Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3
Intuitiva
O suave rastro dourado não perm itia que Marcel perdesse o traj eto de Lara. Aquilo fez com que acendesse um a luz de advertência na m ente do loiro. Aquela força estranha não estava atrás de Nicolas, m as sim da m ulata, ou m elhor, da pedra. Quem quer que a estivesse perseguindo, sabia que o elem ento nada seria sem a chave. Mas se estava tão próxim o, por que ainda não a levara? O que estaria esperando?
Com sua visão periférica, buscou possíveis focos, depois se repreendeu. Jam ais reconheceria com seus olhos, som ente com os da alm a. Sem fechar os olhos, a fim de não perder Lara e seu táxi de vista, rastreou a energia resplandecente até alcançar a m ulata.
A força dourada estava toda espalhada no interior do carro que seguia, ao redor da m oça e do m otorista. Era im possível reconhecer a origem e isso o irritou. Parecia um a brincadeira de m uito m au gosto.
De repente, sem aviso ou m otivo – pelo m enos não percebera nada, nenhum a m udança significativa ao redor – a energia se esparram ou por toda a parte. Era com o se estivesse em todo lugar e ao m esm o tem po em parte algum a.
Riu sarcasticam ente. Se j á era im possível antes reconhecer o portador, agora então teria que desistir. Não tinha conhecim ento suficiente da língua para encontrar um a palavra que definisse aquilo. Só teve um a certeza, fora percebido pelo possível inim igo. Desacelerou o carro tom ando cuidado para não se afastar dem ais de seu foco. Esperou, tenso, que algo o atingisse. Redobrou a atenção.
Os segundos passaram . Nada aconteceu.
Teve um estalo. E se aquilo fosse um a arm adilha ou um truque apenas para desviá-lo do foco? Im ediatam ente procurou por Nicolas e o encontrou esparram ado preguiçosam ente em sua cam a, cercado pela força dourada que agora o confundia.
Enquanto se certificava de que estava tudo bem com o rapaz – tam bém percebeu que os outros ainda estavam parados em frente ao prédio – Lara descia do táxi e entrava correndo em um prédio alto e cham ativo. Estacionou em frente alguns segundos depois, acom panhando o som dos passos da j ovem .
Ouviu quando cum prim entou a todos que encontrou pelo cam inho sem parar até alcançar um a sala ao final do que pareceu um com prido corredor.
– Bom dia – um a voz m asculina riu quando a viu entrar esbaforida.
– Quase boa tarde – riu outra voz, agora fem inina.
– Desculpem – a voz de Lara soou sem graça. – Perdi a hora.
– Fico im aginando o porquê – a voz da outra m oça era sarcástica.
– Pelo am or de Deus, Lara, você não cansa? – a voz m asculina explodiu em espanto.
Dessa vez, Lara riu alto.
– Sabe, agora que perguntou e m e fez refletir, cheguei a conclusão de que não m e canso nenhum um pouco.
– Esse hom em está sugando sua energia vital – prosseguiu a voz m asculina.
– Cala a boca, Alessandro. Você não está percebendo que esse tal Nicolas só está fazendo bem a ela? Olhe para Lara. Está até m ais bonita! Os olhos dourados estão vivos e brilhantes, e nada de olheiras – apontava a voz fem inina. – O cabelo está sedoso e bem arrum ado. E a pele! Perfeita e m acia com o pêssego. Que invej a, m eu Deus! Por que não ganho um hom em desses de presente?
– Ah, para vai, Carla. Você está exagerando – retrucou sem graça Lara. – Mas um a coisa é verdade. Sinto-m e m uito bem ! Nem parece que fui dorm ir ao am anhecer.
Foi obrigada pelos colegas a narrar detalhes sobre a longa noite que tivera com Nicolas. Om itiu boa parte deles, principalm ente os m ais íntim os. Marcel havia ouvido tudo – que se perm itiu – durante sua vigilância. Quando percebera o que estava acontecendo entre eles, tentara desviar sua atenção para possíveis energias estranhas ao redor. Bastaria se concentrar em Nicolas para ter presenciado, em sua m ente, toda a cena, o que não seria nada m oral.
Tinha que m anter o foco na m issão, m as a sensualidade de Lara e a fom e de Nicolas não aj udavam em nada. Nesses m om entos, se obrigava a fugir dali, indo ao encontro de Suzane do outro lado do país, em seu quarto escuro.
