Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Josy Stoque · Capítulo 28 de 31

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Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Transtorno

 

A m adrugada fora longa e Tam ires estava cansada de procurar sem sucesso. Volta e m eia cobrava de Marcel algum a pista, rastro ou sinal de Nicolas, m as ainda não havia nada. O grande grupo vasculhou a pequena Conceição da Barra inteira.

O m au tem po se dissolvera quase que totalm ente no horizonte quando Marcel sugeriu que seguissem em sua direção. Não havia ponto de energia, m as algo visual e estranho naquelas nuvens carregadas. Todos haviam visto a força dourada explodir em m eio à tem pestade.

Finalm ente a própria Lara tivera um a nova ideia e seus olhos dourados brilharam de esperança.

– A Vila Itaúnas!

Logo convergiram os quase trinta quilôm etros até lá para constatar com seus próprios olhos que o tem po feio estava parado sobre o lugar. Não seria difícil procurar ali, com seus poucos quarteirões. Seria m ais difícil não se esbarrarem .

Para garantir que não se encontrariam , Tam ires e seu grupo ficaram do lado de fora da vila, na m argem direita do rio Itaúnas onde as dunas com eçavam enquanto Lara e seus fam iliares vasculhavam as quadras.

Nada de Nicolas. O Parque Estadual de Itaúnas era im enso, então cada um partiu para um a direção. Ali era o últim o lugar e tinham certeza de que o encontrariam .

A noite estava tão escura, m as não precisavam de lanternas. Mainá havia ficado no carro para descansar enquanto os quatro procuravam incansavelm ente.

Perto do am anhecer, as nuvens pesadas se dissiparam por com pleto e nesse m om ento puderam sentir de novo a energia de Nicolas, sem pre tão instável, porém estava constante e forte.

A pessoa m ais próxim a da localização exata do rapaz era Tam ires que o encontrou prim eiro. Estava apagado e sem inu sobre a areia fina próxim o a um a gruta. Ficou tão feliz em vê-lo que nem se preocupou com o que pensaria ao olhá-la, tentou logo acordá-lo cham ando-o pelo nom e.

– Nicolas, pode m e ouvir? Acorde, por favor.

Viu um sorriso desenhar em seu rosto ainda adorm ecido. Estaria tendo um sonho bom ? Ficou ainda m ais feliz por encontrá-lo bem , o rosto pálido, corado e saudável. O peito nu inflando devagar. Estava tão natural em seu descanso que não causava m aiores grandes preocupações. Mas preferia que acordasse. Precisava saber se j á havia term inado, se estava m esm o bem . Por isso, cham ou de novo com doçura e paciência, e viu seu sorriso aum entar.

Repentinam ente, seus olhos, de um azul-turquesa inesquecível, se abriram e a encararam m aravilhados. Viu seus sentim entos saltarem da alegria à adm iração enquanto a exam inava. Em seguida, para desej o envolto em curiosidade.

– Oi, gata – respondeu.

Tam ires teve um sobressalto e se afastou. Só então notara o quão perto chegara. Para ela, Nicolas não era um estranho. Já para ele seria e m uito bonita.

– Oi, você está bem ?

Ficou aliviada ao sentir os outros vindo. Manteria Nicolas falando. O silêncio era m ais arriscado.

– Melhor agora, linda. Com o se cham a?

– Tam ires.

– Muito prazer, Tam ires. Bem , você j á sabe m eu nom e, não é? Aliás, de onde m e conhece? Não m e lem bro de term os sido apresentados. Nunca a esqueceria.

Tam ires revirou os olhos com as cantadas do rapaz. Que inoportuno.

– E não fom os m esm o. Meus am igos e eu viem os especialm ente para conhecê-lo.

– De onde?

– Muito longe.

Nesse m om ento, Alexandre chegava por trás da ruiva com cara de poucos am igos. Ouvira toda a conversa e não parecia nada satisfeito.

– Nicolas, esse é Alexandre.

O m oreno balançou a cabeça em um cum prim ento seco.

– Olá, desculpe os traj es e o local de encontro – brincou e piscou um olho para a ruiva. – Tive alguns problem as.

