Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Josy Stoque · Capítulo 27 de 31

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Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Miragem

MIRAG EM

 

Onde ele está? Essa pergunta estava intrínseca em cada pessoa, porém seus pensam entos focavam alvos diferentes. Medo e desespero dom inavam a todos, de m aneira distinta. Cada qual em busca daquilo que lhe acalm asse o espírito.

Lucca ainda andava as voltas na cidade procurando pelo carro de Nicolas. Mainá estava fam inta ao seu lado, m as se m antinha calada. Ainda bem que sem pre carregava beliscos consigo. Adquirira o costum e depois de descobrir que estava grávida.

Essa coisa de sentir pessoas com o ele, estava ficando m ais fácil para o ruivo, m as então por que não conseguia localizar Nicolas? Sentia-se frustrado e depois de tantas horas procurando sem parar, cansado tam bém .

O telefonem a de Tam ires só o deixara pior. Falhara e os outros j á sabiam . Envergonhado, queria com pensar encontrando-o. Estava apostando toda sua energia e m agia nisso. Não só sua im agem estava em j ogo. Nicolas podia estar em perigo e ele deveria cuidar para que estivesse seguro. Era o que lhe preocupava m ais. O capixaba poderia estar agora m esm o preso em um a arm adilha ou então...

Interrom peu o pensam ento. Não aconteceria nada com ele. Ficaria bem , onde quer que estivesse. Talvez até j á tivesse na casa do am igo se divertindo e dando boas gargalhadas, falando de cervej a, m ulher e futebol.

Sorriu por dentro ao pensam ento. Apesar do próprio Lucca não ser esse tipo de hom em , via Nicolas exatam ente assim . Um cara oposto dele, m as de quem j á se sentia próxim o. Responsável.

Decorava os pontos de referência de Conceição da Barra de tanto dirigir pelas ruas da cidade. Sua m em ória fotográfica registrava e reconhecia cada lugar pelo qual passava ou j á havia passado.

Onde ele estava, se perguntava constantem ente. Sabia que nada poderia ter passado despercebido aos seus olhos aguçados, m as havia acontecido e não entendia com o. Só pode ter sido rápido dem ais e quando seus olhos não estavam na direção correta.

Um segundo apenas e Nicolas sum ira.

Mesm o sabendo que os outros tam bém o procuravam , se cham ava à responsabilidade. A obrigação m aior era sua. Não devia tê-lo perdido, m as com o j á acontecera – e não podia m udar o passado – precisava encontrá-lo antes de todos.

Retom ou o cam inho para dar m ais um a volta. Entrou em um a rua pela qual ainda não tinha passado, tinha certeza. Então se deparou com o autom óvel escuro e grande que pertencia ao capixaba.

O brilho de seus olhos refletiu a reluzente pintura do veículo tão bem cuidado. Porém , estava abandonado, quase no m eio da rua e sua satisfação por tê-lo encontrado se foi, dando lugar a preocupação. A porta do m otorista estava escancarada.

Abandonando o próprio carro com um a assustada Mainá, Lucca saltou em direção ao outro em busca de algum a pista do sum iço de Nicolas. Quando notou a cam iseta e o tênis largados, seu coração disparou descom passado. Abaixou para verificar se havia vestígio de um possível ferim ento, m as não encontrou nada. Nem um rasguinho. Tudo estava intocado.

Verificou dentro do veículo se não havia nada estragado, quebrado, m anchado, rasgado denunciando um ataque surpresa. Nada outra vez. O lindo e caro veículo estava em perfeito estado. Procurou por rastros que indicassem por que ou com o Nicolas havia sum ido. Para onde? Teria sido levado inconsciente? Ferido, m as não m ortalm ente? O pensam ento o fez estrem ecer.

Lucca estava tentando olhar através dos olhos hum anos, m as sabia que seres que conheciam m agia não precisavam de força física ou ferim entos expostos para destruir ou sequestrar alguém . Manteve a calm a. Não adiantaria nada se desesperar. Havia encontrado o carro, agora precisa achar pistas de para onde ele havia ido. Vasculhou as roupas abandonadas com cuidado e tam bém os porta-obj eto do veículo.

