Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3
Balada
Começava a me preocupar com minha sanidade mental. Não estava bem. Só podia estar enlouquecendo e não haveria rotina ou corrida nas montanhas que pudesse me salvar de mim mesmo. A primeira amostra de minha loucura estava na obsessão por Lara e pela água-marinha. Fisicamente ainda podia lutar contra, ainda tinha o controle sobre meus braços e pernas, mas minha cabeça fervia incansável.
A segunda prova de que minha mente estava me pregando peças eram as sensações estranhas que passaram de internas para externas. Estava sentindo ventos repentinos. Ora brisas, ora ventanias. Não adiantava dizer a mim mesmo que era físico e que provavelmente alguma janela ou porta aberta permitiu que o sopro entrasse. Estaria mentindo. Eu os sentia nos momentos e nos lugares mais improváveis.
Primeiro, ontem, durante o almoço com o publicitário e o jantar com o alto executivo. À tarde foi um vento frio e assustador. À noite, uma brisa agradável. Porém, estávamos em lugares muito bem fechados e longe do ar condicionado.
Voltara para casa meio perdido, com vontade de me esconder, mas como é possível se ocultar de si mesmo? Não tinha para onde fugir de minha própria mente. Só dentro dela e ainda assim correria um risco maior ainda.
Uma distração nada agradável desviou meus pensamentos. Um objeto roliço estava caído ao lado de minha cama. Não o havia visto antes. Não precisei chegar muito perto para identificá-lo. Era um batom. Enquanto me debruçava para apanhá-lo, me lembrava do que fizera para a dona daquele cosmético. Tirei o aparelho telefônico do gancho e teclei o número da floricultura que estava no meu celular. Encomendei um grande buquê.
Enquanto aguardava, sentei-me em minha escrivaninha e tentei escrever um bilhete de desculpas, mas era difícil escolher as palavras certas. Afinal, minha atitude não tinha justificativa. Contentei-me com poucas palavras:
“Q uerida Michele, me desculpe por ontem.
Aquele não era eu. Amigos para sempre? Nicolas.”
Fiquei satisfeito pela objetividade e sinceridade e só tinha que torcer para que ela pelo menos aceitasse recebê-lo. O interfone tocou e fui até a cozinha atender. Antes que o porteiro anunciasse, vi o entregador com o grande buquê nos braços pela câmera de vídeo. Tirei o aparelho do gancho, ouvi e respondi que já estava descendo.
Anotei apressadamente o endereço de Michele em outro papel, peguei o batom e o bilhete e saí do apartamento. No elevador, percebi que estava agitado e ansioso e que aquele fora um longo e triste dia. Entreguei os objetos ao entregador, mais uma gratificação para que deixasse tudo nas mãos de Michele e voltei para meu casulo.
Encolhido em posição fetal, fiquei por muito tempo deitado em minha cama, pensando.
Pensei tanto, mas não cheguei a lugar nenhum. Só estava piorando meu estado de espírito. Eu me sentia cada vez mais frágil e vulnerável, bem eu que sempre fui dono de mim mesmo. Dono da situação. Giovani chegou em casa e me encontrou ainda do mesmo jeito. Tentei me recuperar para que não percebesse, mas foi praticamente impossível. Passei então a me esquivar de suas perguntas.
– O que está acontecendo com você, Nicolas? – enfureceu-se.– Para de mentir para mim porque te conheço muito bem. Nunca te vi assim.
Mas como poderia explicar? O que poderia dizer sobre a verdade? E para quê? Para ele confirmar meu estado mental? Não, não poderia ver seu rosto horrorizado. Preocupado já bastava.
– Hoje não foi um bom dia – respondi evasivo. – Só isso. Não se preocupe.
Meu celular tocou, o que me salvou do interrogatório. Era Michele agradecendo pelo presente e pelo batom. Ela amava aquela cor e foi tão difícil de encontrar. Também disse que estava tudo bem entre nós. Que não tinha porque me perdoar.
Eu me concentrei em todas as bobagens que ela me dizia, opinando de vez em quando. Isso afastou Giovani completamente. E fiquei fechado no quarto o resto da noite, tentando me recuperar.