O casal se entreolhou. Que naturalidade estranha a dele. O que estava tentando fazer? Fingir que não estava quase nu e perdido nas dunas que tanto conhecia? Que não dorm ira ali m esm o e que se sentira na beira da m orte o tem po todo? Tam ires entendia bem pelo que ele tinha passado, m as por que aquele fingim ento? Seria algum tipo de defesa?

– Nós sabem os... – com eçou a ruiva e foi interrom pida por um cutucão do m oreno.

– Sabem ...? – questionou incrédulo erguendo as duas sobrancelhas.

Lucca e Marcel chegaram e Tam ires fez as devidas apresentações. Nicolas pareceu espantado com o cabelo acobreado do ruivo. Olhava dele para a ruiva o tem po todo com o para m edir suas feições. As sem elhanças físicas eram im pressionantes. Viram quando um a ruga se instalou na testa de Nicolas e ele se sentou, afastando-se um pouco, os olhos presos desconfiados no loiro.

– O que está acontecendo aqui? Quem são vocês e o que querem com igo?

Tanta gente para falar e ninguém tom ava a iniciativa. Olhando para Alexandre a fim de receber aprovação, Tam ires resolveu ser a porta-voz de toda a história, porém Lucca com eçou a falar, espantando a ruiva. Orgulhava-se de sua participação ativa, apesar de sua relutância inicial.

– Estam os aqui por você, Nicolas. Nós sabem os de tudo que está acontecendo desde o carnaval.

– De tudo? – O rapaz arregalou os olhos e se recom pôs em seguida. – Do que está falando?

– Sim , tudo – respondeu calm am ente. – Entendo sua relutância. Quando aconteceu com igo, tam bém foi m uito difícil aceitar. Achei que estava enlouquecendo.

Tam ires gostou da conversa entre eles. O tato que Lucca tinha na abordagem do assunto seria m enos chocante. Ficou bem quieta, deixando que o ruivo no centro da roda conduzisse o relato da form a que achasse m elhor. Em sinal de apoio, pousou um a m ão sobre seu om bro por alguns segundos.

– A pedra, os sentidos aguçados, o dom de ler pensam entos, o dom ínio sobre os elem entos, tudo foi um a descoberta nova e assustadora. Sentia-m e um a aberração. Sabia que era diferente da fam ília que m e adotara e dos pantaneiros, porém nunca sonhara que viria de outro m undo e que m inha fam ília verdadeira estava à m inha procura há m uito tem po.

Lucca trocou um olhar carinhoso com Tam ires e lhe afagou a m ão com um sorriso terno. Nicolas achou bonito – e óbvio o parentesco. Sentia falta de um a fam ília. Com o seria bom , pensou, encontrar a sua verdadeira tam bém . Será que ainda havia salvação para ele?

– Quando Tam ires m e encontrou, j unto com seus am igos, não foi difícil acreditar nas explicações que ela m e deu. Afinal, ela tam bém havia passado pela m esm a experiência, a única diferença era que buscou pela verdade o tem po todo até dar de encontro com ela. Eu m e acom odei na m inha vida com o arqueólogo, noivo e filho. – Sorrindo, acrescentou. – Foi um a índia que m e fez enxergar que a vida estava além de Corum bá e que m eu destino era m aior e m uito distante dali. Você vai conhecê-la m ais tarde. Está descansando agora.

Chegara o m om ento tão esperado e tão tem ido. Nicolas saberia toda a verdade. O que pensaria sobre ela? Ele parecia paralisado diante das palavras de Lucca. Tam ires podia ler a dúvida em seus olhos e ao m esm o tem po o fascínio. Pelo m enos estava disposto a ouvir até o fim . Sorriu satisfeita. Bastava isso, que escutasse.

– Tam ires m e contou sobre nossos pais, sua vida em um m undo encantado, longe do m undo real e cercado pela m agia e poder dos elem entais. Um m undo onde a natureza e sua essência criadora é preservada com o intuito de conservar a vida. Um m undo que foi brutalm ente dom inado por um m ago m esquinho capaz de arrancar vidas em prol de sua ganância. Ele foi capaz de ceifar a vida de nossos avós e de nossa m ãe. Apenas nosso pai conseguiu fugir para este lado, porém se perdeu de nós. Você deve ter ouvido falar dele. Era o astrônom o Pedro Tosquini.