A energia do rapaz estava em tudo, concentrada. Porém não havia rastro, não havia pedaço de algum a coisa nem bilhete. Estavam no escuro. E se tivesse m esm o com eçado, com o Tam ires dissera? Onde poderia estar? Qual seria seu refúgio?

Nicolas só pensava em um a pessoa. Som ente ela poderia ter algum a ideia desse local especial. Pegou o celular e ligou de volta para a ruiva. Estava infeliz por não ter boas notícias, m as precisariam unir as inform ações para localizá-lo.

***

O cam inho de volta à sede do sítio fora no m ínim o estranho. Por m ais invisível que Alexandre procurasse ficar, sem pre parecia que Eugênio conseguia percebê-lo. Não im portava a distância nem a cam uflagem . Cuidou para que não confirm asse.

Conseguiu chegar a casa sem ser pego, porém no m om ento exato em que um bloqueio enorm e – inacreditável – cobria toda a área. Im ediatam ente sentiu seus poderes presos. Ali não conseguiria expandi-los para fora.

Extraordinário, pensou. Que poder era aquele? Era m uito novo. Nunca vira nada assim . Sentia-se um inútil por não saber. Afinal, estava ali porque era o m aior conhecedor de seu m undo e dos seres que viviam lá.

Aquela novidade o deixava m aravilhado e ao m esm o tem po preocupado. Haveria m ais forças desconhecidas por aí? Provavelm ente, respondeu a si m esm o. A pedra e os protetores corriam m ais perigo do que im aginara antes.

Eugênio foi direto para dentro da casa, im pedindo Alexandre de segui-lo. Ficou do lado de fora procurando se esconder o m áxim o que podia, porém suspeitava que seria inútil sob aquele arco invisível. Estava exposto e vulnerável.

Lem brou-se de Marcel e procurou por ele no local onde o havia deixado ao partir atrás de Eugênio. Não o encontrou. Que estranho. Onde estaria? Procurou ao redor a energia característica do rapaz. Nada.

Preocupou-se que tivesse sido pego, m as o que um velhote com o Francisco poderia fazer com ele? Bem , contando com a força toda daquela barreira, poderia e m uito, pensou. Se ele fosse o responsável por ela.

Mas só podia ser. A força dourada estava presente e pulsante. Viva e j ovem , totalm ente o oposto do idoso. Teria recebido reforços? Procurou por outras forças além dessa e não encontrou nada. Menos m al. Talvez aquela fosse a últim a m anifestação do poder no avô de Lara antes que se extinguisse. Ou talvez não.

A dúvida era perigosa. Alexandre não gostava dela. Sentiu o desej o de invadir a casa e tirar tudo a lim po de um a vez. Se houvesse luta, lutaria. Estava bem preparado. Não tinha certeza se ganharia, m as com certeza usaria todo seu potencial.

Voltou a focar na casa quando ouviu um a discussão. As palavras saíram rápidas e sussurradas a ponto de não entender tudo. Apenas as palavras magia, proibido, filhos, estranhos. Alexandre leu as entrelinhas.

Haviam chegado perto dem ais. Enquanto m ecanicam ente se afastava, seu celular tocou e Tam ires deu a notícia de que o carro havia sido encontrado abandonado. Resolveu partir ao encontro de Lucca.

Saiu sem procurar por Marcel. Ele que se virasse. Talvez até j á tivesse partido tam bém . Talvez aquele escudo fosse culpa dele. Enquanto se afastava, viu quando a barreira desapareceu repentinam ente.

***

A dúvida que se instalara enquanto buscava antecipar o ataque se calou quando a energia dourada pousou sobre sua cabeça. Esqueceu com o se respirava. O m edo dom inou cada partícula de seu ser. Estava cercado. Buscou identificar ao redor de onde viria o ataque. Onde estava ele? Onde estava? Covarde, resm ungou para si m esm o. Com m edo de um velhote? Um velhote m uito poderoso, retorquiu.

Onde me meti, meu Deus? Agora estava sozinho, à m ercê de um a força m uito m aior que a sua. Totalm ente desconhecida e nova. Não treinara o suficiente para se sentir seguro sequer para se defender do ataque. Quem diria vencer!

