Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Josy Stoque · Capítulo 24 de 31

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Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

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Entreolharam -se durante um tem po incontável. Absorviam em seus íntim os a nova sobre aquela força m isteriosa que cercava Nicolas. Tam bém era m utável. Os olhos ferozes do rapaz diziam à m oça suas dúvidas e m edos quanto a isso. Caíram em um a arm adilha? Era provável, m as ainda assim Tam ires pensava apenas que aquele era um ser tão poderoso que m esm o Alexandre o desconhecia. Fazia tanta força para se concentrar no que fazia, m as a tensão sexual pairava entre eles, insistente. Atrapalhava dem ais.

Por que, em sã consciência, topei vigiar Lara em companhia de Alexandre?, se perguntava a ruiva. Podia encontrar vários m otivos. Não suportaria cinco m inutos ao lado de Marcel enquanto ele ia atrás de Nicolas, por m ais perto que quisesse ficar dele. Mainá e Lucca eram inseparáveis, então o que faria com eles enquanto vigiavam Michele? Ficar de vela? Já não estou muito carente, não!, afirm ou para si m esm a.Tam bém sabia que não suportaria ficar longe de Alexandre por tanto tem po. Porém isso não adm itiria nem em pensam ento.

Viram quando Nicolas deixou Lara no trabalho e ainda perm aneceu um tem po para conferir com o ela estava. Tam ires não precisava de poderes para saber que ele estava com m edo e desconfiado. Por isso, Alexandre tom ou todo o cuidado na direção do autom óvel.

Nicolas passara por eles sem notá-los, o que espantou a ruiva. Ele nem ao m enos lhes lançou um olhar rápido. Havia algo m uito errado com o instinto dele, pensara enquanto prendia até m esm o a respiração durante sua passagem . Sabia que não poderiam ser vistos por causa dos vidros escuros, m as podiam ser sentidos.

Quando o rapaz se foi, ficaram duas forças. A pedra e a m isteriosa, para o espanto de Alexandre. Acharam que a segunda seguiria o rapaz, m as perm anecera com o um a força estranha. Foi som ente depois de um tem po que notaram um a terceira, m uito sutil, porém indecifrável.

Havia um m istério m uito m aior do que previram . Mesm o estando presentes, em carne e osso, não encontravam o foco daquela energia nova. A m agia era a única explicação que conheciam e até m esm o o experiente Alexandre não sabia dar respostas.

Tam ires se frustrou com o silêncio do m oreno, enquanto seus olhares perm aneciam presos e confusos. Esperava algo m ais dele e sentiu ím peto de cobrar-lhe com firm eza, m as não o fez. Via sua nítida tentativa de aj udar. Fazia tudo que estava ao seu alcance. Não seria j usto exigir m ais do que ele podia oferecer.

Mas era frustrante e isso deixava a ruiva m ais tensa e nervosa ainda. Havia um a energia represada que precisava liberar o quanto antes. Em apenas dez segundos teve inúm eros im pulsos. Sair para a rua e gritar. Ou seria m elhor só cam inhar? Talvez um a volta no quarteirão.

Conteve-se. Em seguida, sentiu desej o de ouvir m úsica para relaxar. Passou por todas as estações e não encontrou nenhum a rádio que lhe agradasse. Tam borilou os dedos no painel do autom óvel por m ais cinco segundos antes de se virar novam ente para Alexandre.

E o m aior de todos os desej os – ou seria loucura? – a pegou de j eito. Observou os braços m ásculos e bronzeados de Alexandre tensos na direção do veículo – m esm o parado. Seu perfil duro e tam bém sedutor. O desenho único e irresistível de sua boca apetitosa. Teria sossego naqueles braços?

Mordeu os lábios. O desej o pulsando em seu corpo. Aquilo era loucura dem ais. Com o podia desej ar tanto aquele hom em ? Com o aquilo acontecera? Até ontem m al notava a sua presença, agora ela se fazia necessária, im perativa. Era bem sim ples, aliás. Precisava de Alexandre e ponto final.

Era errado pensar em beij ar o m oreno enquanto se preocupavam com um enigm a? Tam ires se achou idiota, m as a ideia sim plesm ente não a deixava. Havia lhe dito a explicação m ais sim ples porque estava incapacitado de pensar m ais. O óbvio sem pre era m ais seguro quando não estava preparada.

