que integravam a matéria inorgânica.6 Tem-se assim uma visão de ciclos ordenados, que não representam necessariamente a totalidade do processo dinâmico interativo que ocorre no planeta.

Poder-se-ia usar continuamente argumentos dicotômicos para justificar uma determinada análise, simplificando a problemática que preceitua, por exemplo, que ordem é positivo e desordem é negativo, ou vice-versa.

No entanto, pretendo problematizar a questão abrindo o campo de compreensão com uma reflexão, que possibilite entender melhor os múltiplos elementos inter-relacionados, dançando freneticamente no baile da vida. Desta forma faz-se necessário tentar refletir para além do bem e do mal compreendendo que as oscilações aleatórias corpusculares, como um certo ordenamento cíclico dinâmico, interagem constantemente no fluxo dos elementos primordiais: matéria e energia.

A Ecologia enquanto ciência tem como princípio o argumento de que tudo está relacionado com tudo. Entretanto, em determinadas pesquisas existe uma ênfase mais profunda dos aspectos naturais -funcionamento da natureza ou sociais - atuação das sociedades humanas com a natureza.

No decorrer do século XX, esta disciplina científica ampliou o seu campo de influência não se restringindo mais apenas ao campo das

ciências naturais e atingiu também as ciências sociais7, 8 e 9. Como o ecossistema abrange o mundo natural, e o homem dele faz parte, pode-se inferir que neste processo dinâmico o ecossistema é uma relação social, pois está intrinsecamente integrado às ações humanas.

A Ecologia quando enfatiza as relações estabelecidas entre o homem e a natureza, recebe a denominação de Ecologia Humana. Da aplicação orientada deste conhecimento na sociedade, deriva a Ecologia Política.

Pode-se explicar esta interação através do entendimento do dinamismo e da complexidade dos sistemas naturais, os quais por sua vez estão intrinsecamente ligados às formas de como a sociedade humana estabelece as suas relações e modos de produção. E isto que as diferenciam no processo histórico.

A visualização ecológica da relação homem-natureza, contribuiu na constituição de um pensamento político, que se posicionou criticamente as consagradas estruturas de produção, degradadoras do ambiente.

A Ecologia Política surge enquanto fruto emergente deste processo, que ao utilizar-se das concepções ecológicas, proporciona o surgimento de uma dimensão crítica diferente à sociedade

industrial 10: reconhecendo o homem enquanto portador de desejos e valores culturais e não meramente como um mecanismo na engrenagem da maquinaria, opondo a noção de melhor Ser à do mais Ter, questionando a natureza e o desenvolvimento dos meios

de produção 11, contrapondo a dimensão incalculável da vida ao reducionismo econômico, criticando o fato de que neste sistema se vive para produzir, e não mais se produz para viver.

Para situar o movimento ecologista em sua constituição política,

utilizo-me agora das análises de Eduardo Viola12, as quais destacam quatro posições: ecologistas fundamenta listas, ecologistas realistas, eco-capitalistas e eco-socialistas.

Não existe dilema entre estas posições no que se refere à opção entre ecologia ou predação. No entanto, no que tange ao dilema capitalismo ou socialismo temos ai um confronto direto, de um lado os eco-capitalistas que pressupõem a solução dos problemas ambientais através do mercado e da técnica e, do outro, os eco-socialistas advindos do socialismo revolucionário, que pressupõem a organização de uma sociedade autogestionária para resolver os problemas ambientais.

Os eco-socialistas criticam tanto a liberdade de mercado quanto a centralização planificada tecnofacista e apresentam como alternativa, a democracia direta e descentralizada produzida autonomamente pelos homens. Eles apregoam que o produto social criado pelos trabalhadores, por eles seja controlado, proporcionando um desenvolvimento social com qualificações ecológicas que redundem em melhor condição de vida ao homem, com saúde, educação, habitação e tempo de lazer para todos.

Os ecologistas fundamentalistas resistem à participação do jogo político institucional, querem preservar a pureza do movimento na crença de que uma força transcendental resolverá as questões.

Os ecologistas realistas pretendem estender o movimento, formulando um programa econômico de transição viável, levantando em consideração setores liberais, social-democratas e socialistas.

Os movimentos ecológicos situados à esquerda no jogo político tradicional, que são, no entanto, adversários da esquerda institucional, já que esta não abre mão da proposta do crescimento

econômico, o qual traria resultados opostos ao desejado 13, são considerados portadores de valores universais, por ultrapassarem

barreiras de sexo, classe, raça e nação14. Estes ecologistas pretendem a construção de uma sociedade com os princípios de diversidade, policentrismo, pluralidade, justiça, liberdade sem

utilização do aparato estatal 15.