Marcel queria ter olhos por todos os lados. Seus sentidos estavam aguçadíssim os. Pensava pelo m enos prever um segundo antes. Seus pés andavam para trás a procura de um porto seguro.

Conteve a vontade de sair correndo. Não assum iria sua covardia publicam ente. Onde estava o velhote? Onde estava Alexandre? Onde estava todo m undo? Não era j usto ficar ali sozinho.

Seu telefone tocou o sobressaltando. Merda!, exclam ou. Atendeu com a m ão trêm ula. Por que Tam ires estava seguindo a pessoa m ais fácil enquanto ele corria risco em baixo daquele arco dourado pavoroso?

Até que era bonito, acrescentou. Em seguida censurou o pensam ento. Não devia elogiar o inim igo. Seria essa a m agia? Sedução? A ruiva lhe inform ou sobre Nicolas e Lara. Am bas voltavam ao sítio.

Respirou m ais aliviado, apesar de se sentir tolo. Não estaria m ais sozinho em breve. Tam ires era forte. Tinha o fogo do seu lado. Aquela m ulher lhe dava m edo, não daria em um velho enrugado?

Olhou ao redor e viu que havia se afastado dem ais. Onde estava a casa? Estaria em outra propriedade? Não reconheceu aquela plantação. Com certeza estava fora do sítio. Olhou para cim a. O arco não estava lá. O céu estava lim po e azul.

Ufa. Havia se afastado suficiente para ficar fora da arm adilha. Assim esperava. Procurou um canto para se esconder e se concentrou em Tam ires. Precisava saber quando estivesse chegando. Viu que estava perto. Relaxou. Que tal agora procurar por Nicolas?, orientou a si m esm o.

Não havia m ais barreira, m as tam bém não existia m ais força. Depois de algum esforço, encontrou o veículo abandonado que possuía um a grande concentração da energia do rapaz. E só. Estava no lugar certo, no m om ento certo. Era para encontrá-lo com facilidade. Onde estaria? Se estivesse m esm o passando pela transform ação, sua força deveria estar em anando desenfreadam ente.

Parecia calada, silenciosa, retida. A explosão de energia que detectara em Tam ires e e m Lucca não acontecia agora com Nicolas. Paralisou. Só havia um a explicação lógica ali. Aquela barreira im pedia que o encontrasse.

E se a seguissem ? Não encontrariam Nicolas no fim ? A possibilidade o anim ou. Havia um a luz no final do túnel. Esperou apenas encontrar a ruiva para contar sobre a ideia que lhe ocorrera.

***

Desnorteada, Lara abandonara a am iga. Sem explicação nenhum a, partira a pé m esm o.

Tam ires se sentiu tentada a lhe oferecer um a carona. Tolice. O que ela estaria sentindo, questionou a ruiva? Que força ou m edo lhe abatera o espírito?

De todos os personagens desta nova realidade, a m ulata era a que m ais lhe intrigava. Depois de passado o m om ento de raiva que sentira por ela, refletira m elhor. Afinal, seus sentim entos de preocupação e angústia eram transparentes.

Mas a incógnita ainda existia. Quem era Lara? O que ela queria? O que sua força significava? Em um a luta entre am bas, quem venceria? Os treinam entos de Alexandre aguçaram nela esse espírito de com petição. Riu de seu pensam ento.

Seguir Lara a pé em um veículo era um a tarefa chata. A ruiva se habituara à velocidade. Por isso seu pensam ento vagou por onde quis enquanto seus sentidos não a perdiam de vista. Pensou em Nicolas e essa atração forte pela m ulata. Tudo bem , ela era bonita. Está bem , era linda, m as Tam ires sabia que havia algo m ais. Podia sentir, só não identificava.

A pedra cintilava em seu peito distraidam ente enquanto cam inhava. Desconfiava que a m ulata nem percebia de tão concentrada que estava em algum pensam ento. Olhou para o horizonte. A nuvem escura cam inhava lentam ente para aquela direção. O que haveria ali? Seria ali o final da j ornada em busca de Nicolas? Mas assim tão óbvio? Só podia estar enganada.

