Errante no campo da razão

Jozimar Paes de Almeida · Capítulo 27 de 36

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Errante no campo da razão

10. Redefinindo o progresso

culturas71. O vencido é completamente derrotado quando se vê atrasado, fraco, feio, ignorante e perde mais ainda no torneio por aceitar as regras confeccionadas pelos dominantes: é a submissão absoluta.

Este trajeto colonizador moderno não foi pacífico.

Baseou-se em conquistas através do chumbo, da escravidão, do saque ao meio ambiente e da disseminação dos ideais do colonizador. Configura-se contemporaneamente em ebulição uma outra dominação moderna. Ela se baseia na criação de instrumental técnico pela racionalidade hegemônica vigente da bioindústria, da informação, da telemática, da engenharia genética. Caracteriza-se por uma perseguição permanente para o domínio e controle do homem, do tempo, do espaço e dos recursos que compõem as relações sociais de produção e do modo de vida.

Deve-se contestar a legitimação de uma noção pretensamente universal e totalizante de um determinado desenvolvimento e progresso, já que as experiências e necessidades das sociedades

são diversas devido às múltiplas culturas existentes 72 e 73 .

Os historiadores devem em parte à antropologia pelo respeito à pluralidade das experiências culturais dos diversos povos, o início do questionamento de uma concepção linear do desenvolvimento

histórico74 Eles estão registrando como uma característica principal

deste século a renúncia à esta crença75.

 

Redefinindo o progresso

A noção de progresso linear e irreversível deve ser redefinida pela complexidade que carrega em si; pois se progredir significa ordem, organização, o que ocorre predominantemente no universo é a regressão como fator determinante pela desordem, pela desorganização, pela agitação, pela dispersão, e pela degradação -

entrópica crescente da energia76.

O progresso é uma face do devir, este conjuga vida e morte de indivíduos, de espécies, de planetas, de sóis, de galáxias, enfim do cosmos. “O progresso das certezas científicas produz, pois um

progresso da incerteza.”77

Esta redefinição do progresso envolve uma aceitação na existência humana de fenômenos aleatórios que fazem parte do cotidiano humano, ao mesmo tempo em que valoriza os fundamentos funcionais dos fluxos da biomassa energética e busca representar

como progresso o sentido de acréscimos de felicidade78.

A redefinição do próprio conceito de progresso e de desenvolvimento e sua aplicação na sociedade, implica necessariamente na transformação da sociedade que o criou. Esta não é uma concepção abstrata e geral, mas sim concreta e historicamente determinada, convulsionada por classes em conflito para decidir o sentido da História.

Este conflito não elimina perspectivas dominadas do estabelecimento de uma outra sociedade reelaborando os significados de desenvolvimento e progresso. Ela poderia ser viabilizada através da eliminação da monumental opressão social e da natureza e alem da possibilidade de se realizar em áreas onde os recursos naturais se tomem livres e comuns e que possam, ainda, atender as necessidades de subsistência da população.

Em regiões devastadas uma tecnologia incorporada à cultura local poderia reconstituir o potencial perdido e as populações autogestionarem diretamente as atividades produtivas, controlando o seu ritmo e direção. O trabalho teria condições de deixar de ser

opressivo transmutando-se em prazer79.

Estas possibilidades abertas, apesar de serem de dificílima instauração podem permitir à população o exercício da democracia direta enquanto forma de poder direcionador da sociedade. Fatalmente ocorreria aí uma reelaboração das relações de produção e suas técnicas.