Sentiu-se ainda m ais tola ao perceber que Alexandre estava visivelm ente concentrado no que fazia, alheio ao seu batim ento cardíaco acelerado e aos horm ônios borbulhando em suas veias. Seu corpo estava todo pronto para tom ar posse de seu obj eto de desej o.

Feliz por não perder a cabeça, agradeceu por estar no controle de sua m ente. Porém , seria tão fácil ceder, pensou. Ele estava tão perto, há dez centím etros de distância. Estavam totalm ente sozinhos e sabia que não seriam interrom pidos nas próxim as horas. Tudo tão propício.

Nossa, com o sua cabeça estava virada. Faltava só traçar um plano de sedução infalível e colocá-lo de fato em prática. Sorriu sozinha, nervosa, porém cham ou a atenção do m oreno para ela. A conexão entre seus olhares foi restabelecida, m exendo ainda m ais com o corpo da ruiva.

Às vezes achava tolice não ceder. Fantasiar som ente aum entava um desej o sobre algo que talvez nem valesse a pena. Depois de um a experiência m ais profunda, provavelm ente desencanasse e percebesse que fora apenas um a ilusão passageira. Mas com o satisfazer aquela curiosidade sem rem orso?

Desviou os olhos rubra desej ando poder ler os pensam entos de Alexandre. Podia ver os sentim entos e de tão desnorteada, nem reparara neles enquanto o encarava. Im ediatam ente, voltou a olhar para o m oreno. Ele im itou seu gesto. Perm aneceram em silêncio, porém suas alm as berravam .

Ou Alexandre podia perceber seu conflito interno, ou tam bém o possuía. Viu em seus olhos o m esm o ardor. Seria fácil dem ais se inclinar para frente. Seria fácil dem ais estender a m ão. Seria fácil dem ais roçar aqueles lábios. Seria fácil dem ais se entregar.

Só percebeu que tudo o que pensava provocava um a reação autom ática de seu corpo quando j á estava nos braços de Alexandre. Assim com o ela, ele se sentira puxado, atraído, incapaz de se deter m esm o depois da prom essa que fizera. Hora de errar, m eu caro, seu subconsciente debochara.

A sensação de tê-la novam ente, pela própria vontade, o fez estrem ecer de prazer antecipado. Estava no paraíso. Não havia m ais m issão nem problem as. Muito m enos um irm ão. Tam bém não estavam em um carro no m eio de um a m anhã clara e ensolarada, em frente a um a m ovim entada em presa.

Estavam na pele um do outro. Fervendo. As m ãos buscando decorar as form as de seus corpos. Com o ela era quente. Com o era m acia. Com o era... Os pensam entos partiram para term os m ais lascivos e Alexandre os perm itiu. Estava fora de controle agora. Só havia aqueles lábios saborosos entre os seus.

Ao m esm o tem po em que deitava o banco do carro a puxava para cim a de si. Ela se encaixou com perfeição. Parecia feita para estar ali. Com o aguentara tanto tem po sem aquilo? Seu corpo se m ovia no m esm o ritm o e com o m esm o desej o sobre o dele. Tam ires tam bém o queria e isso o deixava ainda m ais ansioso.

Suas m ãos a apertaram urgentes. Com o passara de um a prom essa descum prida para um a cena de paixão ardente, tórrida, com o aquela? Pouco im portava agora. Ainda estava cum prindo sua parte. Estava fazendo som ente o que ela queria. Ou o que seu corpo exigia de form a convincente.

O m elhor era ela estar no controle da situação. Era ainda m ais excitante. Ela se m ostrou m uito sexy e sedutora de form a natural e im pulsiva, nada vulgar. Suas m ãos buscavam sua pele m orena sob o tecido das roupas e Alexandre esquentava cada vez m ais. Logo pegaria fogo.

Não pararam de se beij ar com desespero em nenhum segundo. A respiração de am bos estava pesada e sonora, m as tinham m edo de parar e perder a oportunidade de saciar o desej o insano e im pensado. As m ãos se encarregavam do resto. Os corpos se aderiam um ao outro quase os transform ando em um só.

Precisavam seguir em frente, tinham pressa, m as tam bém não queriam que o m om ento findasse. O desej o era bom . Tinha um sabor inebriante, viciante. Era m elhor que a concretização do sonho. O prelúdio da paixão intensa. A ponta do icebarg. O m apa do tesouro.