De repente, um a luz dourada cintilou entre as nuvens cinzas e Tam ires viu Lara estacar. Algo acontecia m ais a frente. A ruiva se segurou para não partir o m ais rápido que pudesse ao encontro daquele tem po feio.

Queria entendê-la. Precisava com preender Lara. Esse m istério a enlouquecia. Fora sua ideia antecipar a chegada à Vitória, porém não fora de nenhum a utilidade. Ao contrário, tivera tem po de sobra para se com plicar. Um a parte de seu pensam ento vagou para Alexandre. E com o se com plicara! Havia chegado a um a situação insustentável. Agora agia com indiferença para tentar corrigir seu próprio im pulso. O que o m oreno estaria pensando dela agora? Que era um a m aluca, com certeza.

Voltou o foco para Lara e a estranha nuvem m ais adiante. Não queria pensar naquilo de novo. Já havia feito sua escolha. A m ulata corria então voltou a colocar o carro em m ovim ento, m esm o que m uito devagar.

Prestou atenção à corrida da m oça. Corria rápido. Suas suspeitas se confirm aram . Lara só podia ser um a deles. Mas ainda havia dúvidas? Sem pre. Ainda não tinha acontecido nada que confirm asse e nem a energia dela foi identificada. Até agora.

Foi nesse m om ento que recebeu a ligação de Lucca sobre o carro e ligara para os outros dois. Prim eiro para Alexandre, depois para Marcel. Estavam m ais perto do sítio no m om ento dessa ligação. Só podiam ir para lá.

Percebeu que a nuvem se esparram ava sobre a grande e velha casa no centro do terreno. Viu espantada quando o dourado se dissipou de repente e a nuvem seguiu seu traj eto pelo céu, para além da propriedade.

***

Alexandre se encontrou com Lucca no local onde o carro de Nicolas estava abandonado. Enquanto ouviu o relato do ruivo, o m oreno fazia suas próprias constatações. Seu olhar atento percebeu nas roupas m ais do que o outro.

– Suor.

– Com o? – perguntou o pantaneiro.

– A cam iseta está m olhada.

– Sim , eu tinha percebido, m as o que isso quer dizer?

– Você viu o ar condicionado deste carro? – retrucou Alexandre – Nicolas j am ais transpiraria assim dentro dele.

– Verdade. Encontram os o carro e o ar condicionado ligados – refletiu. – Então, está m esm o acontecendo.

– Exato. Precisam os encontrá-lo o quanto antes – disse pegando o celular. – Há um a pessoa que pode nos aj udar com isso.

– Lara.

Alexandre j á estava falando com Tam ires. Havia seguido a m ulata até o sítio onde ela estava com a fam ília. Tam bém havia encontrado Marcel. A ruiva relatou certa com oção no local, principalm ente quando o irm ão da m ulata chegou.

– Quem ? – perguntou o m oreno.

– O irm ão m ais novo de Lara – respondeu Tam ires. – Por quê... Ai, m eu Deus!

– Estam os voltando para aí agora! Não os perca de vista.

Desligou e assum iu a direção do veículo de Lucca. Mainá foi para trás. Lucca se sentou sem entender. O que estava acontecendo ali? Chegaram rápido dem ais, para a preocupação do ruivo com Mainá, que se segurava com o podia.

Foram ao encontro de Marcel e Tam ires. Am bos tinham o m esm o olhar carregado de Alexandre, constatou Lucca. Por que só ele não havia entendido? Autom aticam ente verificou o local.

Percebeu que toda a fam ília de Lara estava reunida na sala, em m eio a um a discussão calorosa. As três forças estavam ali. Espera aí. Havia um a quarta. Era m enos intensa que da m ulata, m as estava presente. Nesse instante soube quem era o dono dela e qual o problem a com os seus.

A discussão era sobre Nicolas. A voz m ais alta do grupo era de um j ovem que Lucca identificou com o o irm ão de Lara, j á que era o único m em bro da fam ília que ainda não conhecia. Parecia que o rapaz não gostava do nam orado da irm ã.

