Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Josy Stoque · Capítulo 22 de 31

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Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Fanfarrões

 

Alexandre foi o últim o a sair da frente do prédio de Nicolas naquela m anhã. Antes de partir, se certificou de que deixava o rapaz em segurança. Ao redor do prédio não percebeu nenhum a força. Contava que Marcel o estaria vigiando à distância.

Parou em frente ao edifício onde os quatro am igos de Nicolas entraram ao am anhecer daquele dia. Procurou pelas vozes fam iliares. A prim eira que ouviu foi a de Michele, a m oça m al-hum orada. Parecia um pouco pior aquela tarde. Desabafava com alguém .

– Não entendo m esm o! O que aquela negra tem que eu não tenho? Por que Nicolas ficou tão fascinado por ela? Tenho certeza de que sou m ais bonita, além de ter dinheiro e ela ser um pé-rapado! Eu não consigo aceitar ser trocada por ela! Estava tão perto de conquistá-lo.

– Michele, sei que m e cham ou aqui apenas para que a ouvisse, m as tenho que abrir seus olhos. – Alexandre reconheceu a voz de outra m oça: Daniela – Você nunca esteve nem perto de conquistá-lo. Ele ficou com você porque ele não sabe resistir à m ulher nenhum a. Não se esqueça de que tam bém j á fiquei com ele e nem por isso m e iludi.

– Cala a boca, Daniela! Nem m e lem bre de que você tam bém o pegou. Que ódio! Mas eu sem pre fui privilegiada. Já fiquei com ele várias vezes. Por que ele a escolheu?

– Quem entende o coração, Michele? É a m esm a coisa se te perguntar por que se perm itiu se apaixonar por ele. A gente sim plesm ente não escolhe!

– Não adm ito! – vociferou a tal Michele. – Você não sabe o que é ser rej eitada e trocada pelo hom em que tanto desej a. Pode ter certeza de que isso não ficará assim .

– O que você vai fazer, Michele? – preocupou-se a outra. – Quer saber, que se dane! Não vou ficar aqui ouvindo seu surto. Não quero com pactuar com sua loucura. Prezo a am izade de Nicolas m ais do que qualquer tipo de relacionam ento passageiro que tivem os.

– Isso m esm o, vá em bora, derrotada! Abandona o j ogo antes do apito final.

– Não tem nada a ver. Aprendi a gostar e adm irar Nicolas porque ele é sincero. Pode sim ter ficado com igo um a vez, m as nunca m e fez prom essas de am or. Ao contrário, na am izade sem pre pude contar com ele. Não tenho ressentim entos.

– Não estou ressentida – berrou novam ente Michele. – Estou m agoada. E eu não vou descansar até destruir a relação dele com aquela m ulata quebra-barraco.

– Não faça isso, Michele. Você pode perder tudo, até o respeito de Nicolas.

– Não. Não tenho m uito m ais a ganhar. Não quero m ais nada se não for o am or dele. Não aceito m igalhas.

Alexandre ouviu a porta bater violentam ente.

– Falsa – sussurrou Michele furiosa.

O m oreno não gostou da am eaça da j ovem . O que pretendia? Teria algum poder? Ou um am igo que pudesse fazer realm ente algum m al a Nicolas? Procurou algum a energia ao redor e não encontrou nada. Sabia que era um a hum ana com um .

Esperou atento a fim de perceber qual seriam as próxim as ações. Ouviu quando teclou núm eros no telefone. O nom e que ela pronunciou não era com um nem estava entre as relações de Nicolas que conheceram ontem . Mas ao final a par do m otivo da revolta de Michele, se uniu a ela apoiando sua fúria.

Alexandre ficou em alerta. A fila de am igos e inim igos do j ovem só aum entava. Isso o preocupou ainda m ais. O perigo poderia vir de onde m enos esperava. Prestou atenção a conversa. Ouviu outros nom es, m as nenhum plano com pleto.

A vigilância sobre Nicolas deveria ser redobrada. Depois que encontrasse todos, m ais tarde, e ouvisse os relatórios, seria m ais fácil e correto tom ar um a decisão acertada. Ouviu as entediantes ligações de Michele e sua revolta descabida. Tam bém achou absurda a m aneira com o se referia a Lara.

Sem desviar totalm ente sua atenção da m oça, procurou por Daniela. Encontrou a j ovem na área de lazer do condom ínio chutando pedrinhas e resm ungando. Parecia com raiva. Teve que se concentrar para entender o que ela m urm urava.

