Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Josy Stoque · Capítulo 14 de 31

Páginas do PDF

Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Revigorado

REVIG ORADO

 

O entardecer pairou sobre Castelo como uma nuvem de fumaça. As cores vibrantes daquele dia ensolarado ganharam um tom acinzentado e escuro. O verde da mata era um grafite denso. O cinza claro das rochas passou para o negro. O céu azul claro tornou-se marinho. O dourado do sol se escondia atrás de uma montanha que se fendia e deixava escapar um raio alaranjado insistente.

Não podia ver, mas sabia que, por trás daquele enorme granito, o sol ainda estaria redondo e brilhante, tingindo aquele canto longínquo do firmamento com uma cor parecida com o fogo. E continuava emanando seu calor que proporcionava vida ao planeta Terra, ignorando a noite que se forçava sobre ele e trazia consigo o frescor.

A meu ver, aquele era um momento mágico. Em um breve instante, o dia e a noite permaneciam juntos, contrariando a física, a química e a razão. Como pode haver escuridão se ainda existe luz? E como pode haver luz se as trevas se fecham sobre ela? Não podia negar que havia um toldo diante dos meus olhos. Uma cortina acinzentada e fria com um toque de cor e calor. O crepúsculo.

Talvez aquilo fosse um sinal. Ou Deus, a mãe natureza, o universo – enfim, que fosse qualquer um deles – quisesse me dizer que o impossível era possível. Por um instante, esse pensamento fez todo o sentido e me confortou. Quem sabe fosse plausível conviver com a razão e a insanidade. Afinal, não era o que fazia há um tempo?

Enquanto dirigia minha moto, sentindo no rosto o contato do vento, avaliava meu próprio estado. Havia acontecido uma mágica em mim também. Estava bem, eletrizado, eufórico de um jeito não natural. Como nunca havia estado antes. Meu corpo estava alterado, como se tivesse ingerido uma dose de droga. A mudança fora tão instantânea e intensa quanto o efeito de uma carreira de pó.

Estava elétrico e cheio de energia. Sentia que podia ir a qualquer lugar que quisesse e não me cansaria. Podia dirigir sem rumo durante horas sem pensar em parar, enquanto a paisagem se descortinava a cada curva sob o véu da noite. Mas, mais forte do que nunca, uma atração me puxava de volta para Vitória.

Era engraçado como tudo tinha sua própria energia. Podia sentir uma força ao meu redor, constante e intensa, se moldando ao formato de meu corpo. Também podia sentir o poder da natureza e sua solene espera e existência. E também podia identificar claramente aquela atração insana que me chamava, exigente.

Sorri com certa malícia ao pensar na dona daquela energia atrativa. O que estaria acontecendo com ela agora? Apalpei os bolsos em busca de meu celular e logo senti falta dele. Onde estaria?

Uma curva fechada a frente e tive que reduzir a velocidade. Era sutil, mas enquanto a contornava, o sol finalmente se foi. A noite mudou de novo a cor do cenário ora montanhoso ora plano ao meu redor e me distraiu. Minha visão se maravilhava com o espetáculo.

Conhecia muito bem aquele lugar e aquele caminho, inclusive durante a noite. Porém era a primeira vez que o via com perfeição. Por isso me perdi em novas análises facilmente, esquecido do mundo e de tudo. Meu espírito, mais leve, absorvia com facilidade as coisas boas que o universo me apresentava.

Era uma esponja. Aspirava as novidades e quando ficava inflado demais, me torcia e debatia até que o excesso fosse eliminado. E lá estava de novo no ponto certo para uma nova inalação. Eu me sentia como uma esponja nova.

Com todos os meus sentidos em estado constante de alerta, era fácil me distrair com o quer que passasse no meu caminho. O som de um carro ao longe, o barulho inigualável – e quase imperceptível para a maioria das pessoas – das montanhas, da mata e dos animais, uma voz distante, a pressão do vento em meu corpo.

Acima de tudo me sentia forte. Talvez não fosse a palavra certa para definir o sentimento, mas era a mais próxima. Ainda mais porque mais cedo mal conseguia controlar meu próprio corpo. Agora o dominava completamente, com uma dose extra de energia. Como a carga máxima de uma bateria potente.