– Lorenzo, por favor, procure por ele na casa do Luis! – im plorou Lara.

– Por que eu deveria? Não sei por que se im porta com aquele canalha!

– Rapaz, o caso é sério! – exclam ou o idoso.

– Pai, não se m eta, por favor! Vá se deitar um pouco.

– Está m e cham ando de velho, Eugênio? Não viu o que eu...

– Já chega, pai, por favor!

– Não, Eugênio, j á passou da hora de Lara e Lorenzo saberem .

– Saber o quê? – perguntaram j untos os j ovens.

– Nada – apressou-se em cortar Eugênio.

– Toda a verdade sobre quem são! – retrucou bravo Francisco.

– Com o assim ?

– Pai, o senhor prom eteu...

Falaram Lorenzo, Lara e Eugênio ao m esm o tem po. O idoso suspirou.

– Não há tem po para essa discussão agora. Precisam os encontrar Nicolas. Lorenzo, você vai até a casa do Luis, sem retrucar, m enino, e vej a que horas ele saiu de lá. Francisco, aj ude a procurar pelas im ediações. Lara, pense em algum lugar onde ele possa ter ido. Um lugar onde se sinta bem .

– Vovô, o que o senhor sabe? Afinal, estou com um pressentim ento ruim , m as não tenho certeza de nada.

– Querida, no tem po certo saberá. Afaste o desespero e pense. Você provavelm ente saberá onde encontrá-lo.

– Será que ele voltou para Vitória? Meu Deus, o que terá acontecido?

– Já está anoitecendo, Lara. Não tem os tem po a perder. Vá!

Todos respeitaram o patriarca da fam ília Costa e, m esm o resm ungando, se separaram a fim de obedecerem a suas instruções. Eugênio até que pareceu aliviado, Lorenzo era o m ais irritado e Lara m uito m ais preocupada e concentrada.

O grupo se dividiu para seguir os m em bros da perturbada fam ília. Seria um a longa noite. Na casa do Luis descobriram que Nicolas nem havia aparecido. O am igo se j untou à busca e encontraram o carro abandonado do rapaz, a roupa j ogada, o tênis largado. O desespero tom ou conta de Luis e Eugênio, m ais atento aos detalhes, deixou um a ruga se instalar em sua testa. Lorenzo ficou encarregado de levar o veículo de volta ao sítio enquanto os outros dois continuaram a procura.

Enquanto isso, Lara vagava de um ponto a outro da cidade, das praias, dos bares procurando encontrar em cada um deles seu nam orado. Passou por todos os m ais im portantes, que sabia que Nicolas gostava de frequentar. Ninguém o havia visto. Tam bém ligara para Giovani inform ando-o do ocorrido e pedira para avisá-la caso aparecesse por lá.

A noite avançava e com ela a desesperança.

***

Chegara ao meu destino, mas não havia ninguém lá. Ficaram de me buscar, porém tive que ir sozinho. Procurei por alguém e não achei. Sentia como se tivesse desaparecido. Mas qual era o compromisso? Com quem? Onde? Sentia que realmente não importava, só aquela solidão me dava medo.

Eu que prezava tanto a liberdade, a tinha em todos os sentidos. Da mente, do corpo, de movimento, de vida, até de morte, mas de que me valia se não havia com quem compartilhar? Seria essa a minha morte? O fim, o desespero, a solidão, a derrota? Nem meu corpo me queria mais. Ausentara-se como para me punir.

O que ainda conservava minha existência? Meu pensamento livre e vazio? Ficaria a eternidade assim? Do purgatório direto para os braços da escuridão? Pelo menos ali não havia dor nem fome nem sede nem sentimento. Espera aí! Havia sentimento porque havia consciência.

A morte seria uma prisão mental? Uma solidão psíquica? Uma liberdade vazia? Um questionamento insistente? Nem ali haveria respostas definitivas? A solidão era como uma ilha perdida e isolada no meio da imensidão azul sem fim. O meu azul não era o oceano, era o céu. Então eu era uma ilha de ar.