Ao acordar constatei que o isolamento fora inútil. Precisava de distrações. Por mais que seguir a rotina não funcionasse, ainda assim me ajudava a não pensar o tempo todo. Duas reuniões no dia reforçaram minhas preocupações quanto minhas percepções imaginárias do sopro de um vento. Eu me perguntava porque ar, mas resolvi focar no trabalho e simplesmente ignorar o resto.
Não seria o mais sensato, mas no momento era o mais adequado. Era o único jeito de continuar vivendo sem que ninguém percebesse o quanto estava perturbado. E me lembrei que na noite passada acordei assustado de um pesadelo. No sonho, minhas preocupações e medos adquiriram formas físicas e me perseguiam insistentemente, garantindo que não me deixariam viver em paz, que fugir delas só não me faria enxergar o óbvio.
Despertei antes que aquelas assombrações pudessem me dizer algum absurdo. Não queria respostas insanas. Precisava de lógica. Realidade. Não seria um pesadelo que as trariam de volta a minha mente.
Correr também dera os resultados de sempre e assim segui o dia, tentando parecer normal. Giovani me encontrou depois de anoitecer e percebeu que estava melhor só de olhar para mim sentado na sala, assistindo televisão.
– Balada hoje? – perguntou logo depois de me cumprimentar.
– Com certeza – respondi animado. – Primeira parada Triângulo das Bermudas.
O Triângulo das Bermudas compreendia o trecho entre duas ruas na Praia do Canto. Os animados bares da região recebiam os boêmios da cidade para o ‘esquenta’ antes de se aventurarem para as boates, nas noites de sexta e sábado.
Morar na Enseada do Suá, além de ser localizado na região nobre da cidade, estava perto das melhores baladas. Saíamos de carro pelo conforto e comodidade e para buscarmos ou levarmos as garotas. Às dez horas deixamos o prédio no carro de meu amigo. Se não fosse pelo caso de irmos buscar Milene em Vila Velha, em cinco minutos estaríamos no bar onde marcamos o encontro com os outros.
Pegamos a terceira ponte. A noiva de meu melhor amigo não morava muito longe. Assim que cruzamos a baía e passamos pelo Convento da Penha, já chegamos à Praia da Costa, bairro de Vila Velha onde a moça morava.
Os olhos claros de Milene contrastavam com o rosto bronzeado e marcante, típico de uma legítima ítalo-brasileira. Os cabelos castanhos estavam lisos e soltos nas costas nuas. O vestido tomara que caia curto encaixava-se em seu corpo.
Sabe aquela lenda que diz que mulher de amigo meu é homem? É mentirosa! Eu não era cego. A noiva de Giovani era linda e não podia deixar de admirá-la, mas claro que não a cantaria, ao menos enquanto eles estivessem juntos, evidente.
Ele parou em frente a um estacionamento privado onde deixamos o carro. O lugar estava entre o bar e a boate, onde terminaríamos a noite. Quando permitiram a passagem, entramos e paramos em uma vaga. Partimos a pé pelas ruas da Praia do Canto. Fiquei distraído com o cenário. Não porque fosse novidade para mim. Mas a noite estava muito clara e podia ver todos os detalhes com a mesma nitidez de um dia ensolarado.
Também podia ver mais distante. Normalmente a noite trazia dificuldades, mas não naquela. Olhei tudo em volta como se fosse a primeira vez, porém sob uma nova ótica.
Se já apreciava a noite, a partir daquele dia gostaria mais. Tudo tinha um toque de beleza e mistério, características que apreciava também em uma mulher. As óbvias duravam apenas o tempo de um beijo. Por mais pegador que fosse, tinha minhas exigências, principalmente quando o assunto era amor. Não era uma pessoa fechada para esse sentimento, porém ninguém ainda havia me despertado para ele.
O único que conhecia de verdade, meu comparativo, era o que sentia por meu pai. Sabia que o sentimento por uma mulher era diferente de muitas formas, mas acreditava que a intensidade e a profundidade seriam as mesmas. Amava minha mãe. Não era um insensível. Porém nossa falta de afinidade e convivência pacífica atrapalhou a intensidade desse sentimento. Portanto, sentia muito mais falta do meu pai do que dela.
E também amava meus amigos, de uma maneira franca e aberta. Era praticamente a extensão de um lar para mim. Como uma grande família repleta de irmãos e irmãs que nunca tive de verdade por ser filho único. Esses amigos eram um tipo de família que crescia desenfreadamente na minha vida. Era bom e agradável. Aonde quer que fosse, encontrava alguém com quem podia contar, tanto na vida pessoal quanto na profissional.