Enfurecida, xingava desconexam ente, sem destinar a ninguém . Mas os palavrões eram todos fem ininos, o que fez Alexandre deduzir que o foco de sua raiva era Michele. Ainda não entendia por quê. Estava m esm o defendendo Nicolas ou com raiva por Michele ter m ais atenção do rapaz? De m ulheres podia esperar tudo.

Porém , depois que a raiva finalm ente passou, Daniela foi m ais coerente em seus resm ungos. Estava m esm o brava com a atitude egoísta de Michele. Acreditava que Nicolas havia encontrado o verdadeiro am or e se contentava em com partilhar de sua felicidade, sem ressentim ento algum , com o um a verdadeira am iga.

Confessou a si m esm a que era verdade que j á tivera interesse por Nicolas, m as aceitar a m uito tem po o fato de não ter sido correspondida e não se ofendera com isso. Tam bém não se desm erecia. Afinal, destino e amor são coisas incontroláveis, constatou.

Ficou em dúvida se avisava Nicolas ou não sobre a m á intenção de Michele, m esm o não tendo certeza do que pretendia. Por fim , achou m elhor vigiá-la para descobrir quais eram seus planos antes de falar com ele. Talvez nem chegasse a concretizar nada e criaria um clim a desnecessário.

Ficou aliviado por ouvir palavras tão positivas. Nicolas ainda tinha um a am iga com quem podia contar. Apressou-se em procurar pelos outros rapazes para saber o que poderia vir deles. Encontrou Augusto esparram ado no sofá assistindo TV. Ouviu o som de m astigação – crocante – e de vez em quando o rapaz gargalhava. Na televisão, um program a de com édia era transm itido. Esperou por m uito tem po, m as o rapaz não fez nada além de com er e rir. Resolveu procurar pelo últim o. Depois voltaria sua atenção para ele novam ente.

Já Leandro brigava com o pai ao telefone.

– Qual é, pai! Vai m e deixar sem grana por pura m aldade?

Alexandre ouviu o grito do hom em do outro lado da linha.

– Não trabalho para sustentar m arm anj o vagabundo. Arrum e um a ocupação que eu deposito o dinheiro até que ganhe o suficiente para se virar sozinho.

– Mas, pai, isso pode levar tem po e eu ainda não encontrei m inha vocação.

– Por que para balada e academ ia você tem vocação? – perguntou sarcasticam ente o pai – Você j á sabe o que pode fazer para resolver isso agora m esm o e tam bém dar um pouco de orgulho para esse velho aqui.

– Tudo isso é só para m e convencer a trabalhar com você, pai? Não acha que está insistindo dem ais em algo sem futuro?

– Eu te pergunto o m esm o, Leandro! Essa é a única opção que tem . É isso ou nada de dinheiro. Agora chega de m e fazer perder um tem po valioso, rapaz. Tem po é dinheiro.

O hom em desligou o aparelho do outro lado da linha interrom pendo a cham ada. O filho exclam ou um palavrão desligando o celular tam bém . Ignorou o ultim ato do pai e bateu a porta do apartam ento. Saiu da garagem em um carro luxuoso vestido com roupa de academ ia. Ia descarregar as energias.

Alexandre voltou sua atenção para Augusto. O program a havia term inado e agora falava com alguém . Logo percebeu que essa pessoa estava no apartam ento com ele.

– Mãe, por favor, deixa isso aí.

– Que bagunça, filho. Com o consegue viver assim ?

– Não se preocupe, a diarista vem am anhã.

– E você vai deixar bagunçado até lá?

– Mãe...

– Augusto, não discuta com igo. Adoro fazer as coisas para você. Nunca reclam ei, não é verdade?

– Sim , m ãe, m as a senhora não precisa se cansar.

– Não vou m e cansar, eu prom eto. Onde está a vassoura?

– Aí j á é dem ais, m ãe. Não precisa m esm o.

– Não m e custa nada, filho.

Alexandre ouviu o som da vassoura no assoalho.

– Augusto?

– Sim , m ãe.

– Está precisando de m ais algum a coisa? Dinheiro? Com ida? Você não vai à academ ia hoj e?

– Não, m ãe, obrigado. Estou m eio cansado.

– Saiu ontem ?

– Sim .

– Com aquela m oça?

– Não só com ela. Tam bém outros am igos.