Queria pelo menos batucar um dedo sobre um móvel, mas não havia nenhum nem som nem dedos. Tentei me debater com a esperança de que o gesto bruto trouxesse meu corpo de volta, mas foi em vão. A ausência do próprio tempo era de enlouquecer. Quanto havia passado? Um minuto, uma hora, um dia? Se a eternidade tivesse fluído na linha ininterrupta, não teria feito a menor diferença para mim.

Ficava impaciente. Achava melhor que o fim chegasse de uma vez do que continuar com a incerteza do que aconteceria depois. Para que continuar daquele jeito? Queria me mover, correr, voar. Sentir o vento no rosto, o calor do sol no corpo. O aroma de flores, o sabor de um fruto. A morte era insípida demais.

Sentia tanta falta do que era tangível. O abstrato era cansativo. A escuridão era vazia e meus pensamentos eram chatos. Faltava cor, faltava vida. A minha sempre fora agitada e movimentada, cercada de gente. Minha morte seria o oposto? Sobreviveria àquela solidão fria? Onde estaria meu corpo? Pelo menos com ele não sentiria minha mente no nada.

Por que tinha lembranças agora? Por que sentia falta daquilo que não poderia mais ter? Por que a inconsciência não me levava de vez? Vamos lá, mente, hora de desligar! Esperei que algo acontecesse, que a vida voltasse ou a morte apagasse minha mente. Esperei por um toque, um respiro, uma voz... qualquer coisa. O nada persistia.

Pensei em respirar, sentir o ar inflar meus pulmões. Lembrei tão bem da sensação que me pareceu real. Concentrei-me por um tempo no exercício mental. Inspirar, expirar. Inspirar, expirar. Gostei da brincadeira. Tentei pensar em aromas do que me lembrava muito bem. O verde de um parque, a maresia, uma refeição, um perfume. Hum, era tão boa a lembrança que acendeu em mim outras emoções.

A corrida por uma mata alta, cercada por um céu claro e um sol firme. A praia e seu tom iluminado feito o dia. O sabor do arroz, do feijão, de uma carne, um legume e uma salada, um tempero bom e no ponto. O sedutor aroma de uma mulher com inúmeras nuances.

Uma nova sensação despertou em minha mente, uma fome física. Eu me deleitei com as lembranças das várias mulheres que havia passado por minha vida. Loira e morena, alta e baixa, gorda e magra, bonita e feia, inteligente e avoada, tagarela e calada, risonha e chorona, quente e fria, branca e negra, rica e pobre. Cada uma havia sido especial a sua maneira e deixou de nossa convivência algo positivo, um aprendizado de vida, de coexistência, de comportamento. Que saudade de uma mulher!

Na escuridão, uma luz dourada surgiu vagarosa. Sorri por dentro. A vida retornava aos meus olhos. Tentei buscar meu corpo. Senti meus dedos e membros. Meu peito se encheu de ar ruidosamente. Meu coração bateu compassado. Estava vivo. Senti a energia correr por minhas veias e ligar meus músculos. Podia me mover. Podia correr. Podia ver. A felicidade tomando conta de mim como uma parte vital, revivendo.

Meus ouvidos captaram o som do mar, das aves, do vento, de carros, de pessoas. Podia ouvir cada um deles com suas diferenças características, porém uma voz se destacou. Suave, sensual e doce, suas notas convergiam no meu nome.

Abri os olhos. A visão que tive foi a maior surpresa. Também era de uma beleza exótica e sexy, com pequenos defeitos que só a deixavam mais bonita. O rosto muito claro era marcado por algumas sardas, os olhos verdes-claros brilhavam, a boca semiaberta em um sorriso era pequena e sedutora, desenhando uma leve marca ao redor. Mas o que chamava mais a atenção era a cor extraordinária de seu cabelo. O reflexo do sol sobre os fios vermelhos era simplesmente inacreditável. Era a mulher mais linda que já vira. Uma miragem.

Naquele momento pensei que nunca havia saído com uma ruiva antes. Não uma ruiva tão bonita e com o cabelo tão afogueado. Decorei seus traços enquanto guardava o som de sua voz que me chamava novamente. Então respondi.

– Oi, gata!