Pensando neles, avistei os inseparáveis Augusto e Leandro, Daniela e Michele, sentados em uma mesa no primeiro bar da rua. Ainda estávamos a cem metros de distância, mas pude reconhecê-los.
– Veja quem está ali, Giovani – chamei a atenção do meu melhor amigo.
Eu o vi tentar enxergar com grande esforço. Somente depois de vários metros, finalmente conseguiu vê-los. Ri muito e fiz chacota dele.
– Está precisando ir ao oftalmologista!
O grupo à mesa também não nos tinha percebido até que estivéssemos a apenas alguns passos. Todos se ergueram ao mesmo tempo, aumentando a algazarra ao redor. A calçada estava lotada de gente. Michele veio direto até mim e me deu um beijo no rosto cheio de intenção. Estava mesmo perdoado, mas não ousaria magoá-la novamente. Chegava de amizade colorida com a moça. Apesar de que ela estava linda.
Tudo para mim estava diferente. Mais acentuado. Tudo que era bonito estava lindo e tudo que era mais ou menos estava bonito. Passei as duas horas seguintes tão distraído e contente que em nenhum momento pensei em minhas perturbações.
Admirava a beleza em geral como um presente. A beleza do céu, do mar, da mata, das cidades, das mulheres. Era atraído para o belo como uma abelha no mel e estava enfeitiçado pelo encanto daquela noite.
Fomos para a boate aos pés de um dos morros da cidade. Sua estrutura diferenciada e ampla proporcionava conforto e requinte às duas mil pessoas que comportava bar, choperia, boate e petiscos. A casa estava cheia. Muitos corpos jovens, bem-vestidos e alegres espalhados pelos salões temáticos. Era um desfile de hormônios, penteados modernos e grifes nacionais e internacionais.
Observei o lugar maravilhado, como se fosse a primeira vez que estivesse ali. Os detalhes da decoração, os garçons, os bares, os palcos e o público. Vislumbrei os rostos descorados ou coloridos sob o efeito das luzes que rodavam o salão.
As vozes ao meu redor eram nítidas, porém indecifráveis. Não estava prestando atenção ao que diziam, apenas aos seus tons diferenciados. Percebi vários sotaques, inclusive de outras localidades do Brasil e até outros países.
Reconheci diversos rostos, mas não me prendi em nenhum. A batida da música, os corpos dançando na pista, os copos com bebida gelada eram hipnotizantes. Amava aquele clima. Para mim, era a face da descontração e da jovialidade.
Em meio àquela multidão de corpos – um aglomerado que meus sentidos não identificaram, inclusive o grupo de amigos ao meu redor –, reconheci um rosto, muito mais perfeito do que na minha lembrança, que ganhou toda minha atenção.
Aquelas feições estiveram constantemente à tona dos meus pensamentos na última semana. Havia feito de tudo para evitá-la nesse período. No entanto, o destino quis que a encontrasse por acaso. Permaneci tão fixo e parado no lugar que poderia ter passado por uma estátua. Havia uma distância considerável entre mim e o objeto de minha admiração, porém podia ver nitidamente cada detalhe que o compunha.
Uma pele mulata e firme, sedosa aos olhos e macia às mãos. Um conjunto de cachos castanhos pequenos coroava o rosto de feições belas, olhos caramelos e boca sedutora. O corpo sexy revestido com tecido que só valorizava suas curvas.
Minha língua coçava para balbuciar seu nome. Com a visão periférica, percebi que havia mais duas pessoas com ela. Um homem e uma mulher. Não me preocupei em saber quem seriam. Meu foco era a linda mulher.
Meu coração batia diferente enquanto olhava para ela. Em seu peito, a bela pedra azul-esverdeada cintilava docemente presa a um cordão dourado. Ambos contrastavam com a cor de sua pele.
Despreparado como estava para aquele encontro, não pude conter minhas pernas e me movi com dificuldade entre a multidão que se formara entre nós. Pensei ter ouvido Michele me chamar enquanto me afastava do grupo de amigos.
Ela ria descontraída conversando com os amigos que a acompanhavam, bebericando vez ou outra sua bebida. Fiquei satisfeito ao ver que não percebia minha aproximação. Simplesmente não estava pensando. E assim seria melhor depois do estado psíquico lastimável em que me encontrava. Apenas seguia um instinto forte e intenso que me puxava em sua direção.