Ainda assim , as m ãos de Alexandre partiram para os botões da blusa de Tam ires. Não podia aguentar m ais para tê-la. Abriu com cuidado suficiente para não errar e o m ais depressa que pode. Por outro lado, ela arrancou quase a cabeça dele para tirar-lhe a cam iseta.

Nesse m om ento, com suas bocas longes, puderam se olhar m ais um a vez. Um segundo eterno. Tam ires ficava ainda m ais linda afogueada. A pele rosada. Os olhos brilhantes de prazer. Alexandre estava ainda m ais sexy e irresistível visto daquele ângulo. Seu peito nu e bronzeado cheio de gom inhos rij os subindo e descendo conform e arfava.

Não haveria sofreguidão algum a em se entregar para ele. Ao contrário, seria a glória. E nem im portava que fosse em um carro, no m aior desconforto, no m eio do distrito industrial de um a cidade desconhecida. Não im portava que estivesse negligenciando sua m issão.

Alexandre, por sua vez, não podia adiar m ais um segundo sequer. Puxou-a de volta para senti-la por inteiro enquanto suas m ãos continuavam a vasculhar incansavelm ente sua pele desnuda, suas form as voluptuosas e sensuais. Toda a barreira que encontrou sobre sua pele conseguiu rom per com facilidade.

Enquanto saboreava o gosto forte e deslum brante dele, Tam ires se sentia pronta. Nunca tivera tanta certeza de algo em sua vida com o naquele m om ento. Ou seria agora, ou nunca. O m oreno seria seu nem que por um m om ento furtivo e roubado, um tem po não perm itido, m as ainda assim aproveitado.

Um a cam painha com eçou a tocar insistentem ente. Era irritante. Nada podia pará-los agora a não ser aquele toque m aldito. Ainda assim , ignoraram . Estava tão distante. Porém de um a persistência perturbadora. Após a décim a tentativa, cansaram e interrom peram o beij o acabando com o clim a.

Tam ires pulou bufando para o banco do passageiro ao m esm o tem po em que aj eitava sua roupa. Alexandre achou o aparelho celular em baixo do banco do m otorista. Atendeu com rispidez. Era Marcel avisando que Nicolas voltava para o prédio do trabalho de Lara.

Ao desligar, ficaram em silêncio. Tam ires pensou em quanto havia sido providencial aquela ligação. Não queria ser pega no flagra por Marcel – ainda m ais por quem ! Alexandre se criticava por ter perdido o foco em um m om ento tão delicado. Mas com o resistir àquela m ulher?

Um a troca de olhares e souberam que haviam perdido um a grande e im pulsiva oportunidade. Quando ela aconteceria novam ente? Não sabiam e ainda assim não desej avam outra coisa. Seria apenas um m om ento adiado? Tam ires tinha dúvidas. Com tem po para pensar, ficaria m ais difícil ceder dali para frente.

Quanto m ais provava dela, m ais com plicado ficava resistir à tentação de tom á-la em seus braços e am á-la. Quanto m ais longe chegava e quanto m ais receptividade recebia, m ais certo ficava de que não pararia ali. Só não tinha tanta certeza quanto a ela. Seria tam bém sim ples assim ? Bastava querer, dissera e cum priria essa prom essa, até o últim o m inuto.

***

A tarde transcorreu sem m ais sobressaltos. Lucca perm aneceu na cola de Michele, o que não foi difícil porque a patricinha fazia atividades bem descontraídas com o academ ia e shopping. Prestando atenção em sua conversa com as pessoas que encontrava, não viu nada suspeito.

Mainá perm aneceu enlevada, relem brando o sonho que tivera sobre o filho que esperava. O tem po passava lentam ente para sua vontade de ver seu ventre crescer j unto com a criança que traria ao m undo. Aquela criança am ada e abençoada desde sua concepção.

Marcel perseguiu um perturbado Nicolas, inquieto, não conseguia se concentrar em nada. O loiro o percebeu distante e pensativo na m aior parte do tem po, principalm ente quando não estava com Lara. Com o se estivesse concentrado em algo. Dessa vez, tom ou cuidado redobrado para não ser visto.