Nicolas deixou o queixo cair. Que história m ais m aluca. Mas por que fazia sentido? Aquela carícia em seu rosto lhe garantia teim osam ente que era verdade. Teria m esm o pirado de vez? Estaria sonhando? Sentiu-se frustrado se fosse só sua im aginação porque a beleza de Tam ires m erecia existir. Lucca interrom peu seus pensam entos.

– Fom os salvos por um a am iga de nossa m ãe, j á que éram os im portantes para a salvação do m undo do qual viem os e do resto do planeta. Um a profecia previra o levante do m ago, porém tam bém garantira protetores, quatro pessoas poderosas capazes de dom inar os quatro elem entos e de conhecer a verdade de algum a form a peculiar. Porém , os quatro irm ãos, filhos da sacerdotisa m ais am ada e respeitada do Coração da Natureza, foram perdidos e quase m ortos na passagem para cá.

Lucca viu os pensam entos de Nicolas em conflito. Ele engoliu em seco à m enção dos elem entos e da verdade. Prosseguiu sem dar tem po para que absorvesse a prim eira parte.

– Caím os em lugares diferentes do país e fom os criados de form as distintas. Mas com o saber quando estaríam os prontos para voltar e resgatar o coração congelado da natureza do poder do m ago? O alinham ento planetário. Sua aproxim ação fez com que as pedras, que são a chave para o portal que nos levará de volta à nossa origem , despertassem a m agia que existia dentro delas e, consequentem ente, em cada um de nós. Esse evento está próxim o, Nicolas, e você é o últim o elem ento que falta. O ar. Você acaba de passar pela transform ação final e está com pletam ente apto para exercer seu papel. Integralm ente um guardião-protetor. Um ser raro e poderoso.

Um a onda, que lhe causou náusea, quase o fez desm aiar. O ar rodopiava em sua cabeça com o para confirm ar as palavras am alucadas daquele estranho. O que ele está querendo dizer? Que ele é meu irmão? Que tenho poderes? Que há uma missão suicida, predestinada para mim desde meu nascimento? Este cara é que deve estar louco, não eu!

– Sou o elem ento terra e m inha pedra é o ônix. A Tam ires é o fogo e sua pedra é a am etista. Suzane, a caçulinha, é a água e sua chave é a pedra-da-lua. Ela não pode vir porque anda m uito fraca, m as se vier conosco, poderá conhecê-la. O portal se abrirá em breve e precisam os estar reunidos e prontos para cum prir nosso papel nesse im portante evento. Sem você, nós nunca conseguirem os. Som os com o um a unidade.

Nicolas não conseguiu m ais se conter. Caiu em um a gargalhada gostosa e descontrolada. Os quatro ficaram olhando sem acreditar na reação do rapaz. Parecia m esm o desequilibrado em ocionalm ente. Talvez tivessem forçado dem ais. Muita inform ação de um a só vez. A m ente dele estava frágil, pensou Tam ires.

Ninguém falou nada enquanto o ataque de riso persistia por um tem po constrangedor. Ninguém sabia o que fazer ou dizer. Esperaram que passasse e que Nicolas se recom pusesse a fim de dizer o que estava pensando, m esm o sendo extrem am ente claro.

Depois de m uitos m inutos, e ainda em m eio e alguns risos soltos e histéricos, com eçou a falar, sua voz saía aguda e descontrolada. Forçava um a atitude que não condizia com sua m ente, estava claro para Lucca e Tam ires, principalm ente, que conheciam o que se passava em sua alm a naquele m om ento. Conflito.