A distância não parecia longa para meus pés rápidos, mas cruzei vários metros até ficar a um passo dela.
– Lara – permiti que seu nome explodisse para fora de minha boca, o tom tão delicado como uma carícia apesar de precisar aumentar naquele barulho.
Seus olhos dourados se viraram para mim em chamas. Eu me perdi neles encantado com seu brilho intenso. Sentia-me tão satisfeito como se meus olhos tivessem vida própria e finalmente vissem seu maior anseio.
Não deixava de ser o que eles desejaram nos últimos dias. Meu corpo inteiro se voltava para ela agora, como atraído por um imã, uma força gravitacional impossível de resistir. Não importava mais a luta mental que tivera para evitá-la.
– Nicolas – seus lábios se moveram em um sussurro quase inaudível.
Eu me arrepiei inteiro ao ouvir meu nome através de sua voz e sorri. Teria muito do que recordar depois que nos separássemos. Ao pensar isso, senti uma dor no peito estranha e soube que não queria me separar dela. Não antes que pudesse gravá-la mais na memória. Tudo nela me interessava.
– Como você está? – cumprimentei com um sorriso aberto.
– Bem – respondeu timidamente e depois com uma risada, acrescentou. – Surpresa também, mas não deveria já que moramos na mesma cidade e frequentamos os mesmos ambientes.
– Você tem razão e acho que por isso mesmo deveríamos nos encontrar mais – respondi descontraído. – Afinal, faz uma semana que não te vejo.
Lara paralisou, surpreendida novamente. Não sabia bem o que estava ditando minhas palavras, mas não eram guiadas pelos pensamentos contrários que me perseguiram durante os últimos sete dias. Um dos dois lados havia vencido.
– Você poderia ter me ligado – suas palavras em um tom levemente acusatório.
Mas sorri diante da prova de que ela também queria me reencontrar. E me enchi de uma esperança nova e desconhecida. O que queria, afinal? Só tinha certeza de uma coisa naquele momento, não tinha pressa de me afastar dela.
– Não tenho seu número – retruquei e acrescentei ao perceber que ela já tinha uma resposta para isso –, mas sabia onde te encontrar, não é verdade?
Lara sorriu sem mostrar os dentes. Uma expressão tão tímida e meiga que me senti diante da adolescente de quinze anos que conheci há muito tempo e por quem me apaixonei.
– Então, não vai me apresentar a seus amigos? – perguntei.
Desconcertada, Lara gesticulou desajeitadamente.
– Ah, claro – exclamou. – Carla e Alessandro, esse é Nicolas. Eles trabalham comigo no departamento de comunicação da Vale.
Ambos eram baixos, comparados a mim que tinha quase um metro e noventa de altura, mas o rapaz era franzino e descabelado. Vestia-se de maneira despojada e moderna. A barba escura por fazer tinha falhas no rosto e para salientar sua aparência pitoresca, usava óculos de grau e um chapéu de aba curta.
A moça era pequena e cheinha, com olhos inteligentes e observadores. O cabelo era claro e cacheado e descia pelos ombros. Também se vestia casualmente e um pouco largado para uma mulher, mas no geral tinham a aparência da juventude, atual e original, do tipo que segue um estilo próprio.
– É mesmo?-perguntei. – Vocês também são publicitários?
– Sim – respondeu Alessandro. – Sou designer.
– E eu jornalista – corrigiu Carla. – Assessora de imprensa.
– Gosto muito dessa área apesar de nunca ter me aventurado nela.
– Lara contou o que você faz – afirmou o rapaz excêntrico. – Achei muito impressionante. No meio publicitário, nunca vi um talento como o seu.
– Talento? – exclamei estranhando. – Chamo de tino, instinto ou simplesmente observação.
Beberiquei satisfeito com o que o rapaz dissera. Não pela parte do meu trabalho, porque isso era tão natural que não era um orgulho para mim, apenas parte do que eu era. Não havia esforço e por isso não considerava os méritos, mas me permitia socializar e continuar vivendo do modo como estava acostumado.