Tam ires vociferou contra sua própria m ente em seu interior. Por que conseguia prestar atenção a Lara e ao m esm o tem po nos m ovim entos, inclusive respiratórios, de Alexandre? Por que seu cérebro ficara tão evoluído? Só para torturá-la? O restante do dia seguiu arrastado e silencioso no carro.

Alexandre estava atento tam bém a cada gesto da ruiva, esperando um sinal de que quisesse continuar do ponto que pararam de m anhã. Porém ela o evitou. O silêncio era denso e constrangedor, m as não sabia com o quebrar o gelo. Algo havia se partido, talvez para sem pre.

À noite, de volta ao hotel depois do dia de vigilância, o grupo sabia que não parava por ali. Haveria a balada de logo m ais. Afinal, era sexta-feira. Dividiram -se a fim de se aprontarem para sair após um j antar no qual trocaram ideias. Concordaram que algo estranho – m ais do que o norm al – estava no ar. Principalm ente ao redor de Nicolas.

A distância que m anteve de Alexandre cham ou a atenção dos dem ais, m as ninguém c om e ntou. Lucca percebeu que ela evitou seu olhar, talvez estivesse escondendo algum pensam ento. Quando chegaram à boate, seguindo Nicolas e seu grupo de am igos, ela não ficou ao lado do m oreno.

O grupo se dividiu pelo salão ao redor do vigiado de form a disform e e sem cham ar nenhum a atenção. A distância aj udou m uito a ruiva a colocar a cabeça no lugar. Não queria perdê-la de novo. Estava m uito perto de com eter um a loucura. Um a loucura m uito desej ada, m as ainda não deixava de ser insanidade.

Para o casal separado, foi a noite m ais enfadonha de suas vidas. Buscaram concentrar seus pensam entos e olhares em Nicolas e sua tropa de baladeiros em vez de buscarem um ao outro na m ultidão. Só era im possível não se encontrarem com facilidade. A presença um do outro era palpável entre tantos corpos hum anos.

Nicolas não se afastava de Lara. Procurava ao redor por algo suspeito que tem esse. Ela com eçava a ficar irritada com tam anha proteção. Sabia que não precisava daquilo. Não estava em perigo. Seu único tem or era perder o rapaz. E não entendia porque j á que fora m orar com ele.

Michele estava entre o outro grupo e seu olhar furtivo buscava sem pre o casal apaixonado da roda. Quer dizer, o segundo, j á que Giovani e Milene com em oravam a data próxim a do tão esperado casam ento. A garota assistia aquela m elação com náusea, de tanta invej a e despeito.

A balada term inou cedo. O grupo que espionava até estranhou, m as logo entendeu que Nicolas e Lara tinham planos para o dia seguinte. Tam ires percebeu com o o rapaz estava m udando sua rotina por conta da m ulata. Ficou satisfeita com sua sensibilidade e esperançosa tam bém com a aproxim ação em breve.

Percebeu que o casal não incluíra m ais ninguém nesses planos. Deixaram os outros dizendo um até logo sorridente e foram direto para o apartam ento. Marcel não precisava ficar para saber o que aconteceria. Apenas se certificou do horário que pretendia acordar antes de ir para o hotel.

Michele tam bém resolveu ir em bora cedo, libertando os vigilantes. Perceberam que seu ciúm es e despeito não desafiava a segurança de Nicolas, portanto a acom panharam até o apartam ento e tam bém foram descansar. No hotel, m arcaram a hora de despertar e foram dorm ir. Estavam cansados, m as tam bém ansiosos.

***

O dia seguinte am anheceu nublado. Nuvens cinzas, estranhas e baixas, entristeciam o céu sem pre azul de Vitória. Lucca não apreciou aquele cenário nebuloso. Parecia um m au presságio. Ainda assim , guardou seus tem ores para si. Mainá, claro, percebeu e Tam ires ainda evitava encará-lo.

Decidiram partir em dois carros, por garantia, caso precisassem se separar em Conceição da Barra. Alexandre teve apenas a com panhia de Marcel no carro que dirigia. Os rapazes viaj aram calados enquanto viam a nuvem escura acom panhá-los em todo o traj eto. Tam ires foi deitada no banco de trás do carro, refletindo, enquanto o casal ia na frente falando m uito pouco tam bém . Literalm ente havia algo no ar. Algo sinistro.