A descrição da colega sobre a m ulata fez seu corpo latej ar. Reprim iu a sensação im ediatam ente. Odiava sentir fraquezas tão hum anas. Será que se livraria disso algum dia? Com eçava a adm irar Alexandre por sua atitude irrepreensível, apesar da atração que sentia por Tam ires. Ele nunca perdia o foco.
Lara cortou o assunto levando os colegas de volta ao trabalho. Haveria um a reunião im portante após o alm oço e ela repassou os detalhes do proj eto de m arketing com os dois, orientando aj ustes necessários.
Marcel a adm irou m ais ao reconhecer sua inteligência e com petência com o gerente de m arketing daquela grande com panhia. Ficou ansioso em acom panhar a apresentação de m ais tarde.
Ao finalizar os últim os porm enores do trabalho, Lara acom panhou os dois colegas até um restaurante próxim o onde alm oçariam . A m ulata foi bom bardeada novam ente com brincadeiras e perguntas sobre Nicolas.
Sentir o cheiro de com ida só atiçou sua fom e e Marcel resolveu entrar e com er tam bém .
Quando passou pela entrada do restaurante, Lara se virou e olhou em sua direção. O loiro achou estranho, m as fingiu que nem a notara. Sentou-se o m ais distante que pode.
– Ei, Lara – cham ou Carla. – Estou falando com você. Dá para parar de olhar para o lado?
– Desculpe – respondeu tentando evitar o loiro e falhando.
Marcel via tudo com sua visão periférica. Ficou preocupado. Talvez ela o tivesse reconhecido da balada, por m ais distante que estivera. Assim que seu enorm e prato chegou, m ergulhou nele fingindo não prestar atenção em m ais nada.
– O que foi? – questionou Alessandro.
– Nada – respondeu Lara vagam ente.
– Algum a coisa a perturba – retrucou.
– O que tem aquele loiro? – perguntou a m oça. – Você o conhece?
Marcel estrem eceu à m enção. Todos o haviam notado. Fora um erro entrar ali.
– Não – relutou Lara. – Vocês j á tiveram a estranha sensação de serem seguidos?
Os dois riram alto e Marcel relaxou os m úsculos.
– É sério – protestou. – Estou com essa sensação desde que saí do apartam ento de Nicolas.
Então, Lara o percebeu há m uito tem po. Intuitiva, pensou ele. Cada descoberta sobre ela só o fazia adm irá-la m ais e com preender porque Nicolas se sentia tão atraído por ela.
– Ah, para, Lara! – exclam ou Carla.
– Você está ficando paranoica! – acrescentou Alessandro revirando os olhos.
Lara não insistiu e m udou de assunto. Tirou o foco sobre si e falou sobre outras coisas. O alm oço transcorreu sem m ais sobressaltos e o pequeno grupo voltou para a em presa. Marcel esperou que saíssem para se levantar. Tom aria m ais cuidado a partir de agora. Lara era m ais esperta do que im aginara.
Quando chegou ao carro, procurou rapidam ente pela voz da m ulata e a encontrou em sua sala no prédio. Mudou o autom óvel de lugar depois de dar um a volta no quarteirão. Tudo para que Lara não o notasse na saída.
A reunião com eçou poucos m inutos depois em um a grande sala andares acim a. Ouviu um am ontoado de vozes que encheram o am biente. Lara deu início à explanação depois que todos se acom odaram e silenciaram .
O proj eto para nova cam panha incluía várias ações, inclusive em diversas áreas. O trabalho da equipe de Lara abrangia o Brasil todo, respeitando as características e diferenciais de cada região. Um proj eto com plexo e fantástico que deixou Marcel boquiaberto.
Foi a hora m ais curta de sua vida tão interessado estava na reunião. Os m urm úrios de aprovação e respeito pelo trabalho dos profissionais confirm aram a Marcel o que j á sabia. Os três deixaram a sala de reunião orgulhosos e anim ados para dar início ao proj eto im ediatam ente.
– Obrigada, pessoal – agradeceu Lara ao entrarem na am pla sala destinada ao departam ento de m arketing.
– Im agina, Lara – respondeu Carla.
– Sua apresentação foi im pecável – disse Alessandro.
– Mas de nada valeria se o proj eto não estivesse à altura e eu j am ais conseguiria sozinha.
Generosa, pensou Marcel. Uma boa chefe sabe reconhecer a importância e o papel de cada membro da equipe. O loiro com eçava a ficar fascinado por aquela m ulher. Nicolas é um cara de sorte, concluiu. Lara abraçou os colegas feliz dem ais com o sucesso da reunião e em seguida m andou os dois para suas respectivas funções a fim de tirar o proj eto do papel o m ais depressa possível.