Quase desci da moto para testar a velocidade que meus músculos rígidos poderiam alcançar. Podia apostar que chegaria mais rápido a pé do que com minha poderosa mil cilindradas. Sorri para ninguém – já que o capacete cobria meu rosto. Virei o punho direito novamente e a moto arrancou sonora.

Já estava acima dos duzentos quilômetros por hora. Aquela pista estava tranquila. Vez ou outra cruzava com um veículo, que ficava para trás com uma rapidez fantástica. Nem me preocupei. A sensação era tão boa que foi a única coisa que conquistou algum pensamento meu.

Minha mente parecia sugada a vácuo. Enquanto a ventania batia em mim violentamente, arrastava consigo tudo que tinha. Só faltava me deixar nu. Porém, meu corpo revigorado não sofria. Podia dirigir daquela maneira ainda por muito mais tempo antes de começar a me sentir cansado.

Não percebi que o tempo havia passado rápido. Somente quando avistei a placa que indicava a primeira entrada de Vitória por aquela estrada. Meu estômago se contraiu e não soube explicar o porquê daquela ansiedade. O que poderia temer? O que meu íntimo desejava e escondia de mim?

Talvez fosse pelo fato de estar dopado, não no sentido usual da palavra. Minha mente não estava trabalhando na frequência certa e não conseguia concluir um pensamento sequer quando se tratava de assuntos sérios. Na verdade, nem sabia o que isso significava naquele momento.

Um sorriso bobo teimava em permanecer na minha boca e não me incomodei. Sentia meus olhos esbugalhados, pouco piscavam. Minhas mãos e meus pés estavam inquietos quando deveriam estar repousados suavemente sobre o guidão e pedal da moto.

Entrei na cidade e avistei a Baía Vitória em tom escuro sobre o efeito da noite. Os reflexos das luzes da cidade se misturavam na superfície. Uma tentação estranha fez meu corpo formigar a partir dos pés até percorrer todo ele. Algo tinha pressa dentro de mim, mas precisava desacelerar.

Cheguei ao prédio com a estranha sensação de que não deveria ir para lá. Não era um alerta de perigo, então ignorei. Como sabia disso, não fazia ideia. Deixei a moto na garagem e subi no elevador até o andar de meu apartamento. Antes de alcançar a entrada, sabia que estava vazio. Nos vizinhos podia ouvir gente conversando, televisão ligada, panelas no fogo. O meu era só silêncio.

Ao abrir a porta, um breve aperto no peito. Fui direto para o telefone e ouvi os recados. Giovani havia ligado onze vezes no fixo. Procurei por meu celular praticamente com a certeza de que estaria por ali e conferi o bina. Havia vinte e três ligações perdidas. Mas somente uma ganhou toda a minha atenção.

No LCD luminoso, o nome de Lara piscava como em néon. Meu coração saltitou descompassado e aquela falta absurda e descomunal apertou meus pulmões contra as costelas. Quase perdi o ar. Antes de entrar em crise de abstinência, apertei o botão discar e retornei a ligação.

– Nicolas! – o alívio em sua voz fez meu coração se acalmar.

– Oi – quase suspirei.

– Você está bem? – a pergunta não foi comum. Lara estava preocupada.

– Sim, por quê?

O telefone ficou mudo. Se não estivesse ouvindo sua respiração suave do outro lado, acharia que a ligação havia caído.

– Você não retornou minha ligação antes. – sua resposta foi seca.

– Esqueci o celular em casa. – Ela não disse mais nada, senti que hesitava. – O que vai fazer hoje à noite? – perguntei antes que ela desligasse.

Minha dose de Lara estava muito baixa. Precisava vê-la.

– Nada. – respondeu, seu tom levemente exultante.

Sorri ao perceber que também desejava me ver.

– Vamos sair para um barzinho? Dançar, talvez?

Lara concordou e desliguei o telefone combinando de pegá-la dali duas horas. O formigamento me fez lembrar que precisava de algo mais. Por um momento, pensara que fosse falta da mulata, mas agora via que não. Precisava lavar meu corpo, mas não podia ser com a água quente do chuveiro. Dei meia volta e saí de novo.

***

Tam ires desceu do avião e parou para rever o cenário de sua am ada cidade. Aprendera a adorá-la com o a um a terra natal. A nostalgia a alcançou, porém não sorriu. Não estava ali para recobrar seu passado, m as sim para com eçar seu futuro.