No sítio da fam ília de Lara perceberam , de im ediato, duas coisas. Prim eiro que Nicolas relaxou visivelm ente. Sua apreensão anterior deu lugar a um a vivacidade m eio exagerada, quase dissim ulada. Não entenderam o por quê. E segundo, o encontro de três forças distintas, porém estranhas – com o sem pre.

Aquela força dourada que perseguia Lara estava palpável no sítio, triplicada. Era um pouco m ais fácil identificá-la. Não havia com o terem dúvidas de sua presença no local, porém ainda era um a força no ar, sem origem ou m otivação. Apenas presente. Marcel o com parou – afinal – com o um escudo.

E qual seria seu obj etivo? Im possível definir! Porém , im ediatam ente, largaram os carros a certa distância, fora do possível cam inho que os m oradores tom ariam , e Marcel e Alexandre partiram a pé para reconhecim ento da área. Claro que Tam ires ficou m uito brava por ter sido excluída, m as não brigou. Preferia m anter-se longe do m oreno.

Os rapazes se m oviam com o som bra através da rica vegetação. Seus passos eram silenciosos e suaves. Jam ais ouvidos com uns os perceberiam . Moveram -se rápido, tornando-se borrões invisíveis. A força física e os m úsculos salientes aj udavam a ganhar m ais im pulso e velocidade.

Marcel tinha que reconhecer que o treinam ento de Alexandre surtira um efeito positivo e rápido em todas as habilidades que possuíam . Mesm o treinando m uito pouco, porque era preguiçoso e orgulhoso, o loiro ainda percebia a nítida diferença que orientação e dedicação fizeram em seu corpo.

Prom eteu a si m esm o que na volta se dedicaria m ais. O pensam ento o levou de volta para casa e fê-lo sentir novam ente por Suzane e sua falta de forças. Sabia que ela j am ais poderia treinar com eles. Não enquanto teim asse em se esforçar m ais do que devia. Esperava que o dia de sua transform ação chegasse logo e a revigorasse.

Alexandre buscou sua concentração fria e calculada para enfrentar aquele novo desafio. Andara distraído dem ais por conta daquela atração sem cabim ento por Tam ires. Censurou-se sem piedade ainda que soubesse que, bastava chegar perto dela de novo para que toda sua convicção esvaísse.

No centro do terreno vasto do sítio estava a casa. Modesta, porém um a construção antiga e grande, provavelm ente da época colonial. Havia sido reform ada há alguns anos, porém a ação do tem po fez as paredes descascarem e necessitava de um a nova obra.

Os dois não se aproxim aram m uito. Podiam ouvir tudo m uito bem exatam ente de onde estavam – cerca de cem m etros de distância. Com m edo que as forças os identificasse – se j á não o tivessem feito – m antiveram cautela. A conversa estava anim ada na sala onde Lara e Nicolas eram recebidos pelos fam iliares da m oça.

– Que bom revê-los tão cedo! – exclam ou a voz de um a m ulher.

– É, nem deu para sentir saudade – resm ungou um a velha.

– Mam ãe! – exclam ou a prim eira voz.

– É só m odo de dizer. Estou feliz que m eus netos estej am de volta tão rápido.

– Obrigado, dona Teresa. O sentim ento é recíproco – respondeu Nicolas.

Sua voz estava sorridente. Podiam notar a satisfação no tom que falava.

Um cochicho veio de outro côm odo.

– Já esperei tem po dem ais, Eugênio.

– Papai, por favor, eu im ploro.

– Você sabe o quanto isso é im portante.

– Eu sei, eu sei.

– Então?

Um breve silêncio se fez.

– Tudo bem – bufou o segundo. – Prom eto que vou cuidar disso.

A voz do prim eiro se fez ouvir m ais alta na sala da frente nos segundos seguintes.

– Minha neta querida! Sem pre m orro de saudades de você!

– Oi, vovô! Tam bém sinto m uito sua falta.

– Graças a Deus voltaram depressa. Estava ansioso em revê-los.

– Aconteceu algum a coisa? – preocupou-se Lara.

– Não, querida. Ainda não.

Alexandre e Marcel ouviram Eugênio bufar m uito baixinho.

– Ainda não? – perguntou a neta.

– Não ligue, filha, você sabe com o é seu avô – respondeu o pai. – Vem aqui dar um abraço apertado em seu velho. Até parece que não sente saudades de m im .