– Ah. – pausa – Você não vai pedi-la em nam oro nunca, filho?

– Mãe, j á falam os sobre isso. Ela gosta do Nicolas.

– Sim , m as você tam bém disse que ele não gosta dela.

– É.

– Então, por que não tenta?

– Por que ela não vai aceitar, m ãe.

– O que te faz ter tanta certeza?

Augusto bufou im paciente e Alexandre sorriu. Ser filhinho da m am ãe podia ser doloroso. Com o aquela conversa não m udaria de rum o, ao que tudo indicava, resolveu procurar por Michele de novo e conferir o que ela estava aprontando. Encontrou a m oça na área de lazer com roupa de ginástica a procura de Daniela. A outra tom ou um susto ao vê-la sorridente e norm al.

– E aí, vam os para a academ ia?

– Hoj e não.

– Ah, vou ter que ir sozinha?

– Vej a com os m eninos. – a voz de Daniela era distante e indiferente. – Talvez queiram ir.

– O que foi, Daniela? Está estranha.

– Im pressão sua.

– Eu te conheço.

– E eu a você!

Houve um a curta pausa enquanto se encaravam .

– Qual é! Levou realm ente a sério m eu ataque de fúria? – riu Michele.

– E não devia?

– Claro que não. Foi apenas um desabafo. Jam ais m e m eteria na vida de Nicolas. Se ele está feliz, aceito.

Alexandre ficou em dúvida. O que a tinha feito m udar tão rápido de opinião? Seria bipolar? Não confiou. Alguém que tinha um a personalidade tão volátil devia ser vigiado de perto. Constatou, m ais um a vez, que se pudesse existir algum a am eaça a Nicolas, era dela que viria.

– Ok. – Daniela parecia sem palavras.

– Ah, por favor, Dani. Não m ude com igo por algo tão bobo.

A outra m oça suspirou rendida.

– Tudo bem . Espere que vou trocar de roupa para irm os. Ah, hoj e é dia de pagar a academ ia. Nossa, preciso ver se tem dinheiro na m inha conta.

– Não esquenta. Eu te em presto, depois você m e paga. Recebi um “vale” dos m eus pais hoj e.

Am bas riram alto. Enquanto cam inhavam , Michele propôs.

– Que tal um a passadinha no shopping? Preciso da opinião de um a am iga para gastar essa grana.

– Pode contar com igo – respondeu prontam ente Daniela.

Alexandre as achou tão fúteis e falsas que ficou enoj ado. Resolveu se afastar delas, se distraindo com outros sons do prédio. Era um condom ínio grande e espaçoso, m as havia poucos apartam entos. Eram grandes e ocupavam o andar inteiro. Não entendia porque aqueles j ovens desperdiçavam tanto dinheiro.

Não era contra o luxo ou o dinheiro. Ao contrário, buscava desenvolver riqueza própria. Porém , acreditava em esforço e inteligência para alcançar seus obj etivos. Jam ais seria capaz de sugar dinheiro de outra pessoa.

Prova disso era que sem pre fora independente, nunca pedira um só centavo ao irm ão. Queria alcançar sucesso e fortuna com seu próprio suor e esperteza e tam bém não sabia ser pão duro. Se tinha dinheiro, gastava. Afinal, era para isso que existia.

Não concebia essa vida inútil e sem sentido que esses j ovens ficavam felizes em ter. Até Nicolas, em sua m ente, tinha sua parcela de fanfarrão. Era um grupo que não trazia nada de bom para a sociedade ou para a própria existência.

Tornou-se difícil perm anecer ali escutando tanta porcaria. O retorno das m eninas lhe cham ou outra vez a atenção para o edifício. Depois que partiram , conferiu Augusto e sua m ãe – para Alexandre, ela era a grande culpada pela futilidade do filho – e foi em bora quase com raiva.

Aquela m issão se tornava dolorosa, física e psíquica. Não que estivesse cansado literalm ente, m as ficou de saco cheio. Nunca se deparara com tanta gente inútil em um m esm o espaço. Aquilo chegava a em brulhar seu estôm ago o que lhe provocava um a careta constante.

O sol ainda estava m uito alto no céu, indicando o m eio da tarde, quando Alexandre entrou de novo no hotel. Fora o últim o a partir em sua vigilância e era o prim eiro a chegar ao QG. Achou bom . Teria algum tem po para colocar os pensam entos em ordem e alguns assuntos pendentes e particulares.