– Vocês devem ser m alucos se acham que vou acreditar nesse conto da carochinha. Magia não existe nem pedras poderosas nem controle sobre os elem entos. Que lugar bizarro é esse que criaram ? Coração da Natureza? Isso soa tão ONG. Salvem a natureza! – caçoou o rapaz. – Olha, entendo a preocupação de vocês quanto a isso, tam bém m e im porto, claro. Mas estão usando o discurso errado. Não é inventando um a ligação cósm ica entre os astros e a natureza, com um a pitada de m agia, que vocês vão conseguir convencer. Trabalho com ideias e posso lhes aj udar com algum as que darão m uito m ais resultado do que isso, podem confiar em m im .

Voltou a gargalhar alto enquanto o grupo se entreolhava incrédulo. Que resposta era aquela? Nicolas estava inevitavelm ente fugindo da realidade. Tam ires resolveu interrom per aquele acesso do rapaz quando ele voltou a falar tentando recuperar o fôlego.

– Acho que o m ais absurdo é usarem o fato de eu ser órfão para criar um parentesco entre a gente. Olhem para vocês! São ruivos! São parecidos, adm ito, provavelm ente são m esm o irm ãos. Mas não tenho nada a ver fisicam ente com vocês. Tenho o cabelo escuro e os olhos azuis. E sou m ais alto que você – apontou para Lucca. – Não dá para acreditar nisso.

– Você é m uito parecido com Suzane – introm eteu-se tristonho o ruivo. – Que, aliás, é m uito sem elhante a nossa m ãe, Luise. Você pode conferir com seus próprios olhos, Tomé, se não acredita em nós. Basta vir com a gente.

Tam ires se surpreendeu com a últim a fala de Lucca. Esse tom não era norm al, m as tam bém não estava acostum ado a duvidarem dele, de sua palavra. Era honesto dem ais para adm itir um a ofensa desse tam anho, m esm o que Nicolas tivesse todos os m otivos do m undo para não acreditar. Ficou ainda m ais triste com o desfecho dessa história. Não acreditava m ais que daria certo. Olhou na direção do irm ão incrédulo, que ainda ria deles, e sentiu seu coração se partir. Seria duro ir em bora sem ele. Deixaria para trás parte de seu coração.

Nicolas parou de rir na hora em que percebeu o olhar de Tam ires. Mexeu tanto com ele, de um a form a diferente da prim eira e inesperada vez em que a vira. Sentiu um a ternura fraterna, com o se seu coração a reconhecesse com o irm ã, m as sua m ente não fosse capaz do m esm o.

A ruiva tirou do bolso um pedaço de papel am assado e passou para ele. Dem orou um m om ento longo dem ais para explicar o que significava, então desdobrou-o e com eçou a ler quando a voz, sedosa e quente de Tam ires, se fez ouvir e seu coração faltou saltar pela boca.

– Você corre perigo e a pedra tam bém , por isso estam os vigiando você há algum tem po, de perto. A m inha e a de Lucca desapareceram e tem os receio de que aconteça o m esm o com a sua. Fique de olho nela. Ela é m uito im portante para que retornem os para casa. – Sua voz era tristonha e seu olhar choroso. – Vam os deixar você pensar sobre tudo o que te contam os, absorver a verdade e reconhecê-la. Não tente fazê-lo com sua m ente porque desse m odo nunca acreditará. Ouça seu coração. Ele lhe dirá o que fazer. Caso resolva rápido, estarem os por perto no prim eiro endereço deste papel até o final da sem ana. Se não decidir vir conosco agora, poderá nos encontrar no segundo endereço. E se você – a ruiva quase engasgou ao dizer a próxim a palavra – não quiser m esm o conhecer de onde veio, queim e isto.

Nicolas sentiu um desej o insano de correr o espaço entre eles e estreitá-la nos braços, dizer-lhe que não queria que ficasse triste, que iria aonde quer que ela quisesse só para vê-la sorrir com o antes, m as se conteve. Apenas balançou a cabeça, escondendo seus verdadeiros sentim entos atrás da incredulidade e do sarcasm o.

– Perda de tem po e de papel. Acho que desperdiçou um a árvore, senhora ecologia. Aconselho vocês a voltarem exatam ente de onde vieram . Não gostei de m e vigiarem . Gosto de m inha privacidade. Por favor, a respeitem . – Levantou-se de um pulo. – Acho que é adeus, não é? Adoro fazer novos am igos, pena que a nossa am izade está separada por um a distância inacreditável.