Na verdade o que me deixara contente fora o fato de Lara ter falado de mim para os amigos. Um bolo se formou na minha garganta ao me perguntar o que teria contado. Teria me pintado como um monstro sedutor e insensível e sofrido muito depois de nosso último encontro?
Essas perguntas me fizeram perceber realmente que as atitudes livres que tinha, principalmente com ela, não eram positivas. Com Michele, por exemplo, não havia ilusão. Ela sabia que não a amava, que apenas cedia à química que rolava entre a gente. Era algo de pele, não de sentimento.
Com Lara, ao contrário, tinha uma história. Podia ser curta e antiga, mas assim como me lembrava, a mulata também deveria. E a química que rolava conosco sempre fora diferente das outras. Tinha carinho, algo especial, saudoso.
Esses encontros e desencontros podia ter-lhe dado uma esperança que nunca se concretizou. E, consciente disso apenas naquele momento, tive vergonha de mim mesmo. Da representação infame que fizera da tal liberdade que tanto santificava. Lara não merecia ser tratada assim. Ninguém merecia.
A necessidade de ficar ao seu lado aumentou. Precisava saber o que pensava, o que sentia, o que desejava. Em seguida, tive medo de ser rejeitado. Que absurdo! Nunca fora rejeitado, nem por ela, nem por ninguém. A não ser pela minha própria mãe e por meus verdadeiros pais.
Antes de cair nas filosofias dos traumas psicológicos, resoluto e firme decidi que o melhor a fazer seria começar do zero. Era insano, mas talvez desse certo. Fingiria que aquela noite era a primeira na qual a estava reencontrando depois de nos separarmos na adolescência e me aproximaria dela para conhecê-la melhor.
De novo.
– Posso ficar com vocês? – perguntei.
– Não sei. – respondeu Lara ainda insegura olhando além de mim e acrescentou. – Acho que seus amigos estão sentindo sua falta.
Olhei para trás ao ser lembrado deles. Michele estava um passo afastada do grupo – que havia se movido para o salão a minha procura evidentemente – como se estivesse em dúvida se vinha ao meu encontro ou continuava onde estava. Vi seus olhos cintilarem ao encontrar os meus e então ela decidiu.
Com passos firmes cruzou o salão e se aproximou postando-se ao meu lado sorrindo. Também sorri e a apresentei a todos. Ela olhou para os dois mais baixos com superioridade e para Lara com desprezo. Aquilo me enfureceu um pouco, mas me segurei para não perder o controle.
Ficou pouco impressionada com tudo o que falei sobre eles. O mais engraçado era que a antipatia de Michele parecia ciúmes e, no entanto, ela não sabia nada sobre minha história com Lara. Na verdade nenhum deles sabia.
Era um segredo que eu mantinha em Conceição da Barra achando que nunca viria perturbar minha paz em Vitória e estava totalmente errado.
– Nicolas, vamos dançar? – chamou Michele depois de um tempo ouvindo a conversa em silêncio absoluto.
– Claro! – me virei para Lara e seus amigos e acrescentei. – Vocês também vêm?
Acho que ela causou um desconforto maior do que percebera, porque ninguém aceitou. Fui arrastado por minha amiga para a pista de dança onde ela fazia questão de me apertar sempre que podia. Estava em uma situação difícil. Procurava por Lara o tempo todo para não perdê-la de vista enquanto Michele exigia minha atenção. Várias vezes ela havia se aproximado perigosamente, porém percebera a tempo de me safar.
Era complicado ter que me negar a ficar com ela, ainda mais depois de conseguir seu perdão. Acreditava que ela já contava com minha recaída, o que justificaria as desculpas que me dera. Assim como eu percebera as segundas intenções de Michele, Lara e seus amigos também. E aos poucos se afastaram de onde estávamos dançando, provavelmente para não verem mais o espetáculo da minha amiga.
Enquanto a perseguia com o olhar, ouvi Michele dizer ao pé do meu ouvido.
– Até que enfim aquela negrinha se tocou!
Eu me virei para ela com espanto. Mais do que furioso, estava enojado com as palavras que ela tivera coragem de pronunciar.
– Tem algumas situações na vida que a verdade sobre aqueles com quem nos relacionamos se mostram, não é mesmo, Michele?
A moça me olhou sem compreender.
– O que você quer dizer com isso?
– Não tenho prazer em me relacionar com pessoas preconceituosas e racistas. E assim como Lara – enfatizei o nome da mulata – também estou me tocando!