Apesar da paisagem im utável – às vezes pensava que nada poderia alterar aquelas m ontanhas, aquele verde, m as sabia que era ilusão; cada vez m ais prédios se erguiam , substituindo árvores centenárias – a visão era assoladora.

Um vento frio uivava quando cortava seu cam inho, carregando consigo folhas secas, sem vida, e até lixo. Um redem oinho de vento am ontoava entulho na frente do avião. Olhou para trás e ninguém a estava seguindo para fora da aeronave.

Escuridão lá dentro onde antes havia m uitas pessoas e luz. O prédio do aeroporto estava às escuras. A pista não estava totalm ente ilum inada, m as isso não era problem a para sua visão perfeita.

Sentiu o m edo inj etar adrenalina em seu sangue e aj udá-la a ficar m ais alerta. Era im possível, para um a cidade do tam anho de Foz do Iguaçu, estar parada daquele j eito. Mesm o se fosse m adrugada, o que não era.

Tom ando cuidado, cam inhou para fora do prédio do aeroporto para constatar que a desolação prosseguia rua afora. Não havia viva alm a. O vento tinha cam inho livre e carregava m uito entulho. Parecia um a cena saída de um film e de terror.

Estrem eceu. O que poderia ter acontecido à cidade? Onde estava todo m undo? E foi nesse m om ento que um a lâm pada acendeu em seu cérebro. Gustavo. Sofia. Podiam estar em perigo.

Usando sua força e energia sobre-hum ana, correu com as próprias pernas até o centro de Foz. O cenário estava im utável, com o ela m esm a havia constatado ao pousar, m as era horrível de ver.

Lágrim as escorriam por sua face enquanto o vento açoitava seu rosto e terra grudava nas m arcas deixadas por elas. A cidade era só abandono e destruição. Fachadas de vidro estavam estilhaçadas, portas de aço tortas, portões de m adeira quebrados.

Afinal, o fim do m undo havia chegado. Onde estava que não viu? O desespero encheu seu peito e com um grito de pavor, Tam ires cham ou:

– Gustavo! Sofia!

O prédio onde m orara com sua pequena fam ília estava no m esm o estado que os outros. Ainda assim , quis entrar para conferir. O som do vento cessou assim que cruzou a entrada e um novo som a fez tem er novam ente.

O choro constante e doloroso de um a criança parecia vir de toda a parte. Correu para a prim eira porta que viu achando que vinha dali, m as não encontrou ninguém . O pranto vinha agora de outro côm odo. Correu para ele. Mas tam bém estava vazio. Desesperada, continuou tentando perseguir o choro, sem notar que andava em círculos. Resolveu partir para os andares de cim a e com eçou a cham ar por sua filha. Algo lhe dizia que Sofia sofria.

Naquele instante, soube que havia com etido o m aior erro de sua vida. Nunca deveria ter deixado a filha com Gustavo. Onde estava ele? Por que a deixara sozinha? Agora com raiva, a ruiva berrou cham ando pelo m arido.

O assustador eco a fez cam balear. Havia gritado m ais forte do que pretendia ou a acústica do prédio rebateu seu cham ado em um tom m ais alto? Não tinha tem po nem paciência para tentar com preender.

Precisava achar Gustavo e acabar com ele. E principalm ente, precisava encontrar Sofia e salvá-la daquela destruição. Quantos dias estaria sem com ida, sem bebida, sem um a cam a quentinha para dorm ir?

Revoltada, resolveu que Gustavo não era m esm o im portante. Não valia a pena nem brigar com ele. Im portaria-se apenas com sua filhinha, indefesa, perdida e abandonada naquele lugar desolado.

Em todos os andares pelos quais passava, cham ava e procurava por Sofia. Ela sem pre parecia próxim a, porém nunca estava onde deveria. Mas não desistiu e continuou subindo até alcançar a cobertura.

A porta estava intacta ao cruzá-la. Até sentiu ódio ao perceber que, da cidade toda, a cobertura, que outrora tam bém fora sua, estava perfeita, lim pa, arrum ada e abastecida com alim entos frescos.