Lara de repente surgiu no horizonte correndo rápido dem ais. Seu surgim ento acom panhava o sol subindo no céu da m anhã. Gritava por Nicolas em desespero e ao m esm o tem po em alegria por tê-lo encontrado. Jogou-se em seus braços em busca de ferim entos e constatou que seu físico continuava perfeito. Apenas alguns arranhões.

– O que aconteceu, am or? Fiquei tão preocupada!

– Desculpe, m eu anj o, acho que perdi a noção. Podem os ir para casa? Preciso descansar um pouco.

– Claro, vam os para o sítio. Estou de carro.

Nicolas j á a estava virando quando Lara finalm ente notou o grupo paralisado e triste próxim o.

– Quem são eles? – perguntou a Nicolas.

– Turistas.

– Ah. O que queriam ?

– Sei lá. São um bando de m alucos. Não vale a pena falarm os sobre isso. Preciso tanto de um banho.

E a puxou tão rápido para longe dali que a m ulata nem notou o loiro que a perseguira.

***

Cheguei ao sítio da família de Lara com o coração pesado. Primeiro pela preocupação que causara a todos que se mobilizaram para me encontrar. Segundo, por aqueles estranhos por quem passei a ter sentimentos bons. Sabia que tinha facilidade com relacionamentos, mas a questão ali era diferente. Eles se diziam a minha verdadeira família. Meu coração se encheu de uma esperança que nunca esteve ali.

A solidão era contornável. Era uma passagem. Um momento que se findava. Podia deixar de ser uma ilha. Voltaria a fazer parte de um núcleo de pessoas do mesmo sangue, com o mesmo propósito, com o mesmo destino. Aquele sentido de pertencimento era divino. Sempre amaria meus pais adotivos, mas conhecer minha verdadeira família era um anseio que crescia enquanto me preparava para um banho quente e refletia sobre os acontecimentos.

Não podia negar que algo diferente havia acontecido comigo durante naquelas horas longas e solitárias, onde dor e morte eram minha única realidade. Mas como aceitar uma explicação tão improvável? Talvez nunca soubesse toda a verdade. Talvez não importasse. Só o fato de saber que havia mais de minha família real e que meus pais não me abandonaram propositalmente já era um conforto.

Algo se remexia dentro de mim querendo encontrar saída. O desejo de conhecer a tal Suzane, irmã que compararam comigo, me perturbou muito. O fato de me sentir atraído por Tamires também me embaraçou. Se fôssemos mesmo parentes, poderia ter cometido incesto. Que absurdo!

Ela era realmente linda, não havia como negar. Como seria a tal Suzane? Teria os cabelos escuros como os meus? Os olhos azuis? A tez branca e rosada? Pensei nos endereços que estavam no papel e que já havia decorado.

O pedaço amassado da folha com a letra rebuscada de Tamires – deduzi – havia descido descarga abaixo. Não queria que Lara o encontrasse e fizesse mais perguntas. Contornara todas muito bem.

Voltei a mente ao antes, a loucura de quase morte. A dor sem fim. A sensação de sufocamento. Eu me encolhi com a lembrança. Como era intensa! Automaticamente, toquei a parte de minha coxa onde a dor fora maior e mais concentrada. Não havia nada ali além de pele. O que estava esperando? Uma ferida aberta? Cicatrizada? Não fazia ideia. Ainda assim, resolvi conferir com os olhos. Era bem na parte interna da coxa esquerda.

Quase escorreguei e caí de susto. Onde não senti nada com os dedos havia uma marca estranha. Lembrava que ali havia uma marca de nascença que se assemelhava a uma forma geométrica. Mas o que significava aquele triângulo perfeito virado para cima com um traço o cortando pelo meio? A marca era vermelha como uma ferida recente, porém cuidada e tratada, e que não causava mais dor. O que mais me espantou foi a forma perfeita do desenho. Estaria imaginando aquilo também?

Tomei banho o mais rápido possível, me enrolei na toalha e procurei pelo meu Iphone. Acessei a internet e pesquisei no buscador o que significava aquele símbolo. Quase caí para trás quando, em vários sites, a resposta me fez perder o chão.

