Errante no campo da razão
4. A produção humana e o meio ambiente
A produção humana e o meio ambiente
A produção humana é uma atividade que Orienta uma aplicação de energia determinada na natureza, através de um processo dialético gerado pelo trabalho, dando forma tanto à matéria natural exterior ao seu corpo, como também transformando-se corporal e mentalmente num processo dinâmico e reflexivo.
O trabalho humano, atividade orientada e transformadora da matéria natural, faz com que a natureza adquira uma forma específica, segundo as intenções de seu criador tendo uma utilidade de acordo com os valores sociais e durabilidade concernentes à sua própria constituição material e forma de utilização.
Abro aqui um parêntese para colocar um exemplo que concerne a durabilidade dos produtos criados pelo homem. Todos, desde os mais rapidamente degradáveis - o sabão, como os de longa duração- substâncias atômicas, que mesmo sendo as mais duradouras -milhões de anos, se degradam.
No processo simultâneo de criação-modelação destes produtos, o próprio criador se modifica metabólica e mentalmente, adquirindo entendimento e experiência neste movimento de transformação
instantaneamente reflexivo22.
Os objetos materiais e ideológicos que o homem produz, podem vir a se transformar, em determinados momentos, em ídolos a serem cultuados: o carro do ano, a peregrinação ao santuário, a racionalidade dos fins, ou o ídolo da época.
Estes momentos fazem parte de um processo denominado por Marx de fetichização, no qual o artífice perde a compreensão de ser ele o produtor do ícone, a criatura volta-se contra o criador oprimindo-o em todos os aspectos. Se este resistir a idolatrá-lo, poderá perder a liberdade relativa do sistema, ser catalogado e internado em um hospício como louco. Só assim ele poderá alcançar a liberdade mental sem peias, destrambelhando as porteiras do espírito dionisíaco.
Como crianças brincando de construir castelos de areia na praia, delineamos as formas imaginárias na matéria natural. A cada sopro de vento e deslocamento dos microscópicos grãos de areia, o castelo se modifica, transformando reciprocamente a imaginação, num ciclo intermitente de reestruturação do pensamento e da forma.
Com os sentidos voltados a desvendar a escuridão do inesperado, sorrisos estampam as faces destas crianças, água, sal e barro, moldados pelo sopro da vida, moldando-se em suas histórias de vida, lúbrico brincar e gostoso especular.
Ao enformar a matéria natural, a produção imprime nela uma dominação social, estabelecendo um traçado no território, controlando fluxos de energia, selecionando espécies animais e vegetais, construindo ambientes regidos por normas sociais. Enfim,
a atividade humana estabelece uma ordenação no meio ambiente 23, segundo sua cultura e instrumental tecnológico.
Quando analisamos a crise ambiental através da ótica das relações sociais que fundam um modelo de produção, ela perde o seu caráter
de neutralidade 24. Inicialmente ela se apresenta como se não estivesse vinculada de nenhum modo à interesses de grupos ou classes sociais. Depois de uma verificação mais acurada, vislumbra-se que é uma crise no modo de vida pelo desgaste desenfreado dos recursos naturais e da espoliação massacrante da força humana
material e intelectual exaurida no processo25.
A relação entre produção humana e meio ambiente é reflexiva. As alterações que ocorrem no meio ambiente atingem diretamente o homem e como exemplo bem claro disso têm-se a poluição. No processo de apropriação do meio ambiente, geralmente não se protege os ciclos naturais, o que os impede de continuarem funcionando eficientemente. Isso ocorre, devido a imensa
quantidade de detritos acumulados 26, estrangulando a capacidade de degradação e absorção dos mesmos e pelo esgotamento dos recursos naturais explorados em alta intensidade e velocidade.
Nesse contexto, o ser humano é entendido apenas como uma peça mecânica na engrenagem da máquina produtiva, expropriado de seus meios de auto-subsistência é obrigado a vender a sua força de trabalho. As tarefas que lhe são atribuídas consistem, na maioria das vezes, em repetições rápidas e precisas de uma mesma função na linha de produção, operando máquinas é subjugado às suas
especificidades27, impondo-lhe um ritmo de trabalho mecânico. Quando se desgasta-envelhece ou ainda quebra-adoece será facilmente substituído no mercado da força de trabalho.
O trabalho tomou-se aí uma necessidade para o sistema.
O seu pressuposto ético apregoa que o homem melhora a sua vida e a da comunidade através da medida em que exerce o seu labor. Quem não o exercita é qualificado como um inútil e toma-se um risco para a ordem.
Sabe-se agora que é perfeitamente possível, através da tecnologia, trabalhar menos e viver mais e melhor pela existência de possibilidades abertas de transformar o trabalho em uma atividade prazerosa. Para isso deve-se criar produtos que não sejam destruidores, nem descartáveis. Trata-se de uma defesa do trabalho, mas do trabalho gestado pelo seu autor e aplicado segundo o que julga melhor, nas múltiplas esferas de atividades da vida social. Enfim, postula-se que é o trabalho que cria os produtos
e não a produção que cria o trabalho28.
Uma defesa cega do trabalho pela ótica da justificação da necessidade do emprego, não leva em conta a continuidade da expropriação e da espoliação do trabalhador. Ajuda mais, não se interessa pelas condições de trabalho realizado, nem pelo produto produzido. Ele pode ainda significar a existência de torturadores e a permanente produção de máquinas e instituições de opressão e extermínio.