Sem esperar resposta, me virei e parti na direção onde vira Lara Costa pela última vez.
***
Nicolas Bertoldi deu de cara com a m ulata no balcão do bar quando ela pegava um petisco. Seu coração saltou contente ao perceber que não a havia perdido naquela noite. Hoj e não escaparia dele. Estava decidido.
– Eu te assustei? – perguntou ele.
– Não – arfou.– Estou bem – parecia que queria m ais se convencer disso do que se explicar para o rapaz. – Achei que ficaria com seus am igos.
– Desculpe por Michele – explicou-se sem graça com o se ela tivesse ouvido o com entário preconceituoso –, é um a garota im atura. – Suavizou a expressão antes de continuar. – Esqueceu que perguntei se podia ficar com vocês? – Lara baixou a cabeça. – Você achou que tivesse m udado de ideia.
As bochechas m orenas da m ulata coraram . O rapaz riu escondendo o m edo que tinha sobre seus pensam entos. Estava indo bem na adivinhação. Sentou-se ao lado dela no banquinho, ignorando os dois am igos que fingiam não prestar atenção neles.
– Não tenho porque m udar de ideia.
Os dois se entreolharam durante um longo tem po. Recuperada do susto, m udou visivelm ente. A expressão endureceu um pouco. Seus lábios carnudos se afinaram enquanto ela os apertava com força.
– Não tem ? – quebrou o silêncio a m ulata. – Então por que você m udou?
O cenho do rapaz se enrugou na tentativa de entender o que a m oça lhe dizia. No m eio daquela algazarra a sua volta, Nicolas percebeu que aquela conversa iria para um rum o não m uito apropriado para o am biente leve e descontraído.
– O que você quer? – perguntou novam ente a m ulata, sua voz vibrando no calor da em oção que lhe explodia por dentro. – Por favor, m e explica, porque estou tentando entender há m uito tem po.
– Nunca te dei esperanças falsas, Lara – com eçou a dizer o rapaz de form a franca e aberta, – Nunca disse que ficaríam os j untos para sem pre.
– Não, você nunca m e disse isso – devolveu a m oça ainda irritada. – Mas você j urou am or a um a garota de quinze anos, Nicolas. Um a m enina apaixonada. – Pausou, m as continuou quando o rapaz fez m enção de falar. – Tudo bem , isso não faria nenhum a diferença hoj e para um a m ulher de trinta anos segura, bem -sucedida, dona de si m esm a. Não faria, Nicolas, se você não reaparecesse do nada e sem tocar no assunto m e agarrasse toda vez que m e vê. – O rapaz tentou interrom pê-la de novo sem sucesso. – Essa últim a vez foi a gota d’água para m im . Passei um a sem ana inteira tentando entender o que foi aquilo em Conceição da Barra porque foi diferente para m im e não sei se foi para você tam bém .
A franqueza da m oça com oveu e perturbou o j ovem . Era tudo o que queria ouvir, a verdade sobre seus pensam entos, m as saber que a havia m achucado o feriu.
– Sinto m uito, Lara – respondeu cabisbaixo. – Queria poder explicar.
Um m om ento curto de silêncio reinou entre eles.
– Sente m uito? – explodiu ela. – É só isso que você tem a m e dizer depois de abrir m eu coração para você? – Levantando-se, acrescentou. – Então eu vou dizer um a coisa e quero que você preste m uita atenção porque só vou falar um a vez. Quando você m e vir, sej a na balada ou na rua, ou em Conceição da Barra, finj a que não m e notou, m ude de calçada, vire a rua. – Reforçou cada palavra na frase seguinte. – FINJA.QUE.NÃO.ME.CONHECE.
Afastou-se deixando um rapaz boquiaberto acom panhando-a com o olhar triste. A desolação piorou a expressão de seu rosto e antes que a m oça sum isse porta afora, ele se ergueu e correu atrás dela. Avistou-a na calçada, pisando duro rum o ao estacionam ento. Cham ou, porém nem olhou para trás. Quando a alcançou, agarrou-a pelo braço e a puxou para que se virasse.
– Não posso ignorá-la – disse segurando-a com firm eza enquanto ela lutava para se soltar –, porque não consigo.
Puxou o corpo da m ulata contra o seu, o choque causando espanto e frenesi, e a beij ou.