A m anhã passou agradável em fam ília e o alm oço foi servido pontualm ente ao m eio-dia. Marcel caçoou dessa pontualidade. Parecia superstição. Nesse m eio tem po, havia voltado ao encontro dos outros e inform ado detalhes sobre tudo o que viram e ouviram . Ainda assim , só os dois chegavam perto da casa.

Após o alm oço, os avós foram tirar um a sesta. Eugênio se apressou em arranj ar algum a atividade na plantação e o filho Lorenzo aproveitou a deixa para se afastar. Odiava que sua irm ã estivesse nam orando aquele safado do Nicolas. Só Margarida tentou resistir m ais um tem po, sendo vencida pela louça suj a na pia.

Nicolas e Lara se viram sozinhos novam ente. Haviam com binado não falar nada sobre estarem m orando j untos, pelo m enos por enquanto, até se acostum arem com a ideia do nam oro. Os celulares de am bos tocaram ao m esm o tem po e riram enquanto atendiam .

Foi um a trem enda coincidência. Pietra, a m elhor e m ais antiga am iga de Lara, desej ava vê-la. Já fazia um tem pinho que se encontraram e estava acostum ada a passarem j untas no final de sem ana. No telefone de Nicolas, Luis tam bém ressurgia de seu passado. Ficou tão feliz que foi logo m arcando de ir ao seu encontro.

O casal estava tão leve e despreocupado que não viu problem a em se separar por algum as horas enquanto reencontravam seus am igos de infância. Tam bém queriam m anter suas particularidades e dividir suas im pressões com pessoas em quem sem pre confiaram .

Lara avisou a m ãe e saiu com Nicolas no carro em que viaj aram até Conceição. Correndo, Alexandre foi ao encontro do grupo que aguardava próxim o aos autom óveis e pediu para que fossem atrás do casal nos dois carros, j á que se separariam . Marcel e ele ficariam no sítio, sondando um pouco m ais.

Nicolas deixou Lara em frente à casa de Pietra e se despediu dela com a prom essa de voltar para buscá-la m ais tarde. Tam ires se aproxim ou pouco depois que ele partiu, concentrando-se na m ulata e seu encontro am igável e descontraído com a m elhor am iga. Viu Lucca seguir o rastro de Nicolas.

Tam ires prestava atenção a tudo que Lara dizia ou fazia dentro da casa de Pietra. Ficou contente com a em polgação da m oça. Percebeu que a ligação da am iga fora providencial pois estava doida para dividir as últim as novidades com alguém , j á que a fam ília ainda não podia saber.

A ruiva sorriu. Os j ovens – apesar de ela não ser tão m ais velha que Lara – eram em polgados e im pulsivos. Em seguida, se censurou pelo pensam ento. E o que ela havia feito nos últim os tem pos? Não era im pulsivo o bastante quase transar com Alexandre – seu cunhado, obrigou-se a lem brar – em um autom óvel em pleno dia?

Por que sem pre voltava ao tem a Alexandre? Sua m ente lhe provocava peças estranhas e desconcertantes. Estava m ais do que na hora de focar em seu obj etivo principal ali. Lara. Nicolas. A energia desconhecida. O futuro incerto de sua m issão. A proxim idade do alinham ento. Não tinha porque pensar em paixão agora.

Lucca se m antinha no rastro sutil de Nicolas sem verdadeiram ente vê-lo com seus olhos. Com cautela, com m edo de ser percebido – ainda m ais que o rapaz andava m eio desconfiado – não usou dos sentidos com uns para se guiar. Até apreciou a chance j á que pouco usara de suas habilidades desde que as descobrira.

Mainá estava silenciosa e tensa ao seu lado e procurou não se distrair com ela. Sabia que era apenas ansiedade norm al pela perseguição, nada m ais sério. Tinha que se m anter focado. Ainda era novo nisso e a energia de Nicolas era bem leve e quase im perceptível. Parecia se m isturar ao ar.

Esse pensam ento fê-lo observar novam ente o céu e reforçar o m au presságio. A nuvem escura se tornava ainda m ais densa, anunciando um a tem pestade. Com o para confirm ar seu m au agouro, um vento com eçou a soprar. Prim eiro rem exia de leve os obj etos que encontrava. Mas por fim , fazia outros voarem velozm ente.

Na curva seguinte, o vento tom ou o cam inho oposto, levando consigo o pouco que restava do rastro de Nicolas.