No topo do j ornal sobre a m esa, conferiu a data. A m anchete dizia: OHOMEM MAIS RICO DO MUNDO COMPRA A CIDADE DE FOZ DO IGUAÇU E EXPULSA TODA A POPULAÇÃO. Um a foto de Gustavo do Valle estam pava quase m eia página.

O hom em m ais rico do m undo? Desde quando? Sentiu a cabeça latej ar de raiva. Gustavo havia enlouquecido? Para quê ele queria um a cidade inteira?

Onde estava Sofia? Foi a pergunta que povoou sua m ente na hora. Precisava salvá-la da insanidade do pai. Enquanto vasculhava o apartam ento, sentia gana de estragar tudo que estava em seu cam inho, m as não o fez. Estava em um a busca tão insana que dem orou para perceber que o choro havia cessado. Quando finalm ente despertou, ouviu um lam ento m uito baixo.

– Mas eu quero a m am ãe – fungou a criança.

A voz grave e bela de um hom em respondeu.

– Já te expliquei, querida, que ela nunca m ais vai voltar.

Seus olhos se averm elharam e pisando duro foi direto para o quarto de sua filha. Gustavo estava ao lado da cam a e quando a viu cruzar a porta, seus olhos m udaram de calm a para surpresa com um toque de m alícia.

– Para onde ela foi? – Sofia voltou a questionar.

Manteve o contato visual com a ruiva enquanto respondia no m esm o tom sereno e tranquilizador de antes.

– Para o céu.

Aquilo foi dem ais para Tam ires. Estava disposta a feri-lo desta vez.

– Com o ousa – com eçou a dizer enquanto encurtava o espaço entre eles – dizer que m orri!

O sorriso descaradam ente satisfeito transform ou todo o rosto de Gustavo. Era a encarnação da ironia e do escárnio.

O corpo de Tam ires foi ricocheteado por um obstáculo invisível a dois passos da cam a de sua filha. Enquanto ela berrava e gesticulava, Gustavo se voltou para Sofia, que ainda fungava.

– Por quê? – a criança perguntou, totalm ente alheia a presença da m ãe no quarto.

– Porque Deus a cham ou. Ela virou um anj o – respondeu o hom em ignorando com pletam ente as súplicas da ruiva.

Com espanto, dor e revolta percebeu que Sofia não podia ouvi-la nem vê-la. O que Gustavo havia feito? Esm urrou por algum tem po a barreira invisível enquanto via a pequena filha finalm ente adorm ecer.

Gustavo não se virou m ais para ela. Esprem eu-se na bicam a abaixo e adorm eceu quase que instantaneam ente ao lado da filha.

Nada im portava m ais. Havia perdido sua filha, seu m arido, seu casam ento, sua verdadeira fam ília. Por que ainda vivia? Cam inhou lentam ente de volta para a sala, foi até a sacada e subiu no parapeito.

Fechou os olhos e se inclinou sem olhar até sentir o corpo com eçar a cair. Não tem eu o im pacto. Apenas esperava pelo alívio im ediato. Seu corpo caiu por um tem po sem fim . Estava em um buraco negro?

Não resistiu a tentação de abrir os olhos e quando o fez, o breu havia tom ado conta de todo o cenário. Estava no vazio de novo? Estaria m orta finalm ente? Não sentia nada, m as com eçou a chorar.

De repente, alguém a chacoalhou e a cham ou. Em um passe de m ágica tudo se ilum inou. Um rosto m oreno e grave a olhava com preocupação. Gustavo? Não, era parecido, m as não era ele.

– Tam ires? Você está bem ?

Olhou ao redor e reconheceu o avião. Não era o m esm o do sonho e em um estalar de dedos se lem brou para onde estava indo.

– Alexandre! – exclam ou com alívio.

– Sim ! Você está bem ?– insistiu.

Tam ires se j ogou nos braços do hom em m usculoso e forte e chorou abertam ente. Desde quando parara de ter pesadelos? Há algum tem po, percebia agora. A partir do m om ento em que passaram a ser reais. Não precisava m ais fechar os olhos para vivê-los. Estavam presentes im pedindo que sequer os fechasse.

Apertando-a com força, o m oreno acrescentou.

– Chegam os a terceira e últim a conexão. Tem os quase três horas de espera. Descanse agora. Vai ficar tudo bem .