Ar. Esse era o símbolo universal desse elemento. Do elemento do qual me disseram que era regido. Outras perguntas povoaram minha mente. De que signo seria? Qual seria minha verdadeira data de nascimento? Perguntas que ficariam sem resposta se continuasse me recusando a procurar por aqueles estranhos.

Ou diria, por minha família?

Agf, isso era doido demais! Não queria mais pensar, talvez a inconsciência me ajudasse a me tranquilizar. Estava um pouco cansado, mas não o suficiente para apagar como queria.

Ainda assim deitei na cama sem me preocupar em me vestir. Procurei perceber se estariam me vigiando lá fora, como acreditavam que estava em perigo. Tentei ouvir alguma coisa e ao invés disso, simplesmente os senti. Não sei explicar bem, mas sabia que estavam lá. Como se minha energia tocasse e reconhecesse as deles sem que tivesse que ouvi-los ou vê-los com meus sentidos comuns. Percebi que estavam meio distantes. O que temiam?

Devia ter parecido um louco rindo deles daquele jeito, mas foi inevitável. A história toda era absurda demais para não me causar um acesso. Não costumava ser grosseiro com as pessoas, muito menos com estranhos, mas não consegui me conter.

Acho que devia um pedido de desculpas. Seria muito mais educado do que a maneira cretina com que me afastei mais cedo. Acho que tinha mesmo um quê de canalha. Lorenzo tinha razão quanto a isso. Podia entender a antipatia do irmão – mais novo, porém tão protetor quanto outro qualquer – de Lara por mim. Já a havia magoado antes. O rapaz também era homem e entendia bem a atração de uma mulher sobre o sexo oposto.

E minha fama não me ajudava muito a ganhar sua confiança. Se tivesse uma irmã, também não gostaria que um homem como eu chegasse perto dela. Ri diante do pensamento.

Pensei no presente que eu havia dado a Lara. Era a maior prova do que ela significava para mim. Sempre significou. A água-marinha era o presente dos céus no meu nascimento sobre as dunas. Era o elo com meu passado. Um passado que agora se deparava diante de mim com várias incógnitas. Um passado que não me explicava nada, só me confundia mais. E, no entanto, fazia um sentido absurdo!

Afinal, que lógica tinha a vida? Que sentido havia nos sentimentos? Que guia senão o destino traçava nosso futuro? Estava de acordo que a vida era incontrolável apesar de querer sempre ter o domínio sobre a minha.

Dei com a cara em uma parede de concreto chapiscado. Doeu. Talvez essa fosse a maior lição que levaria de tudo isso. Também me lembraria que a solidão é dolorosa demais para desperdiçarmos nossa liberdade com ela. Voltaria para Vitória um homem melhor. Disso tinha certeza. Olharia para as pessoas e para a vida de outra maneira. Estava na hora de mudar de atitude, sem perder minhas características, apenas melhorá-las.

O resto, as experiências da loucura e da quase morte, trancaria em algum lugar recôncavo do meu ser. Seriam lembranças dolorosas demais para ficar remoendo. E sobre minha família, sonharia que ela vivia em alguma parte consciente de mim. Ergueria-me daquela cama um novo Nicolas. O passado ficaria exatamente onde deveria na linha do tempo e viveria o presente, seguindo para um futuro que construiria ao lado de Lara.

Como era fácil admitir isso agora. Natural. Sólido. Verdadeiro. Agora sabia que a amava e que passaria o restante de minha existência ao seu lado, sem arrependimentos. Seria um bom parceiro para ela. Respeitaria e a amaria como ela merecia e seríamos felizes. Por que não podia me dar esse direito? Um fim de conto de fadas para uma vida tumultuada pelo incerto? Merecia.

Os anos passariam. Ficaríamos velhinhos e juntos, cercado de filhos, netos e bisnetos, passaríamos à nossa descendência todo o conhecimento adquirido em tantos anos. Passaríamos parte de nós mesmos e assim terminaria minha história.

“E viveram felizes para sempre.”