Em um estalo, Marcel se lem brou de olhar para Nicolas. Já fazia algum as horas que não o vigiava. Em um segundo estava no apartam ento vazio do rapaz. Não havia m ais ninguém de seu grupo por perto.
Rastreou até encontrá-lo a poucos quilôm etros de casa subindo um m orro correndo. Ficou cansado só de vê-lo suando em baixo daquele sol quente. Não deveria, j á que sabia que seu corpo suportaria o esforço, m as era algo que não o atraía. Atividade física, definitivam ente, não era seu forte.
Manteve os olhos fixos no prédio e a alm a ligada ao rapaz. Acom panhou todo seu traj eto até o topo da m ontanha onde encontrou um lindo parque. Constatou que havia m uitas áreas preservadas na cidade, ricas em espécim es nativos da Mata Atlântica.
O aquariano contem plou a natureza de um a m aneira diferente, percebeu Marcel. Não a encarava m ais com o apenas um belo cenário, m as com reconhecim ento de sua im portância sobre a vida de cada ser do planeta, com o parte pulsante dela. Ao olhar para ela, via um ser vivo, vital, com plem entar.
Essa constatação o deixou satisfeito. A própria natureza o estava convencendo de seu papel. Se o tocara era porque seu coração estava aberto e convencido, apesar de sua m ente racional ainda relutar veem entem ente. Havia algum a chance de sucesso naquela m issão.
Por todas as etapas que j á havia passado da transform ação, Marcel sabia que a últim a estava m uito perto de acontecer. Tam bém sabia que seria o teste final para ele. Ou aceitaria de um a vez por todas seu destino ou o recusaria com determ inação ainda m aior.
Havia um a tênue linha entre a razão e a em oção que se convergiam dentro dele ferozm ente. E tam bém sabia que essa linha só poderia ser rom pida com um a coisa: fato concreto, provado e indiscutível. Jam ais cederia por instinto, m uito m enos pelo entusiasm o. Som ente fatos irreversíveis tornariam sua razão parceira dessa j ornada.
Estava acostum ado com sua vida, a seguir seus instintos tam bém , m as apenas sobre aquilo que conhecia e dom inava. Não era bom com fatos novos e inexplicáveis, ou até m esm o absurdos com o as novas m udanças.
Ignorá-las não resolvia o problem a, m as adiava um a decisão e Marcel sabia que ele faria isso até onde pudesse em purrá-lo. Mas tam bém tinha esperança de que a últim a etapa lhe trouxesse a certeza que procurava. Afinal, experiência de quase m orte causa grande im pressão.
Marcel o acom panhou de volta ao apartam ento e um alm oço tardio e solitário. Tam bém o achou m eio para baixo. Muita coisa deveria estar revolvendo em sua m ente. Daria tudo para saber. O loiro ainda notou que há um tem po não se esforçava nem procurava trabalhar. Sua m ente deveria m esm o estar m uito perturbada.
Tom ou outra ducha e voltou para a cam a. Marcel riu quando o viu apagar rapidam ente. Voltou, portanto, toda sua atenção para Lara. Acom panhou o som de sua voz o restante do expediente.
Ao final do dia, a m oça foi para casa de carona com o colega. O loiro a viu descer do carro com certo pesar, em bora estivesse bem desperta. Pareceu relutar em frente ao prédio. Fez m enção de entrar, m as antes se virou direto para o carro prata parado na esquina. Suspirou aliviado por estar escuro suficiente para que os olhos dela pudessem percebê-lo.
Porém , achou que o observou tem po dem ais para alguém que não podia enxergar bem . Estreitou os olhos tentando entender, m as eles não podiam ler sua alm a. Em seguida, ela deu um passo para a frente e sum iu atrás da construção.
Ainda assim , perm aneceu diante do edifício tem po suficiente para acom panhar toda a rotina dom éstica da j ovem . Não ouviu m ais sua voz e concluiu que m orava sozinha. Teve pena. Devia ser m uito solitário. Seus olhos vislum braram a j anela ilum inada de seu apartam ento. Lem brou-se de quando entrara sorrateiram ente no prédio de Carolina, em Foz do Iguaçu, atrás de Tam ires.
Nesse instante, a m ulata apareceu na sacada olhando para baixo direto para ele. Engoliu em seco. Ela não fez nenhum a questão de se esconder. Ao contrário, seu rosto era severo, com o se fizesse questão de deixar claro que o havia percebido.
– Droga – sussurrou ao dar partida no carro e zarpar antes que a m oça cham asse algum a autoridade.
Será que havia estragado tudo?