Estes esclarecimentos sobre a Ecologia são importantes, pois confusões de entendimento do termo podem vir a ocorrer no desenrolar da pesquisa. Citarei como exemplo o caso da Ecologia tomada como objeto de estudo, como ciência, e como agente transformador (política). As interpretações sobre este conceito devem ser feitas de acordo com o teor discursivo em que ele está incluído. A minha intenção é demonstrar o significado específico dentro do próprio contexto em que é utilizado.

Quando me refiro às relações estabelecidas entre História e Ecologia, entendo a Ecologia como um corpo histórico de significações, objeto de estudo, que vez ou outra corresponde à uma estratégia do conhecimento ou à aplicação deste na sociedade. O empreendimento de se compreender a ciência natural ou a própria natureza é dependente diretamente do conhecimento

histórico16.

Como exemplo desta dependência temos o recurso natural, entendido como a parte da natureza explorada pelo homem em um determinado momento e local, usado de acordo com as condições tecnológicas e o desejo de utilidade por parte de uma dada

sociedade, portanto é determinado historicamente 17.

No caso da significação da palavra Ecologia, esta pode ser compreendida em diversas formas, por exemplo quando estende a sua representação ao seu próprio objeto de estudo: “a ecologia do cerrado está sendo demasiadamente explorada”. No meu entender, esta frase representa a intenção de dizer que o funcionamento do meio ambiente no cerrado está se alterando tão drasticamente, que coloca em risco os ciclos naturais de manutenção da vida naquele ecossistema.

Desta forma adoto como sendo esta dinâmica, o campo de estudo da Ecologia, a qual devidamente interpretada transforma-se em um conhecimento sobre o mesmo e não o seu próprio objeto de estudo, pois não se pode retirar minérios da Ecologia, no entanto com a sua compreensão consegue-se explorar minerais do meio ambiente degradando-o minimamente.

No que concerne a compreensão de natureza e de meio ambiente, considero que são conceitos que entrelaçam-se mutuamente. Desta forma pretendo que sejam comumente entendidos, entretanto para não fugir de uma possível distinção, aponto apenas o que poderia distingui-los em determinadas ocasiões, o que não importa nesta análise em entendimentos diferenciados de ambos.

Entendo o conceito de meio ambiente como o conjunto de todos os elementos contidos em um espaço que foram substancialmente alterados pelas atividades humanas, com vistas à uma utilização determinada, ou os efeitos decorrentes desta alteração. Neste sentido pode-se entender: a cidade, a represa, a estrada, o campo agrícola, as florestas, o oceano e, porque não dizer, todo o planeta? Tome-se, por exemplo, o buraco na camada de ozônio.

Paira no ar uma indagação: se atualmente todo o planeta pode ser entendido como meio ambiente, o que resta para a natureza? Como esses conceitos não são excludentes, pode-se afirmar que a natureza permanece intrinsecamente em todo elemento que compõe o universo (natureza cósmica).

Portanto, entendo a natureza como a essência constituídora e relacional de todos os elementos animados e inanimados, que transitoriamente podem vir a sofrer alterações efêmeras ou permanentes provocadas por ela mesma, ou através do homem e de suas ações. De fato a natureza compreendida pelo homem movimenta-se no tempo e no espaço de forma ativa e passiva, indissoluvelmente ligada e formadora da composição substancial

humana 18.

Pretendo me resguardar de uma visão antropocêntrica, considerando que qualquer idéia de natureza também é histórica, produzida pelos homens, mas não a sua existência em si, já que ela existia antes do surgimento dos homens e continuará existindo enquanto durar o universo.

Em algumas ocasiões a idéia de natureza pode se constituir em uma barreira para a compreensão do real, um mundo ordenado e complicado segundo valores e normas culturais, que ocultam uma

vida caótica e simples 19.

É importante ressaltar a uma vez que as idéias de natureza e de meio ambiente são culturais, sendo uma criação humana instituída pelas relações sociais e, desta forma, seu entendimento varia

historicamente de acordo com a cultura que a inventou20.

Na verdade, o relacionamento do homem com seu ambiente é

equacionado no bojo de relações sociais historicamente

determinadas21.

Nesta pesquisa, os aspectos sociais serão privilegiados devido à ruptura drástica da estabilidade do ecossistema pela sociedade, que, através de seu modo de produção, desestrutura em grande escala o funcionamento do ecossistema quebrando ciclos bio-geo-químicos que permitem uma reciclagem e uma produção constante dos elementos naturais, desestabilizando cadeias alimentares e mecanismos de troca energética que se formaram e se transformaram no decorrer de milhões de anos.